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Garota síria de 13 anos escreve diário contando os horrores da guerra

Divulgação/F. Thomas
A garota síria Myriam Rawick que escreveu da guerra um diário sobre suas dificuldades Imagem: Divulgação/F. Thomas

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em São Paulo

06/07/2018 04h00

Dos seis aos 13 anos, a garota síria Myriam Rawick escreveu em Aleppo um diário sobre os horrores da guerra civil no país. A cidade foi uma das mais afetadas pela violência. Sua visão inocente, mas bastante incisiva da guerra, despertou a atenção do jornalista francês Philippe Lobjois, que estava no país como correspondente e ficou impressionado com os relatos da menina.

Com autorização da família de Myriam, Philippe publicou na França, em 2017, o livro “O Diário de Myriam”, que foi imediatamente comparado com o "Diário de Anne Frank". A versão em português chega agora ao Brasil com uma caprichada edição feita pela editora Dark Side (R$ 39,90).

"Viajei para a Síria para acompanhar a vida dos moradores que tiveram que deixar suas cidades por causa da guerra civil", contou Phillippe em entrevista ao UOL. “Para mim, este livro é sobre sobrevivência. A história de Myriam é muito parecida com a de outros países em guerra. As crianças nunca deveriam se envolver em guerras", lamentou.

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Capa do livro "O Diário de Myriam" Imagem: Divulgação
O autor conheceu a família de Myriam, que é cristã, por meio de uma instituição marista que apoia os refugiados. "Conheci Antonia, mãe de Myriam, com os Maristas. Ela me chamou e me mostrou o diário da filha. Na hora, eu vi ali havia um conteúdo inestimável".

Para Phillippe, a comparação com o "Diário de Anne Frank" é inevitável. "As duas garotas enfrentaram os horrores da guerra aos 13 anos. Myriam, no entanto, não ficou confinada dentro de casa como Anne. Ela saía na rua e frequentava a escola, embora em meio a bombardeios e tiroteios".

O livro é uma reprodução literal do diário de Myriam e, a partir de sua visão inocente, conseguimos imaginar o esforço que sua família fez para tentar minimizar a guerra para ela. Em várias situações, é possível perceber que os pais conseguem contornar a violência. Mas há momentos de completa tensão, quando, por exemplo, ela conta que um primo foi morto em um tiroteio lutando contra o Estado Islâmico e que o velório seria no dia seguinte.

"Na escola e na igreja, eles estão tentando ensinar a Myriam que é importante perdoar. Que a Síria só vai se reerguer se todos puderem conviver juntos após tudo isso acabar. A garota, no entanto, ainda tem dificuldades em aceitar a violência", disse Phillippe. O autor destaca a crença cristã da família, que é minoria na Síria. "Antes, os cristãos viviam em paz na Síria, agora eles são perseguidos".

Veja alguns trechos marcantes do diário:

  • "Meu nome é Myriam, tenho 13 anos. Cresci em Jabal Sayid, bairro de Aleppo, onde também nasci. Um bairro que não existe mais. Tenho medo de esquecer essas imagens, essa cidade que desapareceu, esse mundo que afundou no caos".
  • "Hoje foi um dos piores dias da minha vida. Acabei de rezar bem forte para pedir a Deus que isso nunca mais aconteça. Hoje de manhã, estava no apartamento dos vizinhos de baixo, brincando de colorir. Estava pintando um sol de amarelo quando ouvi um barulho enorme de bomba que fez tremer tudo. Dei um pulo tão alto que espalhei meus lápis de cor por toda a sala, soltando um grito".
  • "Hoje, o tio Rami veio em casa. Ele parecia triste, tinha os olhos bem vermelhos. Mamãe me disse para ir até o quarto de Jedo e Tita com Joelle para deixá-los conversar. Mas eu me escondi no corredor para poder ouvir. O tio Rami disse que o primo Abu tinha sido morto na cidade velha. Ele e seu grupo de soldados estava atirando para proteger a cidadela. Mas uma bomba caiu em cima deles. O primo Abu tinha 19 anos. Mamãe disse que eles puderam, ao menos, buscar o corpo e que poderemos enterrá-lo".
  • "De repente, ouvimos o assobio de um míssil que se chocou bem atrás de nosso prédio e explodiu. Esperamos, pensando que aquele seria o único. Mamãe abriu imediatamente as janelas para que elas não explodissem. Eu estava descalça quando o segundo míssil caiu no prédio bem ao lado do nosso. Isso fez um estrondo assustador, como se um raio tivesse caído em cima de nós. Mas bem pior."
  • "Foram eles que decidiram atacar Aleppo, não nós. Foram eles que sitiaram Aleppo, bloqueando a estrada e nos deixando passar fome durante meses. Foram eles que atacaram nosso bairro e nos obrigaram a abandoná-lo. Nunca os perdoarei pelo dia 10 de abril, e pela noite em que o míssil caiu onde eu tinha acabado de passear com papai, mamãe e Joelle".

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O jornalista francês Phillippe Lobjois organizou o livro "O Diário de Myriam" Imagem: Divulgação/F. Thomas

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