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"Climão" em 2018: Um ano promissor para a lasciva cantora Letrux

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Letícia Novaes vira Letrux em disco e shows de "Em Noite de Climão" Imagem: Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

21/04/2018 04h00

Letícia Novaes é inquieta. As coisas não podem cair na rotina. Assim, ela misturou suas carreiras como escritora e cantora. Montou sua primeira bandinha de rock em 2005, gravou três discos no duo Letuce (com o ex-marido Lucas Vasconcellos) e, desde 2017, lançou-se com um novo projeto. Ou, mais que isso, quase um alter ego: a lasciva Letrux.

“Eu sou meio kamikase na arte, não tenho muito apego. Não posso me ver numa situação automática”, explica ela. Disso saiu “Em Noite de Climão”, primeiro disco como Letrux, que de cara foi vencedor do Superjuri do Prêmio Multishow 2017, como melhor disco. A voz e a aura do disco remetem a uma versão repaginada de Rita Lee, um pouco menos rock e mais dançante -- um som que não passaria batido nas festinhas por aí.

O resultado é um 2018 promissor, como mostram os ingressos esgotados para seu show neste sábado (21), no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, onde ela apresentará seu som dançante, com cara de anos 80 e uma mistura fina do eletrônico dos sintetizadores com o orgânico do baixo e da guitarra.

Letícia usa o título do álbum para definir som e letra de seu trabalho, que junta composições dos últimos cinco anos: “Climão”. “Sou uma pessoa tragicômica. Oscilo bem entre ser hilária e ser dramática. No meu primeiro disco solo, quis trazer essas minhas duas verves: de comediante e da tragédia. O climão’ é um lugar onde todos nós estamos no século 21, por mais que a sociedade esteja mais robótica, estamos todos aqui nesse climão que é estar vivo, querer ser zen, mas ter mil boletos pra pagar. O disco é dançante por espontaneidade musical”. Arthur Braganti, nos teclados e sintetizadores e Natália Carrera, na guitarra, sintetizadores e programações eletrônicas, foram os parceiros da jornada.

Em transe: Letícia ou Letrux?

No palco, Letícia pode se permitir a liberdade e a loucura de viver uma personagem. E é assim quando "está" Letrux, “Gosto de brincar. Não me levar tão a sério. Mudar um nome não pode ser tão sério assim, sabe? Brinquei e estou brincando de ser essa mulher mais lasciva, mais destemida, mais insana, que é a Letrux. Eu sou 50% só”, explica ela, que se jogou nos diversos significados que o vermelho pode trazer, da capa do disco ao figurino.

Letícia admite que é até perigoso se ver demais como Letrux. “É preciso domar bem o ego pra também não se engalfinhar em frases e devaneios exagerados. Como Letrux sou bem espontânea e lido com a dinâmica de cada show, de cada plateia. Cada vez é uma vez. Como Letícia, infelizmente dei uma endurecida nos últimos anos, por conta de tudo: idade, golpe, percepções sobre ter ou não um filho, enfim, muitas crises. Letrux é mais o botão do foda-se”.

Isso serviu para gravar o álbum. Letícia diz que não se acha “cantora exatamente”. Assim, precisou achar um lugar diferente do normal para se achar dentro do estúdio. “Quando fui gravar, preciso me colocar num estado que quase nunca estou, emprestar o corpo quase. Minha relação com música é essa, de ser assombrada por ela, e tentar deixar fluir ao máximo. Quando fui gravar 'Amoruim', estava muito quente, porque desligamos o ar condicionado, e foi lindo cantar com os peitos pra fora. Essa letra até hoje me perturba bastante, ela mexe com muita coisa dentro de mim.”

Feminismo, cena feminina e Rita Lee

Letrux está em meio a um rico cenário de cantoras que o Brasil apresenta. Cantou, por exemplo, no projeto “Acorda Amor”, no começo do ano, que juntou ela, Maria Gadu, Liniker, Luedji Luna e Xênia França. E bate na tecla do feminismo em seus trabalhos.

“A literatura, as palavras, as frases, têm grande poder de transformação, de questionamento, são forças seculares e transgressoras. Meu primeiro disco, em 2005, tinha uma música que falava 'mamãe não pode saber'. Analisando hoje em dia era uma música muito feminista, mas ainda não usávamos essa nomenclatura. Eu já era uma artista feminista, só me faltava a alcunha. Dou ênfase ao tema se for sincero e vier espontaneamente.”

“Acorda Amor” permitiu que ela visitasse uma canção de uma de suas inspirações, Rita Lee, algo transparente na voz de Letícia, que muitas vezes soa como a “ovelha negra”. “Eu não consigo nem falar muito sobre a Rita Lee tamanha emoção eu sinto. Acabei de ler a autobiografia dela e eu chorava tanto, meu namorado até achou que alguém tinha morrido e eu: ‘Não, acabei a biografia da Rita Lee’ (risos). Dividimos o mesmo signo e muitas semelhanças no jeito de encarar a vida. Acho ela muito sábia. Realizei um sonho ao cantar ‘Saúde’ nesse projeto. Que letra, que mulher!”, contou ela.

Além do Auditório Ibirapuera, Letícia/Letrux se apresenta em 29 de abril em Fortaleza, 4 maio em Belo Horizonte, 18 de maio em Recife e no fim de junho em Inhotim. E vem mais por aí. “Já ando com ideias mirabolantes para o ano que vem”.

Serviço

Letrux - "Em Noite de Climão
Data:
21/04 (sábado)
Local: Auditório do Ibirapuera - São Paulo
Ingressos: Esgotados
Mais informações neste link