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Um improviso em Homem de Ferro mudou a história dos super-heróis no cinema

"Eu sou o Homem de Ferro" - Divulgação
"Eu sou o Homem de Ferro" Imagem: Divulgação

Osmar Portilho

Colaboração para o UOL

24/07/2018 04h00

Qual é a fórmula correta para se adaptar uma história que nasceu nos quadrinhos para o cinema? Ser totalmente fiel ou tomar as rédeas do personagem e criar sua própria narrativa? É óbvio que não existe uma maneira perfeita de fazer isso, mas é inegável que a Marvel tem uma equação que beira a perfeição neste quesito.

Embora estejamos vivenciando uma era de domínio pleno dos filmes da Marvel nos cinemas -- em cinco meses, "Pantera Negra", "Vingadores: Guerra Infinita" e "Homem-Formiga e a Vespa" somaram US$ 3,7 bilhões nas bilheterias --, esta crescente do estúdio teve um estopim inusitado, como conta um artigo do site Deadline.

Robert Downey Jr. como Homem de Ferro em filme de 2008 - Divulgação - Divulgação
Quem melhor faria Tony Stark?
Imagem: Divulgação

Não é segredo para ninguém a importância que "Homem de Ferro", Jon Favreau e Robert Downey Jr. têm nesse processo. Indo mais além, Kevin Feige, presidente da Marvel, citou na matéria um momento emblemático do primeiro filme da série que serviu como momento de virada para que eles tivessem controle de sua obra e caminhassem em direção ao sucesso.

No encerramento de "Homem de Ferro" (2008), Tony Stark está em uma coletiva de imprensa e faz um discurso. Em vez de ler o papel que está em suas mãos, ele solta a bomba: "A verdade é que...Eu sou o Homem de Ferro".

Grande momento, não? E nem estava no roteiro. Foi um improviso de Robert Downey Jr.

Com esta frase, uma tradição de décadas de super-heróis foi jogada pelos ares. E não é que os fãs gostaram?

A mania de querer manter a identidade secreta dos super-heróis já havia sido ultrapassada. Afinal, quem não reconhece Superman de óculos fingindo ser Clark Kent?

Feige afirmou que essa ruptura foi crucial para que a Marvel seguisse nesta nova direção com seus filmes na sequência. "O sucesso nos inspirou a ir adiante e confiar em nós mesmos para encontrar o equilíbrio entre ser fiel ao espírito dos quadrinhos, mas não ter medo de adaptar, evoluir e mudar algumas coisas", disse o presidente do estúdio.

"É uma linha muito tênue. Se você mudar algum elemento sem motivo algum é uma coisa. Mas se você mudar para dar mais profundidade ao espírito do personagem, essa é uma mudança que faremos. Tony Stark não ler aquele cartão e não seguir o roteiro? Do nada soltar que ele é o Homem de Ferro? Isso me parece ser muito fiel ao que é o personagem. Só não havia sido feito antes", completou.

 Kevin Feige, presidente dos estúdios Marvel - Getty Images - Getty Images
Kevin Feige, presidente dos estúdios Marvel
Imagem: Getty Images

Ainda segundo Feige, essas mudanças propostas pela Marvel têm feito os fãs elevarem ainda mais suas expectativas pela evolução dos filmes. "Eles querem que nós fiquemos inspirados pelos quadrinhos, e não somente sejamos devotos deles".

Tony Stark, o salvador de Downey Jr.

De um ator extremamente promissor, Robert Downey Jr. viu sua carreira em queda e seu rosto cada vez mais frequente nos tabloides. Drogas, álcool e até armas fizeram com que as polêmicas deixassem seu talento jogado cada vez mais para escanteio.

"Estou fazendo coisas diferentes agora. Eu tenho uma razão ótima para mudar as coisas da minha vida. É muito difícil você mudar se não tiver um bom motivo para isso", disse o ator em 2007 ao repórter Geoff Boucher, ainda no set de "Homem de Ferro".

Sua escolha era terrivelmente questionada nos bastidores, exceto por Favreau.

"Eu me preparei para o teste de maneira tão intensa que eu tornei impossível que alguém conseguisse se sair melhor que eu. Eu nunca trabalhei tão duro como daquela vez", explicou.

"Um medo absoluto de falhar. Eu me preparei tanto que era possível que uma onda colidisse em mim que ela não me derrubaria. Eu vejo isso toda hora. As pessoas acham que estão prontas, preparadas e 'boom' vem alguma coisa e te derruba", completou.

Naquela época, tudo era uma aposta para o ator se reerguer. Hoje, do lado de cá, sabemos os números estratosféricos que ele e a Marvel ajudaram a galgar.

O ator Jon Favreau, que estará no novo "Homem-Aranha" - Getty Images - Getty Images
Jon Favreau apostou em Robert Downey Jr.
Imagem: Getty Images

"Eles vão fazer um filme sobre um brinquedo?"

Ter um elenco de peso manda um recado direto para o mercado e para as críticas. Jon Favreau sabia disso quando abraçou o projeto de "Homem de Ferro".

"Eu lembro de ver a notícia de que a Disney faria um filme sobre 'Piratas do Caribe' e eu pensei: 'Eles vão fazer um filme sobre um brinquedo de um parque?'. Eu lembro de ter torcido o nariz e até ter desdenhado um pouco. Aí eu ouvi dizer que fariam 'Piratas do Caribe com Johnny Depp'. Aí pensei que seria interessante", explicou.

Em "Homem de Ferro", não bastava somente ter Robert Downey Jr. como estrela. Gwyneth Paltrow, Jeff Bridges e Terrence Howard embarcaram no longa para dar um recado claro para Hollywood: a Marvel não estava de brincadeira.

Como encontrar o tom certo

Hoje, dez anos depois de "Homem de Ferro", já sabemos qual é o tom de um filme da Marvel. Mas como eles chegariam nesse ponto? Qual é o tom certo?

"A parte mais difícil é encontrar esse tom e mantê-lo para que pareça algo que não exija esforço e seja autêntico", explicou Favreau, que usou como comparação os filmes de Jason Bourne.

Jeff Bridges e Gwyneth Paltrow em "Homem de Ferro" (2008) - Divulgação - Divulgação
Jeff Bridges e Gwyneth Paltrow em "Homem de Ferro" (2008)
Imagem: Divulgação

"Ele não está fazendo piadas porque está em um modo de sobrevivência em um mundo intenso. Compare com James Bond. Há um pouco mais de espaço para ironia, mas ainda temos que manter a intensidade e a questão da sobrevivência. Na outra ponta temos 'Batman' do Tim Burton, onde há o melodrama que torna Gotham City divertida, mas sem tirar sarros dos elementos pesados do filme", afirmou.

Para Favreau, o sucesso estabelecido por "Homem de Ferro" está em uma sequência fantástica de elementos, mas principalmente na confiança para se apropriar dos personagens.

"Temos muita coisa a nosso favor. Temos os quadrinhos e a tradição do personagem. Uma equipe ótima. E temos o Robert na armadura. Eu me sinto bem. Acho que podemos fazer esse negócio voar", disse ele na época.

E voou mesmo.