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Trupe do "Choque de Cultura" prepara filme (de zoeira) sobre futebol

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Cerginho da Pereira Nunes, jornalista em fase de alfabetização, e Craque Daniel, empresário boleiro, do "Falha de Cobertura" Imagem: Reprodução

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

02/03/2018 04h00

O ex-jogador Craque Daniel é um comentarista fracassado que usa seu programa para “requentar” jogadores e vendê-los para times de segundo escalão. Preso por não pagar pensão alimentícia à ex-mulher Monnnyke, ele conhece Cerginho da Pereira Nunes, um narrador de penitenciária em fase de alfabetização que decide ajudá-lo naquela que será a “maior aquisição” da história do futebol ucraniano. Isso se Monnnyke permitir.

A sinopse acima é real. Será contada no filme “Falha de Cobertura”, produção baseada no programa homônimo criado e estrelado na TV Quase pelos "militantes" do audiovisual Daniel Furlan e Caito Mainier, que ganhou versão no canal SporTV na última Olimpíada de Inverno.

Com roteiro assinado pela dupla e direção de Fernando Fraiha (“La Vingança”), que comanda o sucesso “Choque de Cultura”, a história foi autorizada a captar R$ 7,3 milhões via lei de inventivo e será produzida pela Biônica Filmes. Inspirado em um argumento de 2014, ano em que o programa estreou na web, primeiro filme original da Quase é o passo mais ousado até aqui de uma trupe que aos poucos vem ganhando a internet pelo frescor no formato e linguagem.

“Nós ainda não estamos no momento de pensar no elenco do filme. Pensamos em mesclar a galera da Quase com uns nomes aí que a gente curte. De repente o Wesley Snipes. Mas só porque é um nome que soa bem. Wesley Snipes. Wesley Snipes”, brinca Daniel Furlan ao UOL. Ainda não há previsão de lançamento.

Com arestas devidamente aparadas, o humor que estará no filme é o típico das produções Quase: independente todos ali têm outras fontes de renda, irônico, nonsense e por vezes “naturalista”, pródigo em satirizar a TV e fazer troça do senso comum. A famosa “boca pequena”. Mas a graça vai muito além do que sugerem adjetivos enfileirados.

“Quando a gente faz humor, a gente nem pensa nisso [em definir estilo]. Fazemos um trabalho colaborativo. Isso que nos suscita a escrever e a ter ideias. De repente, um vai um rindo da piada do outro até chegar numa versão final do texto, que é assinado por alguém. Nos divertimos com isso”, diz Caito, que também é roteirista do programa “Lady Night”, apresentado por Tatá Werneck no Multishow. “Esse ‘frescor’ que você falou talvez venha da nossa ignorância de não se importar com o que deveria ser feito.”

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Trupe do Choque de Cultura preparando o roteiro da live do Oscar, que vai ar neste domingo (4) Imagem: Reprodução/Instagram

Quase lá

Com QG montado em São Paulo, a TV Quase tem na espinha dorsal os nomes de Daniel Furlan, Juliano Enrico, Caito Mainier, Raul Chequer, Leandro Ramos, David Benincá e Pedro Leite. Todos roteiristas, editores, produtores, diretores e eventualmente atores na casa dos 30-40 anos. A origem do grupo remonta à revista alternativa “Quase”, de Vitória (ES), que nasceu publicando quadrinhos cômicos antes de virar produtora de vídeo em 2009.

O divisor de águas veio em 2013, via MTV, na época já com os dias contados dentro do Grupo Abril. Na época, a Quase emplacou na emissora a série “Overdose”, produzida em conjunto com a produtora carioca Carambolas, do programa “Larica Total”. Foi o início da aproximação de Caito e Leandro com os capixabas, fixados na trupe em 2014.

O surreal “Último Programa do Mundo”, que zoava o fim da própria MTV e ainda é produzido, deu visibilidade nacional aos trabalhos. “A gente queria fazer audiovisual. Morando em Vitória, era difícil correr atrás das pessoas. Acho que um ponto importante foi quando rolou de o Juliano e Raul virem para São Paulo fazer uma cobertura independente do Video Music Brasil. Começamos a nos encaixar nesse cenário”, conta David Benincá, que no universo da Quase interpreta o indecifrável Poeta de Sunga.

Choque de Cultura

Entre os projetos paralelos à TV Quase estão o canal Amada Foca, com os ex-MTV Bento Ribeiro e Bruno Sutter, e “Irmão do Jorel”, animação do Cartoon Network criada por Juliano Enrico e indicada a diversos prêmios. A bola da vez, no entanto, responde por “Choque de Cultura”. Lançado em 2016 em parceria com o site "Omelete", o programa se incumbiu de imaginar como seria se quatro motoristas "sem noção" de van (irregular) se juntassem para debater cinema e entretenimento.

Sucesso de audiência, a proposta esdrúxula que surfa no absurdo é calcada em uma antiga ideia de Leandro Ramos, o "Julinho Talk Show" este voltado apenas ao universo das vans, e hoje bate a média de 500 mil visualizações por vídeo. O mais acessado, que discute a rivalidade Marvel-DC, ultrapassou a barreira de 2 milhões. Memes com bordões dos personagens correm solto nas redes sociais. A Quase nunca foi tão longe.

Neste domingo, o Choque de Cultura promoverá sua primeira "live" durante a cerimônia do Oscar. Certeza de mais uma coleção de pérolas de Rogerinho do Ingá, Maurílio dos Anjos, Julinho da Van e Renan, o pai de Renanzinho, seu “guerreirinho”. “Não faço a menor ideia [do porquê do sucesso do programa]. A gente deve ter feito alguma coisa errado”, ironiza Furlan, que este ano atuará em "Samantha!", terceira série original do Netflix feita no Brasil e a primeira de comédia.

Com a repercussão, as comparações pipocam na imprensa e nas caixas de comentário. Alvos prediletos: Hermes e Renato e Porta dos Fundos. “Acho que as pessoas comparam mais por falta de referência mesmo. Mas, para a gente, nenhuma comparação incomoda. A gente adora Hermes e Renato, é uma das maiores referências na nossa geração. E a gente também adora Porta dos Fundos. Somos amigos do Kibe [Antonio Tabet] e Porchat, já fizemos parceria. Tá tudo certo.”

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