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Terra de "Despacito": Como Porto Rico virou o maior polo musical dos EUA

Luis Fonsi e Daddy Yankee: "Despacito" tem mais de 5 bilhões de views no YouTube - Sergi Alexander/Getty Images
Luis Fonsi e Daddy Yankee: "Despacito" tem mais de 5 bilhões de views no YouTube Imagem: Sergi Alexander/Getty Images

Osmar Portilho

Colaboração para o UOL

29/07/2018 04h00

Vários polos musicais fazem parte da história dos Estados Unidos, mas um específico tem chamado atenção. E não é o clássico jazz de Nova Orleans e nem popular country de Nashville. A maior nascente vem de um território americano ainda não anexado: Porto Rico.

Em 2017, a população votou positivamente em um referendo apoiando que a ilha caribenha se torne o 51º Estado do país. Embora a decisão seja politicamente contestada pela atual gestão da Casa Branca, culturalmente já podemos dizer que a música nascida em Porto Rico tem mais do que cidadania norte-americana. Ela é uma residente permanente e tem visto garantido no mundo inteiro.

Para citar um exemplo irrefutável, vamos direto ao maior caso de sucesso: "Despacito". O hit de Luis Fonsi e Daddy Yankee já bateu 5,3 bilhões de visualizações no YouTube e, possivelmente, até chegar ao fim desta reportagem, terá conquistado números ainda maiores.

Só em 2017, artistas de Porto Rico foram responsáveis por emplacar 27 dos cem vídeos de música mais vistos do YouTube. No Spotify, quatro dos seis artistas mais populares da América Latina são de lá: Fonsi e Yankee são a acompanhados por Bad Bunny e Ozuna no topo.

Tudo isso vindo de uma ilha com 3,5 milhões de pessoas e mais 5 milhões de porto-riquenhos que vivem nos EUA. "A relação de Porto Rico com a música é tudo. É uma ilha cheia de talento. Se você nascer lá, já nasce respirando música", disse Bad Bunny, cujo nome real é Benito Ocasio, ao jornal inglês "The Guardian". Aos 24 anos, o cantor possui números invejáveis: no Spotify, são 40 milhões de ouvintes mensais de hits como "I Like It", que já tem 358 milhões de execuções no serviço de streaming.

Bad Bunny tem 40 milhões de ouvintes mensais no Spotify - Kevin Winter/Getty Images
Bad Bunny tem 40 milhões de ouvintes mensais no Spotify
Imagem: Kevin Winter/Getty Images

Intercâmbio cultural

A relação estreita com os Estados Unidos criou esse intercâmbio rico. O swing do reggaeton ganhou batidas pesadas do hip-hop. A melodia dos refrãos latinos agora se intercala com versos rimados do rap. Em inglês ou espanhol, não importa: a música porto-riquenha criou uma língua própria.

"Porto Rico está logisticamente em um local onde se recebem muitas influências, tanto dos Estados Unidos como da Europa e América do Sul", explicou Daddy Yankee, que aproveita a oportunidade de explorar o mercado dos americanos. "É parte dos Estados Unidos. Somos cidadãos americanos e isso nos dá muita informação de todo o mundo", completou.

Desde 1917, pessoas nascidas em Porto Rico também tem a nacionalidade americana. A lei, chamada de Jones-Shfroth Act, beneficiou imensamente o campo musical, abrindo porta para músicos latinos há anos. Artistas como Ricky Martin, Tito Puente, Willie Colón e Ray Barretto, por exemplo, apresentaram o jazz latino e a salsa ao grande público americano.

O fator streaming

Nos anos 90, para um artista latino convencer meia dúzia de executivos de gravadora a lançar seu produto em mercados estrangeiros podia ser um exercício. Hoje, as fronteiras do mercado demarcadas por mídias físicas foram derrubadas pelo streaming. "Isso é fantástico. Os artistas se conectam diretamente via redes sociais e não temos mais esses limites", explicou Angel Jaminsky, vice-presidente executiva da Universal da América Latina.

Os números expressivos alcançados no Spotify, Deezer e YouTube bastam por si só. "A música viaja mais rápido. A gente não depende de um executivo decidir se gosta da sua música ou não. E isso é chave no nosso sucesso", completou Yankee.

Colaboração (ou não)

A colaboração entre artistas de Porto Rico com americanos é outro fator importante para o crescimento do gênero. Cardi B trabalhou com Ozuna, enquanto Bad Bunny colaborou com Demi Lovato.

Embora a troca no campo musical seja rica, do lado político as coisas não andam tão bem. No passado, Porto Rico, que passa por uma séria crise financeira, votou positivamente em se tornar definitivamente um Estado norte-americano. A medida, no entanto, não é vista com bons olhos pelo Congresso, principalmente a ala republicana. O próprio presidente Donald Trump teve atritos com Carmen Yulín Cruz, prefeita de San Juan, e foi criticado pela falta de apoio aos moradores depois de a ilha ser atingida por furacões no fim do ano passado.

Cardi B e Ozuna se apresentaram juntos o Billboard Latin Music Awards - David Becker/Getty Images
Cardi B e Ozuna se apresentaram juntos o Billboard Latin Music Awards
Imagem: David Becker/Getty Images

Politicamente, Porto Rico também tem músicos dispostos a usar sua arte para serem ouvidos. Residente, rapper conhecido pelo grupo Calle 13, é um dos que acredita na força da música. "Nós nascemos com a revolução em nossas veias", diz Lin-Manuel Miranda, vencedor do prêmio Pullitzer, na primeira faixa do homônimo de Residente, de 2017.

Também rapper, PJ Sin Suela fala constantemente sobre política em suas letras ou discursos durante shows. "F***-se, Donald Trump. Você não representa a moral do meu povo", diz ele na canção "Vivo". Na faixa, ele rima tanto em espanhol quanto inglês e cita o fato justamente para ser entendido em todos os territórios.

Com o crescimento da intolerância nos Estados Unidos, porto-riquenhos ficam no meio do caminho. São americanos, mas sofrem discriminação por sua origem latina.

"Eu cresci numa área rural chamada Vega Baja e sou uma das primeiras pessoas daquela área a fazer sucesso. Eu sinto muito orgulho em representar o lugar de onde vim e poder mostrar para meus fãs que qualquer coisa é possível. Se um garoto de uma cidade pequena como eu, que pedia comida, pôde realizar seus sonhos, você também pode", contou Bad Bunny.