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Truques e 20h no estúdio: produtor brasileiro revela segredos da música pop

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O produtor brasileiro Henrique Andrade Imagem: Divulgação

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

16/06/2018 04h00

Henrique Andrade está há oito anos trilhando um caminho de sucesso na música pop norte-americana. Produtor, compositor e engenheiro de som, o brasileiro já trabalhou com artistas como Bon Jovi e Zayn, sendo indicado ao Grammy pelo trabalho feito com Justin Bieber e levando para casa duas estatuetas pelo álbum “Mis Planes Son Amarte”, do cantor colombiano Juanes.

“Essa área é muito difícil, porque talento é o primeiro passo, mas a partir daí é o posicionamento do mercado. O dia que eu caí na sessão do Bieber foi sorte, a forma como as coisas são construídas é absurda”, conta Henrique em entrevista por telefone ao UOL.

O manauense começou a ter contato com artistas do primeiro escalão da música quando passou a trabalhar na Record Plant, mas não pense que a vida de quem está nos bastidores da parece fácil. Com Bieber, durante as gravações de “Purpose” (que vendeu mais de 4 milhões de unidades), ele passou 20 horas no estúdio direto enquanto com Zayn foi uma chamada na “xinxa” que transformou sua vida.

“Eu tinha acabado de gravar as músicas e ele falou, 'Chega por hoje, a não ser que você saiba fazer música'. Peguei a guitarra, fiz algumas coisas meio que bossa nova, e nessa a gente começou a fazer algumas coisas, e uma delas é "Enterteinmer", lembra o produtor.

Entre o ego e o auto tune

Os artistas pop de hoje são os rock stars de antigamente, e não é difícil ver algum deles estamparem as notícias por suas realizações fora da música. “Além da técnica, é uma parada de psicologia”, garante Henrique. “É uma tensão muito grande, porque um evento como esse pode mudar a relação de várias pessoas e também a conta bancária delas. Tudo mundo fica sensibilizado. E já rolou de gente ficar puto comigo e dizer, 'Vou ter que falar de novo para você?'”

Mesmo com a expectativa dentro do estúdio, o brasileiro garante que as celebridades são diferentes no trabalho, e isso muda a imagem que você cria delas. “O Bieber é uma pessoa incrível, a maturidade que ele tem é impressionante. As coisas pelas quais ele foi exposto e como ele lida com isso é muito legal. E tem gente que não é assim, e a primeira cosia que fazer é culpar o equipamento”.

O famoso auto tune – aquele programa que “afina” a voz do cantor – é usado direito, explica o produtor, mas principalmente como referência para a gravação. Mas tem gente que é tão profissional que faz questão de deixar de lado a edição.

“A última que não usou nada foi a Nicole Scherzinger (ex-The Pussycat Dolls). Ela chegou lá aquecendo, trabalhando a voz, e é difícil ver isso. Normalmente chegam no estúdio, abrem uma garrafa de qualquer coisa ou acendem alguma coisa. Ela gasta 4 horas no estúdio e acabou, não fica o dia inteiro para gravar uma música aos poucos".

Mariana Pekin/UOL
Justin Bieber se apresenta neste sábado no Allianz Parque, em São Paulo Imagem: Mariana Pekin/UOL

Precisa de talento para ser ruim

“É muito difícil do ponto de vista musical apreciar isso [a música pop], e eu entendo, mas é importante apreciar a função artística que isso tem no mercado que consome música popular”, explica o brasileiro. “Eu ouvi falar que depois dos 30 anos você vai aceitar poucas bandas novas. Música é para os jovens. Eu tenho 34 anos, e a galera da minha idade fala que o Zayn é igual ao Bieber. E eu falo que não é, mas no fundo é. Eu entendo, porque parece a mesma produção”.

Para Henrique, a música pop pode ser enlatada e uma máquina de protesto dos jovens contra o som “de velho” que os pais ouvem, mas por trás de polêmicas, auto tune e músicas produzidas há muito talento envolvido. “Mesmo para se produzir algo que parece não tem talento, precisa ter talento”.

“É admirável o que está acontecendo [na indústria], essa facilidade de construir uma canção que às vezes ofende quem tem um background apurado. Mas a música é uma representação da nossa sociedade mais do que um teste de proficiência. Por exemplo, a Cardi B não é uma cantora, ela é uma expressão e isso é genial, é arte. O poder de expressão que essa mulher tem é incrível. Isso é música popular, arte popular”.

Trabalhar no Brasil

Mesmo longe das terras tupiniquins, Henrique ainda ouve muita música brasileira e ter uma variedade de artistas que gostaria de trabalhar. Começando por Anitta. “ Eu acho que é isso, o pop tem uma cara positiva. Esse diálogo é muito mais atraente do que uma crítica social mais pesada do que dados. Eu amo o Racionais, mas não sei se eles vão olhar para o meu currículo e ver o Bieber e achar engraçado”, brinca o produtor.

Fã de carteirinha de Mano Brown e Ice Blue, o brasileiro também sonha em gravar com alguém da Tropicália, mas, ao mesmo tempo, admite que seria divertido quem sabe pular para o funk. “Deve ser engraçado fazer parte da zoeira de MC Pikeno e MC Bin Laden”.