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Barracão fechado e verba cortada: escolas de samba sofrem antes do Carnaval

Bruna Prado/UOL
Em 2017, Portela quebrou um jejum de mais de duas décadas e foi campeã do Carnaval Imagem: Bruna Prado/UOL

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

20/11/2017 04h00

A pouco menos de três meses para o Império Serrano abrir os desfiles do Grupo Especial, no dia 11 de fevereiro, as escolas de samba do Rio de Janeiro vivem um momento de incerteza e percalços na preparação de seus cortejos. Desde o corte de 50% nas subvenções públicas, definidas pelo prefeito Marcelo Crivella, as escolas tentam aprontar seus desfiles com orçamentos reduzidos e dificuldades que surgiram ao longo do processo, como o atraso nos repasses e o fechamento da Cidade do Samba, complexo onde são construídas alegorias e fantasias.

Fechada por decisão do Ministério do Trabalho em meados de outubro, a Cidade do Samba, que, nesta época do ano já viveria a rotina do trabalho de milhares de funcionários, encontra-se completamente deserta. Por decisão do superintendente Regional do Trabalho, Cláudio Secchin, os barracões das 13 escolas estão interditados. Em grande parte, por questões de segurança do trabalho de responsabilidade de cada agremiação. Mas, também, por conta de erros estruturais, difíceis de se reparar a curto prazo, já que o complexo, inaugurado em 2006, foi construído pela Prefeitura do Rio.

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Apesar do impasse, o presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), Jorge Castanheira, vê uma solução rápida para o imbróglio: “As escolas estão correndo contra o tempo para fazer as adaptações necessárias para que tenham velocidade para finalizar seus carnavais e os fiscais voltarão, escola por escola, para a desinterdição dos barracões. Certamente, os cronogramas são prejudicados, mas vai dar tempo de tudo ficar pronto”, explica.

Uma nova vistoria dos fiscais do Ministério do Trabalho deverá ocorrer nesta semana. Segundo o presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães, a escola já cumpriu todos os requisitos de segurança de trabalho exigidos. “São procedimentos importantes e estamos cumprindo todos. Porém, faço um questionamento: por que essa fiscalização não ocorreu em abril, quando os barracões estavam parados? A fiscalização veio no momento em que as escolas estão alçando voo e de forma punitiva”, afirma o presidente. O carnavalesco da São Clemente, Jorge Silveira faz coro: “São vidas humanas que estão em jogo e sabemos que elas estão acima de tudo. Porém, poderia ter sido feito um termo de ajuste de conduta, com um caráter mais educativo”. 

Corte e atraso de verbas

As escolas de samba do Grupo Especial recebiam, em média, R$ 7 milhões para fazer os seus desfiles. Destes, R$ 2 milhões eram provenientes da subvenção municipal, cortada pela metade. O restante advém da venda de direitos televisivos, ingressos, CDs e rendas próprias das agremiações, como eventos em suas quadras e patrocínios próprios. Após o corte de 50% da verba da prefeitura, as agremiações sofreram também com a demora no repasse das subvenções públicas. A primeira parcela, que deveria ter sido paga em julho, só foi depositada no final de outubro.

Em consonância com o fechamento dos barracões, a perspectiva é uma só: correria para a finalização de alegorias e fantasias. “Esse ano, a tendência é termos ainda mais dificuldades. Demora na chegada de recursos, pouco tempo para trabalhar e, conforme o Carnaval se aproxima, o custo da mão de obra aumenta. Estamos em um verdadeiro gargalo financeiro e técnico”, afirma Rodrigo Pacheco, vice-presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel. Segundo Pacheco, todas as escolas estão enxugando seu orçamento: “Chegamos ao nosso limite de cortes de despesas. Se cortarmos mais, colocaremos a segurança e a beleza do espetáculo em xeque”. 

A Riotur, empresa de turismo vinculada à Prefeitura do Rio, sinalizou com a possibilidade de um acréscimo de mais R$ 500 mil para cada escola com a abertura de um caderno de encargos. Segundo seu presidente, Marcelo Alves, a negociação com a empresa de transportes Uber está bastante adiantada: “A Uber já demonstrou interesse via Lei Rouanet com R$ 10 milhões para o Carnaval. Destes, R$ 6,5 milhões serão para o complemento da verba da Liesa, com R$ 500 mil para cada escola. Creio que em breve já teremos isso resolvido”, afirma. 

Em um momento de grande dificuldade para a viabilização de seus desfiles, os dirigentes já apostam em outras soluções para facilitar a arrecadação de verbas. Luis Carlos Magalhães destaca que a Portela já lança mão de iniciativas que permitirão, a médio prazo, que a escola seja autossuficiente.

“Estamos rentabilizando a quadra, fortalecendo o programa de sócio-torcedor, investindo na marca e no licenciamento dos produtos. Hoje, as receitas próprias representam 30% dos custos do Carnaval da Portela, mas esperamos que essa fatia aumente muito nos próximos anos”, acredita.

Para Rodrigo Pacheco, o momento é de repensar o modelo de financiamento do Carnaval. “Falta uma visão de marketing mais agressiva. Somos um Rock In Rio por ano e não sabemos aproveitar nosso potencial de atração de grandes patrocinadores. Acredito que esse Carnaval motive uma virada de página. As escolas, junto com a Liesa, têm que sentar e procurar novos modelos de arrecadação".

Sem ensaios técnicos

Uma das principais atrações turísticas do verão carioca, a temporada de ensaios técnicos das escolas de samba na Marquês de Sapucaí está suspensa. Segundo a Liesa, o quadro de corte de verbas por conta do poder público e a falta de patrocinadores inviabilizou completamente a realização dos treinos, que ocorrem nos finais de semana anteriores ao Carnaval. “Estamos buscando todas as formas de realizar os ensaios técnicos, mas, se está muito difícil para levantar os custos para o Carnaval, o que dirá para os ensaios. Infelizmente, não temos verbas próprias para fazer os ensaios técnicos.”, afirma Jorge Castanheira, que confirmou apenas o teste de luz e som com as campeãs Portela e Mocidade no domingo anterior ao Carnaval.

Para o jornalista, escritor e pesquisador de Carnaval Fábio Fabato, o cancelamento dos ensaios técnicos é a pior notícia da temporada pré-Carnaval 2018: “Esse é o momento em que todo o povo ocupa a Sapucaí e que as pessoas que não têm dinheiro para ver o desfile podem congregar com suas escolas. O Carnaval, como simbolismo importante do Rio de Janeiro, fica esvaziado sem os ensaios”, acredita.

O presidente da Riotur, Marcelo Alves, por sua vez, afirma que, no que depender da Prefeitura, os ensaios poderão acontecer. “A decisão de cancelar os ensaios técnicos foi exclusiva da Liesa. Nós cedemos o espaço, iluminação e estrutura. Se a Liesa mudar de ideia, a Sapucaí está aberta. A decisão é deles”, afirma.

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