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Quem é a "atriz biônica" que luta para ver mais deficientes no cinema

Reprodução/Instagram
A atriz Angel Giuffria com sua prótese de alta tecnologia Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

05/06/2018 04h00

Nos últimos tempos, o tema diversidade ganhou protagonismo nas produções de Hollywood, seja entre as mulheres, com a importância de filmes estrelados e dirigidos por elas, como “Mulher Maravilha”, ou entre os negros, com o impacto causado por “Pantera Negra”. Para Angel Giuffria, isso pode significar uma abertura importante para a sua causa – e a de milhares de outras pessoas. Ela, que se denomina uma "atriz biônica" por conta de uma prótese tecnológica que usa no braço, vê a hora de os deficientes também terem espaço nas telonas.

Giuffria, de 28 anos, nasceu sem a parte abaixo do cotovelo direito e, acabou ganhando uma prótese que se mexe por sinais eletromiográficos. “É engraçado como me refiro a mim mesmo como uma atriz biônica. Mas é por que parece que minha carreira só decolou após a prótese de alta tecnologia”, explicou ela, ao site “io9”.

A norte-americana já apareceu em filmes como “O Contador”, com Ben Affleck, e “Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1”, com Jennifer Lawrence, mas ainda busca papéis principais, brigando não só por ela, mas que outros deficientes ocupam espaços que poderiam lhes pertencer – e que muitas vezes são dados a atores sem problemas físicos ou mentais.

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Detalhe da prótese da atriz Angel Giuffria, de 28 anos Imagem: Reprodução/Instagram

Giuffria cresceu sem saber se poderia realizar seu sonho. Se ela  não se via representada nas telas, como chegaria lá?

Isso mudou quando foi chamada para ser dublê de Hailee Steinfeld em “Bravura Indômita”. “Eu era adolescente e me lembro de ficar tão animada só de pensar em haver uma personagem com um só braço”. Mas os pais não permitiram que ela dividisse o tempo entre escola e filmagens, e o sonho foi adiado.

Na hora de se aventurar de fato em busca da carreira de atriz, ela colocava uma prótese que se parecia muito com um braço real. "Eu usava meu braço ‘falso’ por que eu achava que era o caminho para atuar, tipo: ‘vou enganá-los’", conta. "Vi que muitas vezes as portas se fechavam por preconceito ou por ver os diretores e produtores se sentindo decepcionados. Quando ganhei minha prótese atual, decidi que seria aquilo e não ia mais me esconder."

O ponto de virada veio quando ela fez testes para “Lanterna Verde”, um dos grandes fracassos do mundo dos super-heróis. Uma conversa com o diretor Martin Campbell foi pivô de uma nova fase para ela. “A primeira cena em que posso ser vista é no ‘Lanterna Verde’. Eu interpreto uma pessoa com os dois braços, que está atrasada para a aula. A atriz seria só uma figurante no fundo. Mas ganhou mais destaque e ficou até espantada.

“Eu falei: ‘Preciso falar com o diretor’. Todo mundo olhou para a minha cara e deu risada. E eu expliquei que tinha apenas um braço e que achava que tinha de deixar isso claro, porque não queria chamar atenção para mim durante a cena. Ele olhou para mim: ‘Você já se atrasou para uma aula antes?’. Eu fiz: 'Claro'. E ele respondeu: ‘Então não vejo por que você não poderia fazer a cena’”. Ser tratada sem diferenças, sem ser questionada sobre sua deficiência e poder fazer seu trabalho estabeleceram um novo patamar para a atriz.

Entre pontas em filmes e participações em comerciais – inclusive um no intervalo do Super Bowl --, ela passou a ter uma carreira, de fato, como atriz. Para o futuro, ela participará de um filme futurista, que compara a “Black Mirror”, mas mantém mistério. “Não posso falar muito dele, mas é a primeira vez que um personagem não foi escrito especificamente como deficiente. Eles acharam meu braço legal e acharam que seria uma adição legal para a personagem”.

Sua luta

A briga principal de Giuffria é para que ela e outros deficientes físicos e mentais tenham representatividade por completo nas telas. Ela lembra como bom exemplo o papel de RJ Mitte em Breaking Bad, em que ator e personagem mostravam como era a vida com um tipo de paralisia cerebral. Ou como se emocionou com “Procurando Nemo”, em que o peixinho superava as dificuldades de ter uma nadadeira atrofiada.

No entanto, nem sempre isso acontece. Muitas vezes os diretores e produtores enxergam que ter astros nos seus filmes é mais importante do que ter atores que representam mais fielmente os seus personagens.

Ela critica, por exemplo, a escolha de Dwayne “The Rock” Johnson para protagonista de “Skyscraper”, em que ele vive um personagem que não tem uma perna.

“Eles poderiam ter escolhido alguém com o mesmo problema e dado a essa pessoa a chance de ser o protagonista. Mas eles não fizeram isso... por ser o The Rock”, lamenta ela, que pede para que Hollywood abrace atores e atrizes. E não apenas estrelas.

Para Giuffria, uma mudança virá quando houver um filme de grande impacto. “Fará diferença quando uma produção de grande orçamento mostrar uma pessoa com deficiência. Fazer este esforço para representar o mundo todo fará diferença para todo o mundo melhorar. Acredito nisso e não vou desistir enquanto isso não for uma realidade”, concluiu.

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