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1ª modelo surda capa da Playboy enfrenta preconceito: "Não vou desistir"

Reprodução
Ariana Martins é a primeira modelo surda capa da Playboy Imagem: Reprodução

Rodolfo Vicentini

Do UOL, em São Paulo

18/10/2017 11h33

Ariana Martins é a primeira modelo surda a estrelar uma capa da Playboy e com uma boa ação: todo o lucro da edição será revertido para instituições de apoio. A protagonista da edição de colecionador da revista conversou com o UOL sobre a emoção de mostrar seu trabalho e não ser desprezada pela deficiência.

"Adoro ver modelos diferentes em revistas como Boa Forma, Glamour, Bazzar, Vogue, ELLE, e outros. Acho lindo, e penso: 'será que um dia saio nessas revistas?' E não seria demais o Brasil ver uma modelo surda nessas publicações?", pediu Ariana.

A modelo de 32 anos começou na profissão em 2008, quando um olheiro da Ford Model a viu desfilando. Mesmo com trabalhos internacionais, Ariana relembra quando fez um teste no Brasil e sofreu preconceito por estar acompanhada por uma tradutora de Libras. "Se as pessoas com deficiência estiverem nesses espaços (trabalhando inclusive) e puderem ser respeitadas por ser quem são, se tiverem acesso, se puderem dar opinião, com certeza o olhar muda e o apoio vem. Não nos sentiremos de fora".

Veja abaixo a entrevista com a nova capa da Playboy:

Como surgiu o convite da Playboy e como se sentiu sendo capa de uma edição de colecionador?

Nunca imaginei sair na Playboy, pois, pelo fato de ser surda, já recebi muitos ‘não’ para sair em revistas e por isso não esperava por essa oportunidade. Quando fiz ensaio com a fotógrafa Kadiggia Pudelko e ela me perguntou o que achava sair na Playboy, meu corpo gelou, fiquei em choque e foi difícil responder na hora porque nunca pensei em posar nua para essa revista. Aí ela conversou e me explicou como seria o ensaio nu artístico, e eu topei, mas estava sentindo meio insegura ainda.

Foi então que a diretora de redação da Playboy conversou comigo. Com muito carinho ela me deu muita atenção e dicas de como seria o ensaio, e foi aí que me senti bem-vinda, como se a equipe fosse minha família e comecei ficar empolgada e feliz por fazer parte da Playboy.

Pouco tempo depois quando recebi a mensagem dizendo que eu seria a capa colecionador chorei de felicidade, pois faz anos que luto para quebrar preconceitos no ramo da moda, e finalmente recebi uma capa nacional, eu sou a primeira surda na história da Playboy. Foi pura emoção e agradeço muito a equipe da Playboy e a fotógrafa.

Divulgação
Ariana Martins estampa capa de edição de colecionador da Playboy Imagem: Divulgação

Quais os preconceitos que você enfrenta como modelo por causa da surdez?

Ainda passo dificuldade de sair nas revistas aqui no Brasil, e não consigo entender em que minha surdez atrapalha. O que minha surdez tem a ver com ensaios para editoriais? Tenho sempre curiosidade em saber o que pensam sobre isso. Sou modelo brasileira com muito orgulho, e não vou desistir. Aqui no Brasil tem muitos surdos que são modelos mas que enfrentam muitas barreiras, recebem muito ‘não’. E é por isso que essa é uma grande luta para mim.

Adoro ver modelos diferentes em revistas como Boa Forma, Glamour, Bazzar, Vogue, ELLE, e outros. Acho lindo, e penso: 'será que um dia saio nessas revistas?' E não seria demais o Brasil ver uma modelo surda nessas publicações? Acredito que mais oportunidades surgiriam se houvesse menos preconceito e mais respeito e olhar para minha experiência e capacidade.

 Você se lembra de alguma situação de preconceito que a marcou?

A situação que me marcou foi quando fui na agência de modelo mais famosa em São Paulo (isso foi em 2013 ou 2014). Eu contratei uma intérprete para ir comigo e quando entrei na agência e falei na recepção que gostaria de agenciar. Ela chamou o "booker" -- quem contrata as meninas -- e quando ele entrou na sala de espera minha intérprete começou a traduzir o que ele falava para Libras (Lígua Brasileira de Sinais).

Ele me olhou da cabeça até meu pé e falou apenas as palavras: 'não queremos você'. Fiquei chocada, porque nem sequer perguntaram meu nome, ele não fez avaliação comigo, nem olhou meu book, nada disso! Simplesmente me olhou e falou ‘não’. Saí da agência muito chateada sem acreditar que havia sido tratada daquela forma. Nunca me esqueço desse momento.

O que você achou da iniciativa da Playboy de rever o lucro das vendas para instituição de apoio ao deficiente auditivo?

Achei maravilhoso! Aqui no Brasil ainda temos muito o que caminhar no que diz respeito à acessibilidade. Visitei uma instituição há seis anos e me tocou muito o coração. Aquelas crianças e jovens surdos são como eu, sabe? E eu já tinha passado por muitas dificuldades até ali. Claro que hoje as coisas melhoraram bastante, mas ainda falta mais consciência e olhar para isso.
A gente sabe que uma das coisas mais complicadas para manter esse tipo de instituição hoje em dia é o recurso financeiro.

Então achei lindo a reversão dos lucros para eles pois desejo do fundo do coração que alcancem cada vez mais melhorias, que tenham mais oportunidades e que esse lugar ainda receba muitos e muitos surdos. Dessa forma quem sabe as próximas gerações desfrutem de acesso à informação, uma sociedade mais aberta e que valorize as diferenças e os potenciais das pessoas surdas.

Você acha que falta apoio da mídia com os surdos? O que poderia ser feito para melhorar essa situação?

Eu acho que falta representatividade. Seja na mídia ou em qualquer outra área. Se as pessoas com deficiência estiverem nesses espaços (trabalhando inclusive) e puderem ser respeitadas por ser quem são, se tiverem acesso, se puderem dar opinião, com certeza o olhar muda e o apoio vem. Não nos sentiremos de fora.

Os recursos de acessibilidade e as tecnologias estão aí para encurtar as distâncias e diminuir as barreiras. É só pesquisar um pouco e nos perguntar como pode ser melhor porque nós sabemos o que passamos.

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