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Capital lança 1º álbum só digital e ignora política: "Seria oportunista"

Bruno Trindade/b+ca
Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, durante a gravação do 14º álbum de inéditas da banda, "Sonora" Imagem: Bruno Trindade/b+ca

Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

25/05/2018 04h00

Com 35 anos de estrada, o Capital Inicial resolveu mudar. Pela primeira vez, a banda lançará seu próximo álbum em partes e somente nas plataformas digitais. A primeira música, "Não Me Olhe Assim", entra no catálogo de aplicativos como Spotify nesta sexta-feira (25).

"É a primeira vez que o Capital fará um lançamento principalmente para streaming. Esperamos conseguir fazer 12 músicas. Temos oito arranjadas. Nossa ideia é lançar uma por mês, durante um ano. Quero saber se a gente vai aguentar", brinca Dinho Ouro Preto.

O UOL acompanhou uma tarde de gravações no estúdio de Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, na zona oeste de São Paulo. Há dois meses, ele está produzindo o novo álbum do Capital, "Sonora", e para Dinho esta foi a principal mudança no processo de construção do disco.

O vocalista se aproximou do líder da Fresno por meio de um grupo de WhatsApp reunindo dezenas de bandas e artistas novos do rock. Dinho pediu para ser incluído e participou de reuniões na garagem de Lucas. A relação dos dois é tão boa que nem lembra os atritos de uma década atrás, quando o músico do Capital criticou a Fresno e outras bandas emo.

Eu tinha uma música que não conseguia resolver. Mostrei para o Lucas e ele resolveu. Foi aquele momento que as nuvens se separam e o raio de luz entra. Rolou uma empatia e uma vontade de trabalhar.

O desafio seguinte foi convencer a banda e a gravadora de que um álbum diferente seria musicalmente e comercialmente melhor. "Todos da banda embarcaram. Ninguém discutiu, houve um consenso rápido. Levamos três músicas para a gravadora, uma mais convencional, outra meio torta e outra punk. A gravadora falou: 'Não!'. A coisa só se acalmou quando preparamos as seis primeiras músicas e chamamos a direção", explica o líder do Capital.

"Precisávamos de uma ideia nova, no caso do Lucas, e a gente vem renovando [o público] há tempos, mas tem uma hora que você passa por essa zona de conforto. O legal do Lucas é que, além da novidade, ele é roqueiro e sabe do que estamos falando", analisa o guitarrista Yves Passarell.

"O legal é que, além de ser talentoso como músico e arranjador, ele não faz como se fosse na banda dele. Ele consegue pensar em arranjos que soem bem com o Capital, não com a Fresno", elogia o guitarrista Fabiano Carelli. Lucas o interrompeu: "Porque somos fãs dos caras!". 

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Para o líder da Fresno, que já produziu para bandas como RPM e Medulla, ser fã do Capital ajudou na hora de produzir as músicas, mas o projeto deu certo pela vontade da banda de querer mudar.

"Pensei o que faria pelos caras, como eu existiria dentro da banda, não como músico, mas tentando guiar a energia para a galera de hoje e pegar fãs novos. É desafiador permanecer interessante. Propus situações para tirar o Capital da zona de conforto e apontar um caminho novo. Só o fato de a banda gravar um disco comigo já mostra isso. Muitas pessoas ainda não sabem esse meu lado produtor".

Sem política

Perguntado sobre o tema das músicas, Dinho foi enfático: "Não tem nada sobre política".

"Maníaco por política", como se define, o vocalista começa o dia lendo o UOL e outros portais brasileiros e internacionais pelo celular. Os protestos do cantor contra o governo, comuns nos shows do Capital, não estarão presentes neste álbum, 14° de inéditas e 21° da carreira da banda.

"Eu tenho rascunhos, mas não foi adiante. Quer saber? A gente já fez tanto que não sei o que poderia ser dito e que não soasse redundante ou, pior ainda, neste momento, meio oportunista. É um álbum introspectivo, emocional, com observações do cotidiano", explica o cantor, que vê o hip-hop ocupando o lugar do rock na música de protesto.

Quando o álbum de inéditas anterior, "Viva em Revolução", foi lançado, em 2014, Dilma Rousseff (PT) ainda estava em seu primeiro mandato. Nos últimos três anos, porém, a presidente sofreu impeachment, Michel Temer (MDB) assumiu o governo e o candidato líder nas pesquisas eleitorais, Luiz Inácio Lula da Silva, foi condenado e preso no caso do tríplex do Guarujá. A menos de cinco meses da eleição presidencial, Dinho não se sente inspirado para compor sobre política nem para escolher um candidato.

"Por que não estamos falando tanto de política? Possivelmente por falta de inspiração, de olhar para os postulantes todos e não ver ninguém".

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