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Novidade da Netflix, "Cargo" é ótimo drama disfarçado de filme de zumbi

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Martin Freeman, em cena do filme "Cargo" Imagem: Reprodução

Eduardo Pereira

Do UOL, em São Paulo

29/05/2018 04h00

Por mais que se apresente como um filme de zumbis, a nova produção original da Netflix, "Cargo", tem muito mais a falar sobre família, amor, amizade e compaixão, do que sobre os mais que saturados mortos-vivos da cultura pop.

Na tradição do grande George A. Romero – se não o criador dos comedores de cérebro, definitivamente seu popularizador nas telonas –, os zumbis povoam o universo de "Cargo" muito mais como um meio para aprofundar personagens e atingir discussões sociais e emocionais, do que como um fim, por si só. E é exatamente por meio desse resgate às tradições que o longa-metragem conquista sua originalidade.

A história é uma versão expandida de um curta-metragem homônimo que desde 2013 acumulou mais de 14 milhões de visualizações no Youtube: em meio a um apocalipse zumbi, na Austrália, um homem acorda após uma batida de carro e vê que sua esposa se transformou numa morta-viva. Depois de retirar sua filha, ainda bebê, do banco de trás do veículo, ele descobre que foi mordido, e começa uma corrida contra o tempo em busca dum destino seguro para a criança, antes de tornar-se um monstro. 

Apesar das raízes no terror, "Cargo" não investe em sustos baratos, sanguinolência exagerada e ambientação sombria e sinistra. Embalado pelas paisagens naturais do continente australiano – com grandes áreas semidesérticas e pequenas florestas (bem) iluminadas, quase que constantemente, por um sol impiedoso –, o filme oferece um cardápio visual único no subgênero dos zumbis, enquanto deixa o medo por conta da constante tensão de seus personagens na luta pela sobrevivência.

Os tradicionais comedores de cérebro se tornam, no universo do filme, como quaisquer predadores selvagens que podemos encontrar durante um mergulho às cegas na natureza, e a verdadeira monstruosidade se desenha na deterioração moral e psicológica daqueles que sobreviveram, produtos de uma crescente falta de esperança.

Assista ao curta-metragem:

As quase duas horas de duração permitem à codiretora e roteirista Yolanda Ramke, e ao codiretor Ben Howling (ambos realizadores, também, do curta-metragem), desenharem toda uma cadeia de eventos devastadores prévios à batida de carro, numa sequência de decisões erradas e fatalidades que constroem essa ideia de um mundo cada vez mais mergulhado em tristeza e desesperança.

De quebra, o filme faz o seu melhor para construir uma mitologia própria com sua epidemia zumbi, mostrando o passo a passo das transformações, pincelando alguns hábitos que os mortos-vivos parecem cultivar para a sobrevivência (como enterrar a cabeça na areia, uma escolha curiosa e visualmente angustiante), e até mesmo explorando o histórico de violência racial que compõe a história australiana.

Mas não espere grandes respostas de “Cargo”. Movido pelo senso de urgência de seu protagonista, o filme não se preocupa em aprofundar-se em nada além da emoção. O que importa aqui, realmente, é captar o desespero, a preocupação e os sentimentos que os personagens sentem uns pelos outros – a força motriz bruta de toda luta pela sobrevivência.

É uma escolha arriscada, que faz necessária a abertura e disposição do espectador para sentir o turbilhão de emoções proposto em tela, mas que é facilitada por um trabalho preciso de roteiro: ao passo em que acompanhamos os cuidados do pai infectado e sua filha, conhecemos também a história paralela de uma pré-adolescente aborígene que cuida de seu pai zumbi; espelhando, aprofundando e complementando o impacto emocional da trama principal.

No papel de Andy, o pai condenado à morte e incumbido de salvar sua filha, Martin Freeman alia o mesmo carisma que emprestou a Bilbo Bolseiro (na trilogia de "O Hobbit") e a John Watson (na série "Sherlock Holmes") ao ar de homem comum que o lançou ao estrelato como o personagem mais próximo ao público da versão original de "The Office". Experiente, o britânico brilha nos momentos mais obscuros do filme, carregando seus olhos azuis de desespero, pesar e, claro, esperança.

Só que é a jovem Simone Landers, que dá vida à jovem aborígene Thoomi, quem realmente rouba o show. Tendo atuado só em peças escolares até então, a garota, de 11 anos, ficou sabendo da busca promovida pela produção do o filme por uma jovem australiana de ascendência indígena que “aliasse masculinidade e atitude”. Convencida de que era a pessoa certa, pediu ajuda à avó e enviou uma fita de audição para a dupla de cineastas. Embora tenha chegado com atraso à disputa, garantiu o papel.

Assista ao trailer de "Cargo":

"Ela era incrivelmente assistível", lembrou a codiretora Yolanda Ramke ao jornal australiano The Herald. "Tinha toda a doçura e jocosidade de uma criança, mas era também uma alma velha. Fofa, mas sem ser Disney. E com bravura", concluiu.

Como Thoomi, a garota assume lentamente o protagonismo da história, trazendo consigo elementos do misticismo tribal australiano e seus ensinamentos filosóficos, perfeitamente equilibrados com uma ingenuidade e carinho naturalmente infantis. Quando uma sucessão de eventos trágicos insiste em fazer o caminho da sua personagem se cruzar com o de Freeman, o público acaba brindado com uma das dobradinhas cinematográficas mais incríveis e inesperadas do ano. 

Curioso pensar que "Um Lugar Silencioso" – para muitos, o melhor filme de terror de 2018 (até agora) –, também aborde temas como família, amor, compaixão e sacrifício, ao mesmo tempo em que abra mão de artifícios baratos do cinema de terror comercial e invista num desenvolvimento mais aprofundado de seus personagens.

Embora seja menos aterrorizante e mais dramático, sem medo de ser um filme de zumbis para quem não gosta de filme de zumbis, "Cargo" não passa longe da qualidade do anterior. Aliás, emocionalmente falando, chega até a superá-lo. Enquanto "Um Lugar Silencioso" é como um soco no peito, "Cargo" é uma facada certeira no coração, acompanhada de um caloroso abraço. O carinho não muda um triste destino, mas conforta.

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