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Hassum diverte em "Não se Aceitam Devoluções", mas "dramédia" não engrena

Divugação
Cena do filme "Não se Aceitam Devoluções", com Leandro Hassum Imagem: Divugação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

31/05/2018 04h00

Fato 1: esqueça preconceitos, o agora esbelto Leandro Hassum é, sim, um ator talentoso. Fato 2: nem todos os seus trabalhos conseguem captar tais dotes, inclusive dramáticos. O novo “Não se Aceitam Devoluções”, do diretor André Moraes, remake do fenômeno mexicano “Não Aceitamos Devoluções”, é um exemplo desse desperdício cinematográfico.

O filme é uma ótima peça de entretenimento, mas esbarra em problemas básicos de roteiro e produção. A ideia é misturar de forma orgânica drama e comédia, mas o resultado é truncado, com passagens que não engrenam e personagens pouco convincentes. Relevemos: não é tarefa fácil enveredar por esse gênero.

A história acompanha Juca, um garanhão que ganha um presente de uma ex-namorada (Laura Ramos) prestes a se mudar para os Estados Unidos: um bebê que seria sua filha. Sem saber inglês, ele viaja até Los Angeles para tentar devolver a criança, mas acaba virando dublê de cinema e fixando residência por lá, onde cria a menina sozinho.

A “dramédia” peca pela falta de fluidez. Partes dramáticas são jogadas de forma praticamente isolada ao longo do drama, para serem retomadas apenas no fim da história, diferente do que ocorre no original e, principalmente, na ótima versão francesa “Uma Família de Dois” (2017), estrelada por Omar Sy.

Em meio ao festival de gags de Hassum e suas questões pai e filha, o espectador pode até não se dar conta da cena mais importante do filme, mostrada dubiamente logo no início.

Outro problema: a escolha e preparação de elenco. Há vários atores brasileiros fazendo papel de americanos. O personagem de Jarbas Homem de Mello, por exemplo, um agente latino que fala inglês e espanhol com sotaque brasileiro, é um mistério. 

Praticamente todas as piadas do original, mistura de “road movie” e “Três Solteirões e um Bebê”, foram mantidas. Algumas funcionam bem, outras poderiam ter sido limadas, como a da cena em que Juca vai contratar uma atriz para fazer o papel de mãe para a filha, e uma travesti se candidata. Em 2018, isso beira o ofensivo.

Mas há qualidades na história. A intimidade entre Leandro Hassum e a atriz mirim Manuela Kfouri é o que melhor funciona no filme. Apenas portadores coração de pedra não se comoverão com os sacrifícios feitos pelo personagem para blindar a garota do mundo real —criativo, Juca bola um mundo de fantasia para Emma esquecer a ausência materna.

O momento mais humano é a brincadeira em que o personagem finge de morto ao se acidentar nos sets de filmagem, pregando uma peça na produção. Ciente da zoeira, Emma se aproxima, agacha e realiza uma espécie de ritual “xamânico” com um amuleto. Juca desperta. É “mexicano” demais, mas continua fofo.

A pressão sobre a bilheteria de “Não se Aceitam Devoluções” é grande. “Não Aceitamos Devoluções” levou 18 milhões aos cinemas do México e é o filme latino mais visto nos Estados Unidos. O sucesso se repetirá por aqui? Improvável. Leandro Hassum também já fez filmes melhores.