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"Genial" no Jô, artista lamenta crítica de negros em acusação de black face

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

01/12/2017 10h49

Alexandra Loras tem o combate ao racismo como uma das suas principais missões e, mesmo sendo francesa, usa sua posição como ex-consulesa da França em São Paulo, para falar do tema dentro de seu círculo social, a elite brasileira. Nesta semana, ela virou alvo de polêmica por conta da exposição “Pourquoi pas?”, com abertura neste sábado, em São Paulo, em que representa personalidades brancas com a pele escurecida digitalmente e modificações no cabelo. A repercussão a surpreendeu e a fez lamentar que boa parte das críticas venha de negros, dois anos depois de ter viralizado e vista como “genial” por uma entrevista falando sobre racismo no programa de Jô Soares.

Alexandra foi entrevistada de Jô em novembro de 2015 e, na época, vídeos em redes sociais com trechos do programa tiveram grande alcance. Na ocasião, a ex-apresentadora de TV comemorou quando Jô a perguntou se ela já havia sofrido racismo: “era isso que eu queria que você me perguntasse”. A partir daí, ditou o rumo da entrevista, expondo suas opiniões sobre o tema e até colocando Jô no papel de entrevistado, ao perguntar a opinião dele sobre uniformes brancos para babás e domésticas.

Reprodução
Alexandra Loras no programa do Jô Imagem: Reprodução

A situação é bem diferente agora, a ponto de a abertura da exposição na Galeria Rabieh ter precauções especiais contra manifestações (leia mais abaixo). Entre as celebridades retratadas com a pele escurecida - ou “pichadas”, como brincou Loras -, há Dilma Rousseff, Michel Temer, Donald Trump, Xuxa, Gisele Bündchen... Loras explica que já costumava representar personalidades desta forma, mas que nunca tinha sido atacada por isso.

“Já faz vários anos que falo disso em minhas palestras. Faço palestras sobre diversidade e uso essa dinâmica para trabalhar com um mundo inverso. Já fiz até as princesas da Disney como negras. Mas ninguém tinha me falado que era ‘black face’”, afirmou Alexandra, ao UOL.

“O ‘black face’ é quando há uma narrativa pejorativa para representar o negro, satirizando. Se fosse a Gisele Bündchen que tivesse pintado o próprio rosto de negro, usado uma peruca e se colocado numa narrativa da nega maluca, seria. Por que? Porque ela é branca e estaria inferiorizando o negro”, opinou a francesa. “Eu, como negra, estou no meu espaço de fala ao tratar da negritude. Estou colocando minha linda melanina no rosto de uma imagem. Não estou pintando a verdadeira Gisele, estou modificando uma imagem digital, pichando a elite brasileira para trazer a discussão de apartheid e segregação no Brasil.”

Alexandra admite que a intenção era provocar. “É uma forma de cutucar. A arte é feita para provocar. Se fosse só para agradar, eu estaria pintando flores e estaria tudo lindo. Mas quero provocar uma reflexão na sociedade”, diz ela. O que chocou foi o volume e a forma das críticas, que chegaram logo que o trabalho foi divulgado em redes sociais, antes mesmo da abertura da exposição.

Reprodução/Facebook
Alexandra Loras cursou artes, mas deixou a paixão como hobby nos últimos anos Imagem: Reprodução/Facebook

A ex-consulesa explica que escolheu personalidades que eram representativas para o Brasil no momento e acabou com uma lista de cerca de 20, de acordo também com as que tinham imagens que lhe permitissem manipular digitalmente e chegar ao resultado desejado. O objetivo é mostrar ao negro que eles podem estar em espaços que ainda são dominados por brancos.

“Quero que as pessoas possam enxergar em uma mulher negra uma médica, uma advogada. Não é só para o branco acordar, mas para o negro acordar. O branco não é a única questão. Não vivemos um racismo como o da África do Sul, que era legalizado. Aqui é algo mais sofisticado. Eu nunca vou saber o que é ser uma mulher brasileira negra. Mas como mulher negra, posso dar minha visão de que o Brasil é monocromático nas esferas de elite em que circulo, em que persiste um preconceito forte, mas que é cordial, então as pessoas não enxergam como ele é problemático”, pontuou a francesa.

Alexandra destaca que o que a fez “bombar” no “Programa do Jô” segue a mesma dinâmica do que ela propõe hoje. “Lá, eu me levantei e falei: ‘agora imaginem um mundo inverso, em que os negros são considerados lindos, inteligentes...’. Lá, todo mundo aplaudiu, falou que foi genial”, relembrou. “As críticas que recebi agora foram, na maioria, de negros, querendo até cancelar a exposição. E isso ilustra um problema sério de representatividade do negro. (A exposição é) uma forma sútil de trabalhar o inconsciente e mostrar as pessoas o preconceito e ajudar os negros a entender, afinal uma imagem fala mais que 10 mil palavras.”

Segurança reforçada e performances

Alexandra Loras cursou artes em sua primeira faculdade, mas preferiu não concluir os estudos e deixar este seu lado como hobby, fazendo pinturas e esculturas, por exemplo. Hoje, conseguiu juntar a antiga paixão com seu ativismo e diz que é uma “artivista”.

A fundadora da galeria, Lourdina Rabieh, conhecia o trabalho de Alexandra há alguns anos e quis investir na causa. Lourdina é libanesa naturalizada brasileira, e deixou seu país natal há 30 anos como refugiada de guerra. “Sou a favor de ajudar os menos favorecidos, como eu, que tive de começar do zero aqui no Brasil. Quando ela me explicou a ideia, achei genial e discutimos bastante a repercussão. Sabíamos que poderia ter polêmicas, mas não esperávamos desta forma, ainda mais da comunidade negra. Acho que eles não entenderam a mensagem, mas agora ela tem tido a oportunidade de explicar e esperamos que seja visto de outra maneira.”

Lourdina revelou que está se precavendo para a abertura da exposição e reforçando a segurança. “A gente está prevendo que vai ter muita gente, estamos sendo aplaudidos por muitas pessoas e apedrejados por muitas pessoas. É a primeira vez que faço uma exposição tão polêmica, então vou tomar algumas providências. É um tema muito sensível, nós sabemos disso. Mas acho bom para as artes. Quanto mais polêmica melhor, porque a função da arte é mostrar um problema e deixar as pessoas resolverem.”

Para a abertura da exposição na Galeria Rabieh, estão programadas também performances de grafiteiros e pichadores. “Pourquoi pas?” traz curadoria do grafiteiro Enivo, além das obras contarem com a intervenções do grafiteiro M.I.A. nas fotografias.

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