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Filmes e séries

O fim do romance: Apps e feminismo mataram as comédias românticas?

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

19/04/2018 04h00

Houve uma época em que o amor estava no ar, pelo menos nos cinemas: se teve um gênero que marcou os anos 1990 e 2000, foi a comédia romântica. Quem não lembra de “O Casamento Grego”, “Um Lugar Chamado Notting Hill” ou mesmo “Se Eu Fosse Você”?

Mas, ao que parece, a nossa década não anda muito propícia para o romance, e os grandes sucessos desse tipo ficaram no passado. Literalmente: no Brasil, o top 10 das maiores bilheterias de comédia romântica só tem dois filmes recentes: “De Pernas pro Ar 2” (2012) e “Loucas pra Casar” (2015). Nos EUA, o sucesso mais recente do gênero é “O Lado Bom da Vida” (2012), em 12º lugar.

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Em "Todo Clichê de Amor", Débora Falabella é Helen, uma jovem trabalha em uma lanchonete e dá aulas para crianças surdas Imagem: Divulgação

Indo contra a corrente, Débora Falabella e Marjorie Estiano estrelam “Todo Clichê do Amor”, que chega aos cinemas nesta quinta (19) contando três histórias independentes sobre amor. E elas não acreditam que o gênero esteja realmente em crise. “O que eu vejo são pessoas consumindo esses filmes hollywoodianos grandes, de super-heróis, que ganham milhões. O gênero romântico talvez tenha tido essa queda, mas ele volta. É algo que a gente gosta de falar --falar de amor, falar das relações humanas. Talvez seja só um momento”, acredita Débora.

“Eu não saberia dizer se isso reflete um estado da população”, reflete Marjorie. “Envolve tanta coisa --educação, dinheiro. Pagar um ingresso para assistir a um filme não é tão acessível. Eu acredito no romance, no amor, na disponibilidade e no interesse do público por esse tipo de tema. Acho que é uma questão maior, mais complexa”, acredita.

Conectados e desiludidos?

Flutuações do mercado de cinema à parte, será que na verdade o romance anda em baixa no próprio mundo real, afetado pelas redes sociais e novas tecnologias para paquera?

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Marjorie Estiano é a prostituta sadomasoquista Lia Imagem: Divulgação

“Acho que a nova geração vai encontrar outras formas de se relacionar, com outros tipos de dificuldade”, diz Débora. “Acho só perigoso porque realmente as máquinas, o celular, o computador, ao mesmo tempo em que tentam juntar as pessoas, criam um afastamento. Você deixa de estar livre para o acaso, para realmente encontrar alguém. E tem a relação que você tem com o aparelho quando está em outros lugares. Você está ligado no que está na sua frente e não está ligado nas pessoas. Isso eu acho o maior perigo”, pondera a atriz.

“Eu não sou tão adepta dessa tecnologia, não frequento muito Facebook”, conta Marjorie. “Mas posso dizer que a tecnologia me tornou muito mais sociável. Não sou muito de telefone, então o Messenger me manteve muito mais em contato com as pessoas. O que era nada agora se tornou alguma coisa. Mas eu tenho muito apreço pela presença. Acho que é uma geração nova, talvez eles tenham mais facilidade de lidar com isso do que pessoas de outras gerações. Eles têm a maneira deles de se relacionar com profundidade”, acredita.

Os tempos mudaram

Se não são os aplicativos, seriam então as mudanças de comportamento que estariam deixando as pessoas menos românticas? Será que o feminismo e todas as discussões sobre os papéis de gênero --incluindo aí assédio, casamento, novas formas de se relacionar etc.-- estão nos deixando mais céticos e nos afastando das histórias de amor?

“Acho que é fundamental a gente discutir sobre se propor que não pode mais elogiar na rua porque agora é assédio, para estabelecer um entendimento do que é o assédio, até onde vai a invasão, o que é agressão e o que é gentileza”, diz Marjorie.” É um movimento global, todo mundo está envolvido nisso, não tem como não fazer parte, é algo desse momento”.

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“Mas acho que a gente tem que ser livre”, continua. “Se você quer viver como nos anos 1940 ou 1950, sendo dona de casa ou sei lá, sem nenhum tipo de julgamento, quer abdicar de alguns direitos que foram conquistados, é o seu direito. Você tem o direito de viver a sua vida do jeito que quiser”, completa.

“Acho que a gente está mudando, o mundo está mudando, os nossos discursos também vão mudar, a maneira de a gente falar das coisas”, acredita Débora, que não vê isso como algo negativo. “Tem assuntos que são universais. O amor entre a família, o amor entre as pessoas, sendo elas do mesmo sexo ou não, acho que esse gênero continua sendo universal. A maneira de a gente falar dele é que vai modificando com o tempo e com o mundo. Esse filme, por exemplo, não fala de amor num sentido só”, diz a atriz, que em "Todo Clichê do Amor" vive Helen, jovem com um noivo bem-sucedido que é cortejada pelo entregador da lanchonete onde trabalha.

Marjorie concorda. “Acho que o filme traz isso também, ele quebra os estereótipos. A minha personagem, que é uma prostituta sadomasoquista e tem um marido que é ator pornô, tem uma vida normal, é uma pessoa absolutamente ordinária. Tem o desejo de ser mãe, está ali com uma dificuldade com o marido para conseguir realizar, idealiza esse momento”, conta ela, que vive a garota de programa Lia. “O sadomasoquismo é imerso em muito julgamento, e colocado à distância. Então, quando você traz uma pessoa que quer ter um filho, uma questão que todo mundo tem que lidar, juntando esses dois elementos, você passa a quebrar o estereótipo”, exemplifica.

Mais amor, por favor

Independente do que venha nos afastando do romance, ao menos na ficção, as duas atrizes acreditam que o momento político do país e do mundo pede mais amor.

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“Acho que falar de amor como nosso filme faz é fundamental”, acredita Marjorie. “A gente às vezes vira tanto massa de manobra, estamos num momento que tem tanto ruído, tudo está chacoalhando tanto, que você acaba perdendo um pouco de vista o que é importante para você. Falar de amor, trazer o amor, lembrar que ele existe, é fundamental para que a gente consiga equilibrar e inclusive ter mais clareza”.

“Não estamos nos afastando do romantismo, a vida está dura mesmo, a gente tem tido cuidado para não se apegar, não levar os discursos para um lado do ódio”, concorda Débora. “É um momento que não tem como a gente não ficar inflamado e não tomar uma posição. Mas a gente precisa também achar um viés da conversa, do diálogo, do amor”.

“Por isso eu acho que filmes que falam disso são tão importantes. Ter um pouco mais de contato com isso, pensar um pouco mais no amor e no afeto entre as pessoas, é um caminho para a gente se livrar um pouco desse ódio, dessa polarização que tem acontecido e dessa onda reacionária que tem levado a esses discursos de ódio tanto de um lado quanto de outro”, conclui a atriz.

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