Livros e HQs

Em livro, Mauricio de Sousa diz que sofreu ameaça e revê sequestro do filho

Edson Lopes Jr./UOL
4.dez.2016 - Mauricio de Sousa saúda a plateia durante painel sobre o futuro da Mauricio de Sousa Produções na CCXP (Comic Con Experience) Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Do UOL, em São Paulo

07/06/2017 16h44

O quadrinista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, revela em sua primeira autobiografia oficial que teve a integridade física ameaçada, no início da década de 1960, depois de se recusar a integrar uma cooperativa de desenhistas de esquerda que havia se formado no Rio Grande do Sul com apoio do então governador do estado, Leonel Brizola.

A alegação é parte do livro "Mauricio: A História que Não Está no Gibi", que chega este mês às livrarias e aborda diversos episódios da trajetória do desenhista e empresário, tanto na vida profissional quanto pessoal, incluindo o sequestro de seu filho caçula, Marcelinho, em março de 2008.

No capítulo em que trata de seu envolvimento em um movimento pela "nacionalização dos quadrinhos", Mauricio afirma que foi tachado de comunista e colocado em uma "lista negra" por jornais como "O Estado de S. Paulo" e "Folha de S. Paulo" por ter tido papel de liderança na questão. Ele era então presidente da Adesp (Associação de Desenhistas de São Paulo), entidade que negociava com o governo de Jânio Quadros a criação de cotas de publicação favoráveis a autores nacionais nos jornais e revistas, que majoritariamente davam espaço a tiras estrangeiras, mais baratas.

"Nenhum jornal ou revista de São Paulo poderia usar meus desenhos. Pararam de atender minhas ligações. Se falavam comigo, era apenas para dizer que não iam comprar mais nada. Virei um proscrito. Depois de perder o emprego, agora eu perdia qualquer possibilidade de ganhar dinheiro como desenhista na capital", relata Mauricio, no livro.

Pai de duas meninas na época, Mariângela e Mônica, que estava apenas com 1 ano, Mauricio admite que se afundou em dívidas e teve, inclusive, de voltar a morar na cidade dos pais, em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Foi então que recebeu o convite, patrocinado por Brizola, para se mudar para o Sul, com "casa, comida e roupa lavada, sem se preocupar em pagar contas". Em troca, teria de fazer "algumas adaptações em seus personagens" (...) "para que eles também lutem pela causa".

Mauricio revela, ainda no livro, que recusou a oferta do desenhista José Geraldo, que liderava a cooperativa. "Não precisei de meio segundo para responder (...) que não queria nem ouvir falar naquilo, pois jamais colocaria ideologia nas minhas histórias. Nunca fui de esquerda ou de direita (...). Na infância, quando a polícia destruiu a gráfica da barbearia do meu pai, eu já tinha aprendido que o engajamento político podia gerar problemas sérios", escreve. "No futuro, sobretudo a partir de 1964, os críticos diriam que os personagens da turminha eram alienados, que o mundo podia cair que eles não assumiriam posições. Sim, é isso mesmo. Eles são crianças, não fantoches ideológicos", rebate.

Mais adiante, lembra que voltou a ser procurado por telefone por José Geraldo, que insistia na ideia de que Mauricio se juntasse à cooperativa e se mudasse para o Sul, o que recusou. Mais um tempo, e outra ligação, desta vez de uma pessoa não identificada, mas que "a princípio repetiu o que José Geraldo tinha dito na última ligação". Ao fazer nova recusa, teria ouvido a ameaça: "Veja, Mauricio, acredito que reconsiderar sua posição seja uma decisão mais sábia. Caso contrário, estará por sua conta e risco. Já imaginou se você está andando na rua e sofre um acidente? Se quebra o braço ou machuca a mão de um jeito que você não vai conseguir desenhar nunca mais?"

Parte do episódio narrado em "Mauricio: A História que Não Está no Gibi" - mas não a ameaça - já havia sido relatada em "A Guerra dos Gibis", do jornalista Gonçalo Junior. Em seu livro, no entanto, Gonçalo afirma que a "mágoa" de José Geraldo com Mauricio teria a ver com um suposto empréstimo que aquele havia feito para ajudar o desenhista a se livrar das dívidas em Mogi das Cruzes. "José Geraldo combinou com o futuro criador da Turma da Mônica que, após receber o dinheiro, este se juntaria ao grupo na capital gaúcha. Mauricio nunca apareceu, o que causou muita mágoa ao fundador da entidade."

Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress
Mauricio de Sousa no dia da libertação de Marcelinho, sequestrado em 2008 Imagem: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

Sequestro de Marcelinho

Em outro aspecto muito pouco comentado em suas entrevistas e aparições públicas, Mauricio de Sousa trata, em sua autobiografia, dos dias de tensão que viveu quando Marcelo de Sousa, o mais novo de seus dez filhos, foi vítima de um sequestro em uma chácara em São José dos Campos, em 2008. Marcelinho estava com a mãe, uma ex-funcionária de seu estúdio com quem Mauricio manteve um caso extraconjugal, que também foi feita refém pelos bandidos.

"Fiquei fora de mim, sem norte, não conseguia raciocinar", lembra. "Desnecessário dizer que aqueles foram os dias mais angustiantes da minha vida. Ninguém deveria passar por esse tipo de experiência."

Quase 20 dias de cativeiro depois, Mauricio conta que teve "uma intuição" e, num fim de semana, foi dirigindo sozinho para a casa de praia da família, no litoral Norte de São Paulo. "Alguma coisa me dizia que eu precisava estar lá". No domingo à noite, desanimado, estava quase voltando a São Paulo quando recebeu uma ligação da polícia dizendo que o esconderijo havia sido encontrado numa casa de São Sebastião, a poucos quilômetros dali. Marcelinho, sua mãe, Marinalva, e um meio-irmão foram libertados e os sequestradores presos.

"No mesmo momento em que abri a porta do carro, Marcelinho abriu a porta da viatura. Demos de cara um com o outro. Abraçado a ele, chorei de alegria até acabar meu estoque de lágrimas."

Segundo a editora Sextante, "Mauricio: A História que Não Está no Gibi" vai virar um documentário em 2018. 

Mauricio falou ao UOL sobre a "lista negra"

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