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Conhecido pelos quadrinhos, Moya foi um dos inventores da TV brasileira

Bruno Poletti/Folhapress
Álvaro de Moya, que morreu ontem aos 87 anos Imagem: Bruno Poletti/Folhapress

Gonçalo Junior*

Especial para o UOL

15/08/2017 10h14

Nos últimos 40 anos, o paulistano Álvaro de Moya ficou conhecido quase exclusivamente como um especialista em histórias em quadrinhos. O maior de todos. Uma posição, sem dúvida, inquestionável, mas que esconde o fato de ele ter sido um dos inventores da televisão no Brasil.

Moya escreveu sobre quadrinhos para as revistas "Realidade" e "Abigraf" e nos jornais "O Estado de S. Paulo", "Folha da Tarde" e, mais recentemente, "Folha de S.Paulo". Nesse período, foi representante do Brasil em Lucca, o mais importante festival de quadrinhos do mundo. Nesse evento, ajudou Mauricio de Sousa a ganhar o cobiçado Yellow Kid, o Oscar dos gibis, e fez seus quadrinhos chegarem a centenas de jornais pelo mundo na década de 1970, quando trabalhou como seu agente internacional. Ao longo de quase meio século, Moya publicou uma dúzia de livros que se tornaram referência na área, como "Shazam!" (1969), coletânea de artigos que incluía Jô Soares entre os autores e que virou obra seminal dos estudos dos gibis no país.

Um grande feito seu foi ter organizado, em 1951, com um grupo de amigos, a primeira exposição mundial de quadrinhos, criada para combater o preconceito de que as revistas deixavam as crianças burras e as induzia ao crime, à prostituição e até à homossexualidade. Na época, excelente desenhista, chegou a ensaiar uma carreira de roteirista e desenhista de quadrinhos, com histórias publicadas em importantes editoras. Mas TV o fez desistir da empreitada. Morto nesta segunda-feira, aos 87 anos, após uma semana internado por causa de um AVC, Moya levou consigo parte da memória da história da televisão e do cinema no Brasil.

De 1950 a 1983, não foi só uma testemunha de todos os importantes canais de TV de São Paulo. Atuou como protagonista em três deles: Paulista, Excelsior e Bandeirantes, além de ter participado da fundação da Tupi e trabalhado por duas vezes na Cultura. Na primeira emissora brasileira, a Tupi, lançada em 18 de setembro de 1950, era um menino desenhista de 20 anos e, com alguns amigos, fez os letreiros da transmissão inaugural, com o programa "O Show da Taba". Os seus parceiros de cinema e gibis, como Lima Duarte, Walter George Durst, Cassiano Gabus Mendes e Silas Roberg, seguiram e desbravaram o meio, enquanto Moya tentava ser desenhista de quadrinhos.

O trabalho para valer na TV aconteceu a partir de 1955, na TV Paulista. Lá, ficou até 1959 e, no improviso, ajudou a colocar vários programas no ar como produtor, roteirista e diretor. Em 1958, fez um longo estágio na CBS Television, a convite do governo americano – quando entrevistou nomes como o jovem cineasta Stanley Kubrick, entre outros. Ainda estava contratado pela Paulista, quando voltou no final do mesmo ano. Depois de alguns meses, foi chamado para ajudar a montar a TV Excelsior, que se tornaria divisora na história da televisão brasileira.

"Fiquei um ano planejando a TV Excelsior ir para o ar", relatou ele, em sua autobiografia "O Mundo é Quadrado", ainda inédita, que será lançada em breve pela Editora Noir. A estreia do canal paulistano aconteceu em 9 de julho de 1960. Moya ficaria no comando por quatro anos e teve um papel fundamental no que aconteceu nesse período. Segundo ele, a Excelsior nasceu do fato de que as Organizações Victor Costa tinham a Rádio Nacional e a TV Paulista e pretendiam expandir seus negócios. Compraram também a Rádio Excelsior, que tinha direito em sua concessão a uma televisão também – mas seria dispendioso demais montá-la. "Creio que Victor Costa queria se livrar de uma das estações de televisão. E José Luís Moura, um exportador de café de Santos e janista roxo (seguidor do político e futuro presidente Jânio Quadros), fez uma proposta para comprar a TV Excelsior. Os dois tinham alguns negócios. Antes, ele havia ajudado a levar a imagem da TV Paulista para Santos. Como empresário que vendia café, achava que a administração de Victor Costa na Paulista não era adequada. E usou isso como argumento para comprar a TV Excelsior dele, antes de ser criada".

