Livros e HQs

Em Cartagena, Jaime García Márquez mantém vivo o legado do irmão famoso

Felipe Branco Cruz/UOL
Jaime Garcia Marquez na sede do FNPI em Cartagena, na Colômbia Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

Felipe Branco Cruz

Do UOL, em Cartagena de Índias (Colômbia)

02/12/2017 04h00

Depois que o jornalista e prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez imortalizou em suas obras as ruas e os sobrados de Cartagena, a mágica cidade colombiana nunca mais foi a mesma. Quem garante é Jaime, 77, irmão mais novo do escritor e diretor da FNPI (Fundação para o Novo Jornalismo Ibero-Americano), fundada por Gabriel e sediada na cidade.

Jaime é o elo mais forte e acessível para quem quiser saber mais sobre a vida e a obra do escritor, que morreu em 2014 aos 87 anos. Em Cartagena, ele ajuda a manter vivo o legado do irmão, promovendo visitas guiadas e palestras para turistas. "Falo com prazer sobre ele. Este é o meu trabalho", disse o irmão de Gabo (apelido do escritor) ao UOL em sua sala na sede da FNPI. "Eu era engenheiro e Gabito me trouxe dos canteiros de obra para cá. Todos os meus irmãos são bons com a pena, mas eu sou um García Márquez que não escreve nem cartas de amor".

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Muro alto esconde a casa de Gabriel Garcia Marquez em Cartagena Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

Jaime contou que, quando Gabo se mudou para Cartagena em 1948, o escritor era completamente desconhecido e não tinha um centavo no bolso. Na cidade, encontrou prédios caindo aos pedaços e ruas decadentes. Mas nada disso impediu que o lugar o inspirasse a criar o realismo mágico famoso em suas obras. "Meu irmão transformou a realidade nesta coisa poética que a gente tanto ama".

Cartagena abriga diversos lugares importantes na vida e na obra de Gabo, como a sua casa, a antiga sede do jornal "El Universal", onde ele começou sua carreira jornalística, além de cenários que inspiraram alguns livros, como o Hotel Sofitel Santa Clara, a praça Fernández de Madrid e o Portal de Los Dulces. O escritor está até na nova cédula de 50 mil pesos colombianos, lançada em agosto de 2016.

No Claustro la Merced, da Universidade de Cartagena, é possível visitar o túmulo onde os restos mortais do escritor foram enterrados. No lugar há um monumento em homenagem ao autor e um busto de bronze. 

Mas um dos poucos lugares dentro da cidade que passa quase despercebido pelos fãs é a casa de Gabriel, de arquitetura moderna, onde atualmente vive sua mulher, Mercedes Bacha. A casa fica escondida atrás de muro de quase 3 metros de altura, todo pintado de laranja e próximo à muralha da cidade.

"O local onde ele construiu sua casa era uma fábrica de sapatos muito velha. Então, nesta circunstância, o governo permitiu que ele fizesse uma obra moderna no lugar. A família nunca pensou em transformar a casa em museu porque ela foi feita depois que Gabito já era famoso e não tem nenhuma referência histórica", disse Jaime. "Para mim, é a casa mais linda de Cartagena, mas eu digo isso da minha perspectiva de irmão. É simples e belíssima".

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Praça Fernández de Madrid que em "O Amor Nos Tempos do Cólera" virou Plaza de Los Evangelios Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

Metáfora

Para Jaime, o livro do irmão que mais lhe causou impacto é "O Amor nos Tempos do Cólera", ambientado em Cartagena. "É uma metáfora dos amores contrariados de meu papai e de minha mamãe. Não é exatamente a história dos meus pais, e sim a essência dela", explicou. "Um dos momentos mais bonitos do livro é quando Gabito descreve a viagem de Florentino de barco. É lindo", lembra. "Embora suas obras sejam repletas de metáforas, elas estão contaminadas de realidade. É o realismo mágico".

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Hotel Makondo faz referência a fictícia cidade de Macondo, de "Cem Anos de Solidão" Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

Outro ponto de interesse na cidade é o pátio do luxuoso hotel Sofitel Santa Clara. Quando era jornalista, Gabo acompanhou uma escavação no lugar, onde funcionava um convento. Lá, ele encontrou um cadáver de uma mulher com um imenso cabelo e daí veio a inspiração para escrever "Do Amor e Outros Demônios". "Gabito deu uma interpretação diferente para cada lugar de Cartagena. Faz parte da sua mágica. Se você for no hotel, há um poço onde o corpo foi achado. Os hóspedes até podem descer lá, por causa da mística criada pelo livro, mas hoje é só um buraco".

Jaime ajudou a criar um roteiro especial pela cidade, formatado para agradar aos fãs do escritor. Embora ele não trabalhe como guia turístico, é relativamente fácil encontrá-lo pelas ruas acompanhando os grupos. "Eu faço esse tour. Gosto de contar onde ele viveu, trabalhou e se inspirou. A vida de Gabito está aqui em volta". Do jornalismo, Jaime disse que o irmão era um mestre diferente desses que se encontram nas faculdades. "Ele foi um mestre em transformar o jornalismo em literatura".

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Nas ruas de Cartagena, uma banca vende todos os livros de Gabriel Garcia Marquez Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

Comunismo

A reverência com que Gabo é tratado em seu país natal é recente. No passado, seu nome foi "perseguido" por ser de esquerda, principalmente pela amizade que manteve com Fidel Castro, em Cuba.

"Gabito me trouxe para Cartagena depois de perceber o perigo que eu estava enfrentando no meu trabalho. Num dia, estava com meus filhos indo acompanhar uma obra. Quando parei o carro, uma pessoa veio e me disse: 'Você é o irmão do filho da p*** do Gabriel García Márquez'. Naquele momento, percebemos que meu irmão era um tipo de intelectual que a pessoas não gostavam", disse Jaime.

"É claro que durante toda a vida nós fomos de esquerda. Mas uma coisa é ser delinquente, pegar em armas. Nunca fizemos isso. Criaram uma má imagem de Gabito aqui na Colômbia, dizendo que ele era comunista".

Para Jaime, a obra do irmão sempre falou mais alto com reconhecimento em todo o mundo, inclusive na Colômbia. "A prova é essa linda homenagem ao meu irmão na nota de 50 mil pesos".

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Portal de Los Dulces, um dos cenários do livro "O Amor Nos Tempos do Cólera" Imagem: Felipe Branco Cruz/UOL

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