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Música

Joe Jackson: Cheio de defeitos, mas com um ouvido musical "absurdo"

Ricardo Feltrin

Colunista do UOL

27/06/2018 16h29

Falar ou escrever sobre Joseph Walter Jackson, mais conhecido no meio musical como Velho Joe, que morreu nesta quarta-feira aos 89 anos em Los Angeles (EUA), pode gerar sentimentos contraditórios.

Por um lado, ele morre com a imagem desgastada de um ser humano agressivo, cheio de defeitos, acusado por vários filhos e parentes de ter sido um pai abusivo e explorador.

Batia, humilhava, xingava, ironizava… tudo aquilo que um pai não deve fazer está relatado em vários livros.

Por outro lado, sem o olhar --e principalmente o ouvido-- de Joe, Michael certamente não existiria como o artista que conhecemos. Nenhum Jackson, aliás.

Algumas pessoas talvez não saibam ou lembrem que Joe foi um bom guitarrista e que tinha um ouvido musical que amigos da época consideravam "absurdo".

Ele tirava músicas rapidamente "de ouvido" e as executava na banda The Falcons --que manteve por pouco tempo com o irmão Luther. Fracassado.

Fracassou e acabou trocando os palcos pelo trabalho braçal na metalurgia.

Ao contrário do ditado que diz que "santo de casa não faz milagre", foi Joe quem descobriu sozinho que (quase) todos os filhos tinham enorme talento musical.

Jackie (Sigmund Jackson) devia ter mais ou menos uns 13 anos quando o pai o ouviu cantar só de brincadeira com Tito (11 anos) e Jermaine (9).

Ninguém de fora também precisou "descobrir" Michael (1958-2009), que mais tarde se tornaria isoladamente o maior artista do mundo.

Desde sempre que ouviu os filhos cantarem --e também dançarem--, Joe já sabia que tinha dentro de casa a fórmula para fazer o sucesso e dinheiro que não conseguiu como músico profissional.

Dos EUA para o mundo

Em 1967, três anos depois de idealizar o grupo dentro de casa, o embrião do Jackson 5 já era conhecido e respeitado no meio musical profissional norte-americano. Dois a três anos depois já seria um sucesso mundial.

Joe obrigou todos os filhos a se dedicar a técnicas vocais e, como bom músico, se enfurecia se alguém sequer oscilasse a voz (porque desafinação não era permitida na família Jackson).

Em cerca de uma dezena de biografias sobre os Jacksons (especialmente Michael) que li, todas têm em comum relatos de que Joe foi um pai agressivo, abusivo, violento.

Claro que isso é inadmissível. Mas também é preciso lembrar que Joe é um filho da violência: dos próprios pais, do racismo norte-americano, da crise de 1929, da Segunda Guerra, de uma educação despedaçada.

E ainda assim, apesar de tudo, graças a ele temos uma música que provavelmente ainda estará sendo ouvida daqui a séculos. Esse legado ninguém pode tirar do Velho Joe.

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