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Você acha que Mulher-Maravilha revolucionou Hollywood? Então pense melhor

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Gal Gadot em cena de "Mulher-Maravilha" Imagem: Divulgação

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

22/02/2018 11h36

Se você achou que "Mulher-Maravilha" estava promovendo uma revolução em Hollywood, bem, você provavelmente está só metade certo.

É verdade que os três filmes que dominaram o topo das bilheterias norte-americanas em 2017 tinham protagonistas mulheres --"Star Wars: Os Últimos Jedi", "A Bela e a Fera" e a própria "Mulher-Maravilha" (vale lembrar que os dois primeiros também ocuparam o pódio das bilheterias mundiais). Mesmo assim, os homens continuaram a dominar o cinema de forma geral.

Um estudo da Universidade de San Diego mostrou que apenas 24% dos protagonistas dos 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos eram mulheres em 2017, uma queda de cinco pontos em relação a 2016. Se formos olhar para quem tem voz nesses filmes, apenas 32% deles tinham 10 ou mais mulheres com falas.

E mesmo as mulheres que conseguiram um espaço não estavam livres de um estereótipo sexista muito forte no cinema: eram em grande parte muito jovens, na casa dos 20 anos, sendo que só 29% dessas personagens tinham mais de 40 anos, contra 46% quando considerados os personagens masculinos. E, é claro, as mulheres em geral apareceram mais em comédias e dramas do que em filmes de ação, terror e mesmo animações.

Tudo isso parece surpreendente quando olhamos para o sucesso de blockbusters carregados por mulheres, que também incluíam títulos como "Cinquenta Tons Mais Escuros" e "The Post: A Guerra Secreta". Vamos combinar: um ano com a primeira grande produção comandada por uma heroína deveria trazer melhores notícias.

É claro que o problema todo está relacionado a quanto dinheiro um estúdio põe em uma produção, e parece que muitos executivos ainda hesitam em apostar em mulheres para carregar um filme, apesar do sucesso recente de franquias como "Jogos Vorazes" e "Crepúsculo". Produtoras mais independentes foram muito mais "ousadas" nesse sentido, com 65% de seus filmes com protagonistas mulheres (contra 35% nos grandes estúdios).

A única boa notícia foi um avanço na diversidade das personagens femininas: o número de negras cresceu de 14% para 16%, o de latinas mais que dobrou de 3% para 7%, e o de asiáticas subiu um ponto, chegando a 7%.

A revolução que nunca vem

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"A Bela e a Fera" foi um dos filmes que rompeu o teto de vidro em 2017 Imagem: Divulgação

Já virou quase piada em Hollywood: a cada vez que um filme centrado em uma personagem feminina faz muito sucesso, cria-se uma expectativa de que as coisas de fato começam a ficar mais igualitária, e que os estúdios percebam que esse tipo de produção tem muito potencial de lucro. Na esteira até aparecem mais algumas produções, mas logo tudo volta ao que era antes.

A indústria até já entendeu sim que dá para ganhar dinheiro dessa forma, mas ainda considera um risco. E isso tem a ver com uma crença que remonta aos anos 1980, quando as bilheterias passaram a ser dominadas por franquias como "Star Wars", "Tubarão" e "De Volta para o Futuro", cujo principal público eram os meninos adolescentes brancos que tentavam se espelhar nos heróis "cool" desses filmes.

Até fazia sentido produzir filmes para esse público quando eles eram mesmo a maioria, mas isso vem mudando há algum tempo e hoje as mulheres já são 51% das espectadores nos Estados Unidos (segundo dados da Motion Pictures  Association of America de 2016).

A verdade é que a origem do problema está em quem comanda o cinema por trás das câmeras, e esses executivos, não por acaso, são versões crescidas daqueles garotos adolescentes, que fazem os filmes com heróis que eles próprios se identificam e que, pior, em geral contratam profissionais que também são parecidos com eles.

Os números confirmam essa relação: segundo outro estudo da Universidade de San Diego, entre as 250 maiores bilheterias de 2017 nos EUA, só 11% tiveram diretoras, e as mulheres foram apenas 18% dos profissionais envolvidos nesses filmes. Já é uma melhora, porque em 2016 esses números eram 7% e 17%, respectivamente.

No entanto, ainda é um mundo que está bem longe de representar a diversidade do mundo real. E é óbvio que é perfeitamente possível que profissionais homens possam fazer bons filmes sobre mulheres, mas vamos combinar também que é muito mais fácil para qualquer pessoa contar histórias mais próximas da sua própria experiência.

O teto de vidro nacional

No Brasil a situação não é muito diferente. Não temos estudos tão completos quanto os realizados anualmente em San Diego, mas basta olhar para o ranking das 20 maiores bilheterias nos cinemas nacionais em 2017 para percebermos que a tendência se repete. Dessas, apenas 5 tiveram protagonistas mulheres: "A Bela e a Fera", "Mulher-Maravilha", "Moana", "Cinquenta Tons Mais Escuros", e "Star Wars: Os Últimos Jedi".

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"Star Wars: Os Últimos Jedi", protagonizado por Rey (Daisy Ridley), dominou as bilheterias do mundo todo em 2017 Imagem: Divulgação

O número é o mesmo quando olhamos para o top 20 dos filmes nacionais: "Fala Sério, Mãe!", "Meus 15 Anos", "Duas de Mim", "TOC - Transtornada, Obsessiva, Compulsiva" e "Como Nossos Pais". Aqui, a diversidade de gêneros é ainda menor, sendo todos os títulos de comédia, drama ou comédia romântica.

E, de novo, encontramos desigualdade quando olhamos para os bastidores. Um estudo da Ancine (Agência Nacional de Cinema) com os filmes lançados em 2016 revelou que 75,4% foram dirigidos por homens brancos (78,2% por homens de qualquer etnia) e só 19,7% tiveram diretoras (todas elas brancas, vale notar). A disparidade se repete entre os roteiristas (apenas 16,9% de mulheres).

A única área da produção nacional onde a mulher tem maior presença é na produção executiva, com 39.7% dos filmes produzidos exclusivamente por mulheres.

O retrato dos atores que estrelam esses filmes também se mostra descolado da realidade brasileira: 40,6% mulheres e 13,4% de negros ou pardos de qualquer gênero.

Diante desse cenário, a Ancine, pela qual passam as principais formas de financiamento do cinema nacional, anunciou editais no valor de R$ 61,5 milhões a serem destinados a projetos que no total tenham pelo menos 50% de realizadoras mulheres e 25% de negros ou indígenas. No entanto, a iniciativa foi bastante criticada por contemplar majoritariamente produções para o público infantil, além de uma linha específica para comemorar os 200 anos da independência do Brasil.

Apesar de insuficiente, a iniciativa até aponta na direção certa, a mesma que Hollywood aos poucos também vem percebendo: a de que toda indústria que não reflete a diversidade que existe no mundo vai sempre produzir uma realidade distorcida, o que é mais grave no setor considerado uma verdadeira "fábrica de sonhos", o caso do cinema.

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