Coletânea de HQs com Alan Moore e Neil Gaiman revela os segredos de Londres
A Londres do quadrinista argentino Oscar Zarate vai muito além da metrópole repleta de turistas, sede da coroa britânica e alvo constante de terroristas. As quatro décadas do artista como morador da cidade lhe deram uma perspectiva pouco usual da capital inglesa. “Há um determinado horário do dia, quando os pubs fecham e outros tipos de sons ganham vida na cidade, que os prédios passam a contar suas próprias histórias, caso você tenha interesse em ouvi-las”, afirma o ilustrador em entrevista ao UOL. A paixão de Zarate pela cidade foi seu principal estímulo para a criação da coletânea de quadrinhos e contos "A Vida Secreta de Londres" (Veneta).
O álbum recém-lançado em português é composto por 176 páginas em preto e branco assinadas por 25 autores entre escritores e quadrinistas. Dentre seus colaboradores mais famosos estão os premiados Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair, Melinda Gebbie e Woodrow Phoenix. “Obviamente eu pensei em nomes de pessoas que já tinham alguma relação com a cidade e muitos deles eram meus amigos”, diz Zarate.
Moore, provavelmente o nome mais conhecido e cultuado por fãs de HQ dentre os autores da coletânea, assina o roteiro de um quadrinho, dois contos e um poema. Ele também é um dos artistas mais próximos do organizador de "A Vida Secreta de Londres". Zarate trabalhou junto com o autor de clássicos como Watchmen, "Batman - A Piada Mortal" e "V de Vingança" na cultuada graphic novel "A Small Killing", publicada em 1991 e até hoje inédita no Brasil. Segundo o editor, a HQ de Moore é uma espécie de capítulo extra do épico "Do Inferno", trabalho do autor sobre o assassino "Jack, O Estripador" em parceria com o ilustrador Eddie Campbell.

Já Neil Gaiman trata da região central de Londres em sua contribuição à obra. “O Neil estava morando na região de Earl’s Court e perguntei se ele gostaria de escrever sobre a vizinhança dele”, explica Zarate. “É uma região na qual as pessoas estão sempre de passagem, em trânsito, então pensei no desenhista Warren Pleece, dono de uma arte que passa essa sensação de agitação”, diz o organizador do livro.
Em um período de xenofobia crescente na Europa, em meio a atentados terroristas constantes na Inglaterra e o início da saída do Reino Unido da União Europeia, Zarate diz acreditar que seu olhar de imigrante em relação a Londres talvez tenha servido de estímulo para os autores da publicação. “Uma das vantagens de ser um estrangeiro é que você pode ver a cidade a partir de outra perspectiva, com um olhar mais fresco”, conta. “Você acaba percebendo algumas coisas que um morador local não verá, peculiaridades que um local não vai pensar muito a respeito, mas que você consegue notar por ter vindo de fora, e ainda acrescenta o olhar de outra cultura”, diz.
Os estímulos de Zarate e as parcerias montadas por ele em A Vida Secreta de Londres também resultaram em trabalhos pouco usuais, como a reunião do escritor Iain Sinclair com o artista Dave McKean. O ilustrador é famoso por seus trabalhos em quadrinhos, principalmente pelas capas do clássico Sandman da Vertigo. Já Sinclair é respeitado pela crítica literária britânica por seus trabalhos centrados na psicogeografia, que trata da influência do ambiente físico das cidades nas emoções e nos comportamentos das pessoas que vivem nelas.
Juntos, Sinclair e McKean produzem um dos trabalhos mais inventivos da coletânea, mesclando poesia, ilustrações e fotografias para tratar da relação de alguns cidadãos londrinos com a cidade. Na avaliação de Zarate, essa relação dos moradores com a cidade tende a se intensificar ainda mais após as recentes tragédias ocorridas em Londres. Apenas em 2017 foram três ataques terroristas e o incêndio da Grenfell Tower, prédio habitado por pessoas de baixa renda - muitas delas, imigrantes -, que resultou em 80 mortes até o momento.
“É a vida que estamos tendo agora”, lamenta o editor. “Como cidadão não é possível fazer muita coisa, você apenas segue vivendo sua vida tentando não pensar muito a respeito. Mas os governos poderiam fazer alguma coisa, como parar de vender armas para países do Oriente Médio ou parar de bombardear outros países apenas por petróleo. Provavelmente não acabaria com esse tipo de horror em cidades como Londres, mas acredito que já ajudaria”, afirma.
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