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Nova aposta, Jão injeta drama no pop brasileiro: "Crescer é sofrido"

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Sucesso na internet com covers de sucessos do pop, Jão se prepara para lançar primeiro disco Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

19/06/2018 04h00

Jão sempre sentiu que seu lugar era no pop. A influência do que passava na antiga MTV, que só pegava na casa da prima, e a estética colorida dos clipes cheios de coreografias e narrativas fantasiosas era muito mais interessante que as bandinhas de rock. No colégio não foi diferente. Enquanto os amigos de sala montavam bandas e posavam com violão e guitarra nas tradicionais apresentações musicais, Jão subia ao palco sozinho, com apenas o microfone, o pen drive com a batida gravada e a orientação clara para que a luz sobre ele fosse roxa.

“Eu sofria certo bullying”, conta o jovem cantor ao UOL. “Os meninos viravam a cara: ‘nada a ver, ele não sabe nem tocar violão’. E eu sabia tocar, mas minha maior preocupação era cantar bem e fazer uma performance. Desde muito cedo eu queria estar nesse universo”.

Revelação do momento, o cantor de 23 anos emerge no pop brasileiro com uma proposta diferente ao tom alegre que predomina entre os hits. As batidas são mais soturnas e as letras retratam a juventude de forma mais agridoce, sem deixar de angariar milhões de visualizações no YouTube e o prêmio “#Prestatenção” no MTV Miaw 2018.

Em “Álcool”, ele canta que bebe para “engrandecer”. Já em “Ressaca”, depois de enfiar o pé na jaca, reconhece que só encontrará a paz no “caos” da pessoa amada. Mas foi com “Imaturo” que Jão colou de vez no público juvenil ao emplacar o verso “É que eu sou fraco, frágil e estúpido para falar de amor” como uma espécie de hino de uma nova geração.

“Comecei a ficar um pouco irritado com muitas músicas sobre o quanto tudo vai ficar bem, o quanto estamos felizes, e que o mundo está a mil maravilhas”, explica. “É a soma da vida mesmo. Crescer é sofrido e eu gosto dessa coisa mais sofrida”.

De cover em cover

Mas não foi abrindo o coração para falar de bebedeiras, ressacas e a incapacidade de falar de amor que fez Jão chegar no posto de revelação do pop. O jovem galgou espaço seguindo fielmente os passos dos grandes astros internacionais do gênero. Assim como aconteceu com Justin Bieber, Dua Lipa e Shawn Mendes, Jão usou de um canal no YouTube para poder mostrar ao maior número de pessoas o talento “preso” em Américo Brasiliense, interior de São Paulo

Era de sua casa, na cidade de 30 mil habitantes, que ele gravava covers de forma intimista, com uma base simples, privilegiando a voz. Fez sua versão de “Crazy in Love”, de Beyoncé, e “Bang”, de Anitta, mas foi com “Medo Bobo”, hit sertanejo de Maiara e Maraísa, que conquistou seu primeiro viral. O vídeo fez o cantor ser seguido por uma base fiel de fãs e acumular milhões de visualizações. Mas ele revela que não prestava muita atenção aos números. “Eu só queria mandar para o máximo de pessoas possíveis para ver se alguém me achava, se as gravadoras me encontrariam”, revela.

Já na capital, começou a cursar Publicidade e Propaganda na Universidade de São Paulo (USP), mas não desistiu da meta de se tornar referência masculina no pop brasileiro. "Perseguiu” DJs e batia ponto nos open-mic, espaço onde o microfone fica aberto para aspirantes a comediantes e cantores, ou para quem quisesse cantar como em um karaokê. "Eu ia com meu computador com as bases e levava super a sério. As pessoas não entendiam muito bem”, relembra.

Não demorou muito para repararem em Jão. Veio a primeira música autoral, "Dança Pra Mim", em parceria com o produtor Pedrowl. Contratado pela Universal Music, e com um público que agora canta em coro seus versos, ele lança o EP “Primeiro Acústico”, dessa vez com versões mais calmas de suas próprias músicas.

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Jão quer fazer dançar sem deixar o drama de lado: "Crescer é sofrido e eu gosto dessa coisa mais sofrida" Imagem: Divulgação
Pop sofrência

O projeto é o meio do caminho para o esperado disco de estreia do paulistano. Poderia ser um EP de remixes, visto que o pop hoje tem se desdobrado em misturas mais dançantes com o funk e outros ritmos, mas essa não é bem a de Jão.

“Colocamos em uma lousa no estúdio os temas das novas músicas e a palavra que mais aparecia era sofrimento”, ele ri. Os produtores até sugeriram algo mais “feliz”. “Não que eu não tenha momentos de felicidade na minha vida, mas nas minhas músicas é um grande processo, quem sabe um dia elas sorriem um pouco mais”, explica.

Sem revelar o nome do disco, ele promete participações especiais, e não esconde que uma delas pode ser uma cantora sertaneja – gênero que dividiu suas atenções durante a infância, e fez o Jão criança se acostumar com a sofrência.

“Sofrer na adolescência sempre me ajudou muito a crescer. Eu gosto de falar sobre isso nas músicas. Você às vezes se estrepa, é a parte mais fraca de um relacionamento. É uma coisa assim: Esse problema existe, como posso fazer para seguir adiante? Ao invés de ‘tudo vai ficar bem’, é uma parada de olhar para dentro e ver o que está acontecendo”, observa.

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