Victor Costa concordou e Moura se ligou ao milionário Mário Simonsen – também exportador de café e dono da companhia de aviação Panair – para fundar o canal. "Simonsen era mais ligado a Juscelino Kubistchek, mas não levaram em consideração a política quando fizeram a televisão. Ou seja, pensaram só na parte de dinheiro e se acertaram desse modo. Moura tinha comprado equipamento técnico obsoleto de uma televisão mexicana", narrou Moya. Mesmo assim, a Excelsior nasceu dentro de um espírito empreendedor e desafiador. "Queria ser a futura rede Embratel do Brasil, a AT&T brasileira – empresa americana de transmissão de sinais".

Ao lado de Edson Leite e Alberto Saad, Moya fez com que a Excelsior abrisse caminho para o que seria a Globo. Tanto na programação como no conceito de rede interligada em todos os estados. Chegou a fazer uma experiência, no dia 21 de abril de 1960, para ligar São Paulo com o Rio de Janeiro – até então, cada estado tinha sua programação e atrações locais. Com um aparelho da Marconi fizeram depois uma ponte entre Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e Brasília. Assim, conseguiu realizar a transmissão simultânea do show de inauguração da TV de Brasília.

Nesse contexto, Moya foi chefe de Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho que, anos depois, comandariam a Globo. A emissora sintetizou os dez primeiros anos da televisão no Brasil e, de certa forma, antecipou o que viria a ser feito nos 50 anos seguintes. "Fizemos a programação horizontal e vertical e o 'Cinema em Casa', que encerrava o dia. Ali, tinha o telejornal, tinha o show, tinha o teleteatro, tinha não sei o que mais. A telenovela estabeleceu a grade horizontal, de segunda a sábado. Até então, a telenovela era feita ao vivo, sem ser diária. Construíamos um cenário e o desmontávamos em seguida, para ocupar o espaço com outra atração".

Moya juntou a experiência do profissionalismo nos Estados Unidos com uma capacidade criativa e ousada que marcou toda a sua vida. "Enquanto isso, a dona de casa, sem nenhum demérito, não sabia se era segunda, quarta ou sexta, terça ou quinta para ver determinadas novelas e mudamos isso. Por quê? Porque todo dia seus filhos vão para a escola, todo dia o marido vai trabalhar. Quer dizer, tinha uma vida muito metódica. A única coisa de diferente era lembrar o dia da feira no Supermercado Peg e Pag, na Gabriel Monteiro e Silva e na Consolação, que lançou o conceito de supermercado no Brasil". Portanto, a telenovela virou diária para lhe dar diversão todo dia.

Em 1967, Moya colocou a Bandeirantes no ar, "na raça", como gostava de dizer. Mais uma vez, trabalhou com Edson Leite e Alberto Saad, para montar a emissora de João Saad. Com menos dinheiro que na Excelsior, estrear o canal virou um problema. "O tempo passou e, de repente, nos aproximamos do dia 13 de maio. Vem João Saad e diz que não ia dar para inaugurar na data. Falaram para ele jogar o 13 de maio fora, não dava para ir ao ar daquele jeito. Insisti e ela foi inaugurada em 13 de maio de 1967. Até pouco antes dele morrer, dizia: 'Moya pôs a estação no ar sozinho'. Aconteceu assim: no dia da inauguração, entrei no estúdio, pus todo mundo para fora. Fiquei eu e o pessoal da técnica e botamos a televisão no ar. Aí eu me queimei porque briguei com todo mundo para conseguir isso".

