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Como as aventuras de Deus viraram a tirinha mais vista do Brasil

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O cartunista Carlos Ruas, responsável pelas tirinhas online "Um Sábado Qualquer" Imagem: Divulgação

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

30/01/2018 09h59

Carlos Ruas é responsável pelas tirinhas online mais acessadas do Brasil. Com "Um Sábado Qualquer", o cartunista apresenta sua versão das aventuras de Deus, tenta dar mais atenção a Lúcifer (mais conhecido como Luci pelos íntimos), explora a mitologia grega, lembra de Maomé e ainda dá espaço para outras crenças. Tudo de forma cativante e bem-humorada.

Lançando o livro "A Infância de Cristo", com compilações de "Um Sábado Qualquer", o artista "humaniza" Jesus ao mostrar como foi a infância dele: "Quando a gente é adolescente revoltado faz muita besteira, pode ter sido por isso que eles não quiseram escrever o que Jesus fez naquela época", brinca o cartunista em entrevista ao UOL.

Ruas tem uma explicação por trás da "paz e amor" da figura central do cristianismo. "Quando vira pacifista é sinal de que fez muita merda antes. Ele fugiu de casa também, porque pai militar, filho hippie. Essa é a minha teoria. A biografia de Deus é autorizada, aguardo a não autorizada. Na verdade, eu faço a não autorizada, que mostra um outro lado".

Reprodução/Facebook
Jesus e Madalena Imagem: Reprodução/Facebook

Mesmo acumulando haters por tocar em assuntos delicados, Ruas recebe elogios tanto de religiosos quanto de ateus. E a prova do sucesso foi a arrecadação de R$ 285 mil no "Catarse" com sua última obra, já considerada dentro do site de financiamento coletivo o maior projeto nerd do Brasil. 

"O que eram para ser 500 pessoas apoiando viraram 3.200. Esse último livro é uma coletânea, mas eu sempre trago uma coisa nova. É a coletânea dos últimos dois anos de tirinha, mas coloquei como título 'A Infância de Cristo', porque a bíblia não fala o que aconteceu com essa parte da história. E gera especulações".

Mesmo a nova cria tendo apenas alguns meses de vida, Ruas já pensa em outro livro. Desta vez, para ser mais justo com Luci. "Na internet e na Bíblia a gente só ouve um lado. E a gente não conhece o lado do Luci. A Bíblia foi um dos primeiros livros de fofoca, Deus fala mal do Luci  pra caramba. E Luci pode ser aquele cara maduro, que não quis entrar nessa", opina o artista, aos risos.

Fanáticos religiosos

Como esperado, o quadrinista acumula algumas críticas, principalmente com o sucesso crescente de "Um Sábado Qualquer", que conta com quase 3 milhões de curtidas apenas no Facebook. Para ele, a internet contagia quem busca respostas e ideologias fáceis. "Isso é uma coisa que devemos ter muito cuidado, quando taxam que o mal é aquele que não pensa igual a você. Isso faz com que você aumente seu ego".

Ruas não tem intenção de incomodar ninguém, ele prega apenas a reflexão. "Para as pessoas, que não conhecem outras linhas de raciocínio ou não têm realidade externa, as tirinhas tendem a refletir sobre certas ideologias. A maioria pergunta no que eu acredito, e isso mostra que estou alcançando meu objetivo. Juiz que apita não pode ter time, sabe? Esse é o meu ponto de partida. Eu tento colocar todos os deuses na mesma mesa de boteco".

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Tirinha de Carlos Ruas para o "Um Sábado Qualquer" Imagem: Reprodução

Ele mesmo é um fanático religioso

Apaixonado por religião, Ruas investe horas do seu dia lendo livros sagrados -- prática incomum para quem nunca foi a uma aula de teologia e se formou em design. O quadrinista adora a mitologia grega -- até ajudou o seu sobrinho a entender melhor a série de livros/filmes "Percy Jackson" -- e também admira o mundo do espiritismo.

"Eu li o "Nosso Lar", do Chico Xavier, e caramba, claro que foi um espírito que falou para ele, ele foi apenas uma ferramenta, mas se o Chico for um velho esquizofrênico e nada daquilo existe, ele é um dos maiores autores de ficção científica do Brasil. Se não fosse religião, seria um novo Harry Potter".

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O "esquecido" Luci Imagem: Reprodução

É através de pesquisas e com um senso de humor que vem desde pequeno que toda manhã o quadrinista vence a vontade de ver Netflix ou ficar no sofá ou comendo biscoito para bolar algumas tirinhas para o dia. Em seguida, ele desenha, pinta e à tarde cuida da parte burocrática da marca. Ah, e tudo no modo mais antiquado possível: papel e caneta na mão.

"Eu ainda não consegui me adaptar ao tablet, porque quando você desenha você olha para o papel, no tablet você olha para a tela. Isso causa uma diferença absurda, e meu desenho regrediu há alguns anos por causa disso. E não tenho pressa para me adaptar a isso. Ainda estou aguardando o momento, mas pretendo me render ao tablet algum dia", profetiza.

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