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Um medo que move: Chicão Eller canta para se libertar de Cássia

Chicão Eller, o Chico Chico, em entrevista ao UOL - Marcos Hermes/UOL
Chicão Eller, o Chico Chico, em entrevista ao UOL
Imagem: Marcos Hermes/UOL

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

03/07/2018 04h00

"Você deve se parecer com seu pai também, ou com sua mãe. Alguém deve te falar isso, não é possível. A diferença, talvez, é que eu ouço mais as pessoas falarem isso."

Dificilmente Chicão Eller --que atende pelo nome artístico de Chico Chico-- escapa das comparações com a mãe, Cássia. As feições lembram muito as da artista, que morreu em 2001; o timbre ao cantar, também. Mas o carioca de 25 anos tem sua teoria para explicar o que vive em relação a Cássia: "transferência de amor".

Muitas pessoas que eram fãs da cantora acabam sentindo por ele o mesmo amor que sentiam pela artista. Mas o ato de carinho nem sempre é confortável para Chicão.

"Respeito muito o que minha mãe fez e amo, mas meu compromisso não é com o que ela fez, é com o que eu vou fazer. E às vezes as pessoas têm dificuldade de perceber isso. 'Amo muito sua mãe, e amo muito você por causa disso'. É ótimo, mas assimilar é difícil, porque não conheço essas pessoas. Não é minha vida. Essa transferência é uma pressão. É algo que não consigo alcançar, às vezes", desabafa.

Chicão conhece bem os palcos. Desde criança era convocado por Cássia Eller para tocar percussão. E chegou a fazer sua brincadeira no Rock in Rio de 2001 durante o emblemático show da cantora. Aquela canja lhe rendeu uma das lembranças mais especiais. "Eu ganhei um cachê de R$ 20 da minha mãe, por ter tocado, e comprei uma pulseira. Acho que custou R$ 20 mesmo", ele ri. "Foi meu menor cachê e o mais mal gasto, mas foi meu primeiro e foi ótimo".

Além dos violões da mãe, Chicão herdou os discos. O primeiro que se lembra de ouvir foi "Yellow Submarine" (1969), dos Beatles. E foi só depois da morte dela que conheceu mais a fundo a discografia da cantora--tem até hoje uma preferência pelos dois primeiros discos, mais rebeldes-- e mergulhou no mundo de gente como Jards Macalé, Itamar Assumpção e Luiz Melodia, suas grandes influências.

O gosto pela música virou uma carreira própria quando lançou, em 2015, seu primeiro álbum solo, "2x0 Vargem Alta", basicamente só com composições suas, com levadas de folk e blues. Uma de suas influências atuais é o BaianaSystem, que hoje aparece de segunda a sábado na abertura da novela "Segundo Sol", da Globo. A música de mesmo nome, famosa com Cássia Eller, ganhou uma versão repaginada, mas ainda incluindo versos na voz da cantora. "Achei que ficou foda, melhor que a original".

Medo que move

Agora, 2018 marca a nova empreitada: sua mais recente banda com o estranho nome de 13.7, formada por Chico Chico (vocais e violão), Pedro Fonseca (teclado), Miguel Dias (baixo), João Mantuano (vocais) e Lucas Videla (percussão).

O nome é provocativo. Chicão brinca com as possibilidades de seu significado. "Pode ser o dia do rock [celebrado em 13 de julho]. Pode ser o aniversário da Daira [cantora carioca]. E pode ser porque a gente perdeu 13,7 gramas de béque [maconha] numa dura da polícia. Você é quem sabe", ele brinca, ressaltando não levantar bandeira com o nome do grupo, mas que apoia a descriminalização das drogas. "Não é assunto de polícia, é assunto de saúde pública". O caso a que ele se refere aconteceu em 2015, quando foi autuado pela polícia no Rio.

O primeiro single do 13.7 diz muito sobre a personalidade de Chicão. Com o título "Medo", fala dos temores que o cantor nutre, muitos deles relacionados à carreira na música. "Eu tenho muito medo, mesmo, de tudo. Mas é algo que me move, não me deixa petrificado. Tenho medo de mim, de vacilar com os outros, das coisas não darem certo. Ser compositor é ótimo, mas você faz uma música e você ama, aí dá dois minutos e você fala: 'Que merda eu escrevi?'", pondera ele.

Com a palavra

Chicão traça linhas objetivas para mostrar onde acaba Cássia e começa sua própria carreira. Em primeiro lugar, explica que as heranças que ele traz não se refletem na sua música. "Eu não levo adiante algo que minha mãe fez. Eu faço a mesma coisa que a minha mãe fazia e amava. Mas o trabalho dela é o trabalho dela. E o meu é o meu".

Depois, com modéstia, se vê com um trabalho diferente do de Cássia, uma reconhecida intérprete: "A minha mãe era cantora, cantava pra caralho. Eu não tenho a técnica e a potência que ela tinha. O timbre pode parecer, mas é outra história. Minha mãe era cantora das grandes, das boas. Meu lance é compor. Não sou nem músico, nem cantor. Sou um compositor".

A cantora Cássia Eller, a mulher, Eugênia, e o filho, Chicão - Divulgação - Divulgação
A cantora Cássia Eller, a mulher, Eugênia, e o filho, Chicão
Imagem: Divulgação

Quando fala sobre Cássia e a partida cedo dela, Chicão põe em perspectiva seu sofrimento ao lado da outra mãe, Eugênia. "Pra mim, foi a dor de perder uma mãe. Mas eu não arquei com as consequências práticas, e de gente falando que queria ficar com seu filho. Eu estava lá sofrendo, com a minha dor, mas minha mãe [Eugênia] foi quem segurou a maior barra do mundo e está aí. Minha mãe é foda, bicho."

É com Eugênia, inclusive, que Chicão diz se parecer mais. "Eu puxei muita coisa dela porque ela que me criou, né? Trejeitos da Cássia, eu devo ter, mas convivi pouco. Meu lance é com a Eugênia. Esse lance de dar a última palavra. É difícil discutir comigo, eu sempre tenho que terminar [dando a última palavra]. Mas com ela eu sempre perco, né?", diz aos risos.

E essa palavra final que Chicão, graduando de geografia, pretende dizer é no canal em que se sente mais confortável para falar: a música. "Meu objetivo é consistência, continuar falando, compondo. Sucesso, eu não sei. Adoraria tocar para 500 mil pessoas, 1 milhão. Mas não faço música pra chegar aí. Faço para cantar, para falar as coisas que quero falar. Porque se eu não fizer isso... eu tô fudido".