Duas semanas depois de a Bandeirantes ter entrado no ar, foi mandado embora, por pressão dos colegas junto a Saad. "A equipe toda ficou contra mim. Diziam: 'Esse cara veio aqui, bota todo mundo para fora, fica gritando com todo mundo e põe a estação de televisão no ar sem qualquer condição, e, por isso, não pode ficar, tem de ser chutado daqui'. Fiz isso porque tinha um compromisso com 'seu' João. Se aqueles caras ficassem lá, a Bandeirantes nunca iria para o ar. Era preciso deflagrar o processo, entende? Fazer o barco deixar o cais. E paguei um preço alto (risos)".

Na década de 1970, coube a Moya cuidar da transição para conseguir patrocínios para a TV Cultura, como queria o Palácio do Governo. "Disseram-me que gastavam muito dinheiro com a emissora. Quase todos os recursos da Secretaria da Cultura eram usados para sustentar a televisão. Não sobrava quase nada para outros eventos, outros setores. Concluiu-se que o ideal seria que não dependesse só do Estado, que tivesse uma renda própria, de maneira que a pasta da Cultura pudesse investir em teatro, cinema, museus e tudo mais".

A ideia era que a emissora fosse mais independente. "Eu fui lá para fazer esse projeto". Conseguiu que grandes bancos e corporações patrocinassem programas. A volta à Bandeirantes foi em grande estilo, quando a emissora patinava em audiência. Moya produziu uma das novelas mais importantes da história, a saga "Os Imigrantes", em 1981, quando ainda estava ligado à TV Cultura, na captação de anunciantes. Antes, passou pela Tupi, em 1979, quando a rede dava seus últimos suspiros, até ser fechada no ano seguinte. "Isso aconteceu num momento de desespero. Walter Avancini foi chamado para ver se salvava a emissora, o que era impossível de ser feito a curto prazo. Eu brincava com ele dizendo assim: 'Sabe o que parece? A Metro Goldwyn Mayer chamando Mickey Rooney para salvá-la da decadência'".

A televisão só voltaria a fazer parte da vida de Moya na primeira década do século 21, quando trabalhou como um dos programadores da Rede Cultura – cabia a ele buscar desenhos animados inteligentes e educativos para as crianças. Ainda nos anos de 1980, voltou a trabalhar com cinema, outra de suas paixões – em 1969, tinha dirigido com Rogério Sganzerla um curta-metragem sobre quadrinhos e foi programador de salas de cinema na década de 1970. E, mais por brincadeira e sarro, dirigiu o pornográfico "A B... profunda (1983)", que tinha também roteiro seu. Assinou a obra como Gerard Dominó. Nunca renegou a produção e falava da mesma como mais um ato de subversão em sua vida.

Vida pessoal trágica

Por algum tempo, Álvaro de Moya achou que viveria só até os 18 anos. A crença estava no fato de que seus dois irmãos mais velhos morreram nessa idade. O primeiro, por suicídio, motivado pela opressão de um pai militar, como contou em suas memórias. O segundo, por uma doença nunca esclarecida, quando servia o Exército. Há dez anos, sua primeira esposa, que vivia alheia ao mundo, por causa de problemas mentais, morreu engasgada enquanto comia. Em 2013, ficou viúvo pela segunda vez, da artista plástica, escritora e roteirista Claudia Levay.

Nos últimos anos, depois de sobreviver a dois enfartos, cuidava do filho doente, que perdeu uma perna. Esses eram detalhes que Moya não exteriorizava publicamente. Preferia falar, em suas palestras, do dia em que tocou a campainha do dramaturgo americano Arthur Miller, em 1958, sua jovem esposa veio abrir a porta e o convidou a entrar. Já era uma famosa estrela de Hollywood e vestia um penhoar. Seu nome? Marylin Monroe. "Eu vi Marylin em trajes íntimos", gritava duas ou três vezes, para delírio de suas plateias.


* Gonçalo Junior é autor, entre outros, dos livros "A Guerra dos Gibis" (Companhia das Letras) e "País da TV" (Conrad).

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