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Aos 69, Tony Ramos se reinventa em filme autoral: "Sou pedreiro do meu ofício"

Divulgação/Pandora Filmes
Tony Ramos em "Quase Memória" Imagem: Divulgação/Pandora Filmes

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

11/04/2018 04h00

Astro do mais alto escalão da TV Globo, Tony Ramos (Carlos) está deitado imóvel sobre a cama. É 1º de maio de 1994, dia da morte de Ayrton Senna, e ele se depara com sua versão 26 anos mais jovem. O encontro que poderia ser traumático ganha tons filosóficos.

Revisitando a história do pai a partir de um suposto presente deixado por ele, o personagem está perdendo gradualmente a memória. Real, realidade e as vagas insinuações se misturam em um texto autoral, que chega a lembrar os de peças de teatro.

Os parágrafos acima são apenas um recorte das primeiras cenas de “Quase Memória”, do português Ruy Guerra, que estreia no próximo dia 19, mas dizem muito sobre a nova aventura cinematográfica do ator de “Se Eu Fosse Você”, que arrastou com os dois filmes mais 10 milhões de pessoas aos cinemas.

Com diálogos densos que resvalam o existencialismo, Tony Ramos surge fora de sua zona de conforto e ele está adorando. A Globo deu carta branca e quatro semanas livres para ele mergulhar na história, inspirada no livro homônimo de Carlos Heitor Cony, que morreu em janeiro sem conseguir assistir à adaptação.

A escolha por Tony foi lógica para Ruy Guerra, a quem conhecia apenas pelo convívio dos festivais. Talento e popularidade unidos no mesmo combo. O convite oficial partiu de Janaína Diniz, produtora do longa e filha de Ruy Guerra. Ao receber a ligação, o ator não titubeou.

Divulgação
Tony Ramos em cena de "Quase Memória" Imagem: Divulgação

“Não pensei nem em como seria o roteiro. Só falei: ‘Me dê um tempinho aqui para eu ver minha agenda”, diz Tony Ramos ao UOL. “Ele foi exemplar. Em nenhum momento ele [Ruy Guerra] me tratou de forma blasé. Não digo isso como ato de heroísmo, mas como um ato de um homem que é inquieto com sua carreira.”

Este não é o primeiro papel “fora da curva” de Tony Ramos fora dos holofotes da TV. No teatro, já desafiou a censura discutindo homossexualidade em “Rapazes da Banda”, em 1972. Também participou do longa “Noites do Sertão” (1984), de Carlos Alberto Prates Correia, baseado na obra de Guimarães Rosa. Mas, em termos de exercício de linguagem, nada se compara a “Quase Memória”.

“Quando você é convidado a fazer um filme com a assinatura do Ruy, é quase como uma afirmação de que você é de fato um ator de todos os segmentos. E, com sinceridade: eu adoro meu ofício e o pratico como o pedreiro que coloca reboco na parede da minha casa”, diz ele.

O filme

Parceria do Canal Brasil com a Globo Filmes, “Quase Memória” é um projeto antigo de Ruy Guerra, que adquiriu os direitos sobre o livro ainda nos anos 1990, logo após a publicação da obra. Vencedor de dois Jabuti de literatura, o romance autobiográfico narra as fascinantes histórias do pai do autor, o também jornalista Ernesto Cony Filho, um homem corajoso e sonhador —ou apenas um fracassado em uma era romântica, dependendo de como você o lê.

O projeto teve dificuldades de financiamento e emperrou. Foram cerca de duas décadas de idas e vindas na (pré) produção, que precisou se adequar a restrições do orçamento, à expiração de contratos e à burocracia envolvendo leis de inventivo.

Mesmo com Tony como chamariz, a expectativa de público para o filme é modesta na comparação com os blockbusters nacionais, como o recente "Getúlio", também estrelado por Ramos, que levou mais de 500 mil pessoas às salas. Se perto 100 mil pessoas pagarem para assistir "Quase Memória", a missão estará muito bem cumprida.

“Quando você faz esse tipo de filme, você já sabe onde navegará. Na comédia, você tem um mar mais aberto. No cinema autoral, você entra em um rio. O filme é de não realismo? É de reflexão? As margens vão se estreitando até o barco encalhar e ficar parado. Foi isso que aconteceu comigo”, conta Guerra, que não lançava um longa desde 2005.

Com 4 milhões para gastar, ele fez apenas uma exigência. A Globo não deveria interferir. “Já rejeitei Hollywood porque queriam mexer no corte final”, diz. Na contrapartida, o cineasta precisou escolher um coprodutor para servir de "capataz" da empresa. Veio Daniel Filho, seu ex-desafeto. “Somos unidos pela brutalidade”, brinca.

"Eu disse 'tudo bem' para a Globo desde que eles não se intrometessem no processo criativo. Fiquei surpreso. Eles não falaram nada, não opinaram em nada. Acho que a Globo virou uma donzela maravilhosa. Talvez eles nem saibam desse meu filme.”

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