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Estudos, perrengues e haters: vida de tradutor simultâneo não é nada fácil

Allison Janney recebe o Oscar de melhor atriz coadjuvante por "Eu, Tonya" - REUTERS/Lucas Jackson
Allison Janney recebe o Oscar de melhor atriz coadjuvante por "Eu, Tonya" Imagem: REUTERS/Lucas Jackson

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

06/03/2018 09h06

Eles estão em todos os eventos internacionais que você assiste pela televisão: Oscar, Globo de Ouro, VMA, Grammy e até entrevistas em jogos de futebol. Os tradutores simultâneos, aqueles que você ouve durante a transmissão ao vivo, precisam estudar muito o que pode rolar em cada cerimônia e ainda são obrigados a ter jogo de cintura para driblar situações complicadas.

"Para o Oscar, especificamente, eu procuro ver os principais filmes e me inteirar sobre a vida dos indicados. O ganhador acaba de receber um Oscar, sobe ao palco nervoso, às vezes sem um discurso preparado, e sai agradecendo a todas as pessoas importantes de sua vida, da professora do jardim de infância ao diretor do filme", define em entrevista ao UOL Anna Vianna, tradutora da Globo que transmitiu o Oscar no último domingo (04) pela emissora.

Jimmy Kimmel apresenta o Oscar de 2018 - REUTERS/Lucas Jackson - REUTERS/Lucas Jackson
Jimmy Kimmel apresenta o Oscar de 2018
Imagem: REUTERS/Lucas Jackson

Anna deixa uma ficha com todos os dados necessários de cada artista indicado: onde nasceu, o nome dos filhos, dos pais, do cônjuge, se tem alguma causa social importante que possa ser citada, enfim, coisas que podem aparecer de surpresa. "A vida do intérprete profissional é essa: estudar para qualquer evento".

No caso específico de Felipe Simões, tradutor da TNT, ele se concentrou no comediante Jimmy Kimmel, apresentador da 90ª edição do Oscar. "[Estudei] O que ele costuma falar, vídeos específicos do que ele gosta de brincar. Meio que para entrar na cabeça dele e tentar imaginar como ele ia levar o Oscar".

"Você nunca sabe o que pode acontecer. O orador pode ser um especialista em neurocirurgia, mas de repente resolver fazer uma piada ou contar um caso qualquer. Qualquer assunto pode ‘cair na prova’. Preparo é tudo.", completa Anna.

Haja perrengue

"Para mim, vencer o nervosismo é a maior dificuldade. Os primeiros minutos são sempre os mais tensos.", conta Anna. Já Felipe, que acabou de fazer sua estreia no Oscar, o nervosismo até que não o atrapalha. A grande questão, principalmente durante a maior celebração do cinema, é a quantidade de informação que precisa passar para o telespectador.

"O Grammy, por exemplo, é mais fácil, porque tem vários shows e a gente acaba tendo um descanso. O Oscar é mais exaustivo, eles falam o tempo todo e até durante o intervalo a gente já fica preparando o que vem na sequência", analisa Felipe Simões, que desde 2014 cobre eventos de músicas para a MTV.

Tudo bem, o Grammy pode até ser mais tranquilo, porque dá para ver uns shows aqui e acolá, mas também garante uns perrengues. "Acho que a pior [experiência durante uma tradução simultânea] foi o monólogo do Kanye West, quando ele ganhou um prêmio pelo conjunto da obra. Foi um discurso de uns 11 minutos e tudo improvisado", lembra Felipe.

Anna enfrentou uma bucha ano passado, quando "La La Land - Cantando Estações" comemorou por alguns minutos o Oscar de melhor filme, até perceberem que "Moonlight" foi o campeão da noite.

"Nesse caso específico, continuei traduzindo o que estava sendo dito normalmente, já que só posso falar o que está sendo dito pelo orador. Ao mesmo tempo, tem que ter jogo de cintura para superar a surpresa do momento, mantendo a calma. Temos que lembrar que o espectador não está ouvindo o som original, então é essencial se manter fiel ao que está acontecendo no palco, passando a emoção de quem está falando".

O falatório nas redes sociais

Acha que tradutor também não acumula haters? Eles estão aí espalhados pelas redes sociais e criticam se algum detalhe não passou percebido e também se uma tradução não foi a correta que se imaginava para tal situação. 

O trabalho de tradução simultânea não é dos mais conhecidos do grande público e até um simples lembrança positiva já vale para os profissionais. "Fico ainda mais satisfeita quando algum espectador elogia, porque aí sei que atingi meu objetivo: fazer com que um brasileiro, que não fala inglês, sinta que participou da festa do Oscar.", comemora Anna.

No último Oscar, um termo usado por Frances McDormand -- em seu discurso ao receber o prêmio de melhor atriz -- chamou a atenção. "Inclusion rider" é um termo técnico muito específico de dentro da indústria, que foi traduzido como "roteirista de inclusão", tentando imprimir a ideia de que um elenco e equipe mais diversificados podem ser incluídos em um projeto. E muitas pessoas reclamaram do modo como foi traduzido para o público.

"Eu já me incomodei mais com os haters. Tem que entender que a profissão tem esse tipo de percalço. A gente transmite o máximo que dá, com a melhor fidelidade possível", garante Felipe.

Frances McDormand recebe o Oscar de melhor atriz por "Três Anúncios para um Crime" - Kevin Winter/Getty Images - Kevin Winter/Getty Images
Frances McDormand recebe o Oscar de melhor atriz por "Três Anúncios para um Crime"
Imagem: Kevin Winter/Getty Images