Topo

Música

Sai o sentar, entra o sentir: música nº 1 do Brasil hoje é um funk de amor

Divulgação
MC Kekel abre mão do personagem solteiro: "Sempre fui romântico" Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

03/05/2018 04h00

Um funk lidera a lista das músicas mais ouvidas. Até aí, nenhuma novidade. Porém, o que difere “Amor de Verdade” dos últimos batidões da moda é que, desta vez, a letra não pede para alguém “sentar”, mas, sim, sentir.

É com o coração aberto que MC Kekel tem dominado as plataformas de streaming. O clipe da música tampouco traz carrão, bundas ou coreografias. Ainda assim, conquistou mais de 130 milhões de visualizações em apenas um mês. O segredo está na letra, que versa sobre um relacionamento que chega ao fim. O vozeirão de MC Rita, que divide os vocais com Kekel, torna as coisas ainda mais sofridas:

“Na vida podem existir milhares
Mas nenhum vai ser como você
Que comigo o amor foi de verdade
Que fez a minha vida acontecer”

O garoto de Guaianazes, periferia da zona leste de São Paulo, parece querer quebrar alguns estigmas. Sim, é possível sarrar e chorar ao mesmo tempo. Afinal, os funkeiros também amam. Não que ele tivesse dúvidas: “Desde o começo, eu sempre gostei de fazer músicas românticas”, revelou ao UOL.

O amor nos tempos da putaria

“Amor de Verdade” foi escrita em 2015, quando Kekel era um porteiro em São Paulo que sonhava viver de funk. Chegou a divulgar a música de forma amadora no Facebook, na época com o nome de “Espera Aí”.

No entanto, quando o funk lhe abriu as portas, não havia espaço para lirismo. A onda na época era o funk putaria, e seu primeiro sucesso, “Meiota”, seguiu a receita: clipe com participação de dançarinas, motos, carros tunados e uma letra direta: “Quer andar de meiota? Senta na minha piroca".

“Naquela época, o funk putaria era o que tinha de mais forte”, ele explica. “Não tinha como disputar com uma música romântica que não ia tocar na rua, que não ia virar música de balada."

Com o tempo, ele conseguiu eliminar a “piroca” das letras, mas continuou investindo no clima de curtição. Seus sucessos tinham títulos auto explicativos. “Solteiro Até Morrer” e “Namorar pra quê” se tornaram verdadeiras odes a pegação em 2016 –muito embora seu autor já estivesse namorando firme com a nutricionista Sabrina Lacerda.

Augusto Wyss/Divulgação
Imagem: Augusto Wyss/Divulgação
Com a carreira ainda levantando voo, Kekel já tinha aprendido uma lição rara nos negócios: é preciso ser pragmático. Criou então um personagem para cantar as aventuras noturnas. Mandella protagonizou muitos dos seus sucessos com um estilo desencanado e pegador que logo deixava claro: “Mandella é meu nome / Eu não preciso namorar” (trecho de “Mandella é meu Nome”).

“Eu criei esse personagem com outra pegada, percebi que as pessoas preferiam ser solteiras a ficar no romance. Era uma oportunidade”, reconhece. “E para quem está começando, não existem muitas.”

Leia mais:

Se assumindo

Ao assumir o romantismo, tudo mudou. “Amor de Verdade” se tornou um sucesso ainda maior que as pegações narradas por Mandella e já tem uma substituta à vista, lançada na última sexta, “I Loveando Tu”, parceria com Lucas Lucco.

No fim, não apenas o amor venceu. Pela primeira vez, o funkeiro de 21 anos conta que passou a ousar mais nos vocais, buscando inspiração em artistas americanos dos quais é fã, como Drake, Chris Brown e Jacquees, e revela que agora se enxerga como compositor.

“É uma satisfação muito boa você ir ao baile funk, onde só podia pancadão, cantar uma música assim e ver todo mundo cantando com você, com os olhos cheios de lágrimas, se expressando. Seja homem ou mulher”, diz, sem disfarçar o orgulho.

Por que isso demorou tanto para acontecer? “Tem muito preconceito. É que muitos caras têm medo de mostrar os sentimentos”, explica.

A propósito, o relacionamento que começou quando o Mandella estourou nas baladas vai virar casamento ano que vem. Ele não tem dúvidas: “Agora posso ser eu mesmo. Agora é o Kekel”.

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!