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Novo curador da Bienal defende mostra mais enxuta e "afetiva"

Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de São Paulo
Curador da 33ª Bienal, Gabriel Pérez-Barreiro Imagem: Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de São Paulo

Gustavo Fioratti

Colaboração para o UOL

27/05/2017 04h00

Não foi de imediato que o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro aceitou um convite para ser o curador da 33ª edição da Bienal de São Paulo, a ser realizada no próximo ano. Ele diz que o formato não o interessa particularmente e que decidiu embarcar no projeto somente após apresentar à instituição seu ponto de vista: para ele, o excesso de informação de uma megamostra pode distanciar o público, mais do que aproximá-lo. A ideia inicial de Pérez-Barreiro, portanto, considera a possibilidade de uma redução numérica de artistas.

Pérez-Barreiro especializou-se no concretismo argentino e, atualmente, ocupa a direção da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, que tem sedes em Nova York e Caracas, com foco em arte latino-americana moderna e contemporânea. Seu interesse pelo Brasil não é recente, mas chama atenção o fato de que, com Michelle Sommer, ele tenha assinado a curadoria de uma exposição sobre o teórico Mário Pedrosa no museu Reina Sofia, em cartaz em Madri. 

É da obra de Pedrosa que ele procura resgatar os três pontos que considera fundamentais na arte: a expressão do afeto, a pluralidade das expressões e a relação com a política –este último tópico reposicionado em relação às ideologias convencionais. De Pedrosa, Pérez-Barreiro resgata a ideia de que a arte oferece a possibilidade de resistência. “Ela não pode estar em função da ideologia. Pedrosa se negava a entrar no jogo que o universo político queria impor”, pontua.  

UOL: Você está assumindo a curadoria da próxima Bienal de Arte de São Paulo. Pensou em um tema ou em um ponto de partida?
Pérez-Barreiro: Quando veio esse convite para fazer a Bienal, agradeci e disse que Bienal não era uma coisa que me interessava. Não é um formato de que eu gosto em especial, nem para fazer, nem para visitar. Grandes exposições de arte contemporânea são cansativas. É tanto conteúdo e tanta informação. Eu me pergunto: será possível pensar a partir de um outro pressuposto para fazer uma Bienal? Porque tem que ser algo massivo? O que aconteceria se tivesse metade do tamanho atual? Na verdade, as Bienais já vêm diminuindo. Na última, foram 90 artistas e coletivos. Já acho um número bom. Mas e se fossem 40? E se fossem cinco?

Se você recusou a oferta inicial, o que o levou a aceitar o convite agora?
Minhas questões foram muito bem recebida. Então topei. Senti que o atual presidente foi me procurar sabendo dessas questões, e ele foi muito receptivo quando conversamos. Disse que a Bienal tem também a missão de se reinventar. Não estou criticando o que foi feito antes. O DNA da mostra é de se renovar a cada dois anos. Acho que nessa primeira conversa alguns pontos ficaram claros. A Bienal tem que ser menor, o que foi muito bem recebido.

É uma questão que você traz de outras Bienais? A tendência é de outras Bienais discutirem seus formatos numericamente e qualitativamente?
Acho que todo mundo está se fazendo essa mesma pergunta. A gente viveu um processo de aceleração em números de Bienais. A gente tinha quatro ou cinco Bienais no mundo até a década de 1980, depois surgiram muitas outras. Agora, também pela situação em que o mundo está, é o momento de retrair um pouco. Estamos em um momento mais reflexivo. Acho que essa última Bienal de São Paulo também tratou disso. Talvez seja preciso ser um pouco menos grandioso nas declarações e falar um pouco mais das micropolíticas de relacionamento que a arte pode proporcionar. A arte tem esse potencial, de se relacionar de forma intensa e afetiva com qualquer pessoa.

Essa ideia não entra em conflito com as dimensões do próprio prédio da Bienal? Como você vai pensar a relação entre o pavilhão e cidade?
Quando você é convidado para fazer uma edição da Bienal, e acho que outros curadores passaram por isso, você vai ao terceiro andar [ele se refere ao escritório da Bienal], e ali há uma porta que se abre para o espaço expositivo. Você passa pela porta e vê o prédio vazio. É um susto. Esse lugar imenso. A gente sempre vê o prédio cheio de coisas. Quando vê ele inteiramente vazio, dá um ataque. Aí, acho que tem que fazer um esforço. A pergunta não é como preencher todo esse prédio, embora essa seja a tentação. O desafio é fazer uma Bienal pensando em seu conteúdo e não naquilo que o abriga. O conteúdo deve responder a questão da arte dos artistas e não do prédio. Mas essa é uma negociação, porque o prédio de fato se impõe. Esse pavilhão é muito marcante na história da Bienal. Por um lado, [o pavilhão] é bom porque está em um lugar muito visível e onde há circulação de pessoas. Por outro, arquitetonicamente falando, o prédio tem uma personalidade muito forte. A negociação que tem que ser feita com artistas e o curador é: como equilibrar a personalidade de um espaço que já existe com um conteúdo que você quer introduzir ali. É um espaço muito carregado, até historicamente. Tem as marcas de Bienais anteriores. Você anda por aqui e pode lembrar de um trabalho que você viu naquele mesmo lugar, em outra edição. O prédio tem essa memória. Mas não tenho uma solução ainda.

Ocupar outros lugares da cidade torna-se então uma opção?
É cedo para dizer. Mas aqui tem espaço. As bienais tem se expandido aqui pelo parque...

Não só. Algumas edições ocuparam espaços mais distantes até.
Não sei ainda. Vai depender dos artistas convidados. Por enquanto, estou com esse susto aqui. Nesse momento ainda é difícil pensar além do prédio.

Qual seria o próximo passo? Há uma questão que ronda as Bienais, que são as delimitações geográficas, a atenção aos artistas da periferia, não apenas dos centros urbanos, mas também as periferias do mundo...
A partir de agora, o que vou fazer é ver as equipes, chamar pessoas afins, para dar mais cara ao projeto e determinar como aproximar os artistas. E então fazer escolhas. Dentro disso há outras questões que são da origem da Bienal. Ela nasceu para colocar a arte brasileira em vivo contato com o resto do mundo. Essa foi sua missão inicial, o que de fato aconteceu desde sua primeira edição. Ao mesmo tempo, uma Bienal de São Paulo tem que dar conta de três núcleos geográficos, ainda que não de forma fechada ou de forma política tão rígida: ela tem que negociar com Brasil (país onde é realizada), América Latina (onde o país tem protagonismo) e o resto do mundo. Esses são três blocos que devem estar dialogando em qualquer edição de uma Bienal. Como a função de uma Bienal também é se reinventar, não sei se em algum momento alguém vai propor uma Bienal só brasileira, só estrangeira, ou só latino-americana. Acho que tudo é válido, mas nessa edição vou manter um equilíbrio.

Considerando, porém, a representação das periferias?
Isso é engraçado. A questão é: onde estão as periferias? A América Latina é uma periferia para o próprio Brasil, porque, nessas últimas décadas, o Brasil tem se relacionado mais com Europa e Estados Unidos. Você pode falar que a Bolívia é uma periferia do Brasil, mais do que o Japão. Tudo isso é muito relativo. Essas questões têm que ser lembradas. Não precisa ser uma questão central, mas tem que estar presente. Por exemplo, na Bienal do Mercosul, em que abordei essa questão do regionalismo da América Latina, ela foi assunto central, a gente tinha que quebrar o modelo de representações nacionais. Aqui não é uma questão central, mas uma questão que deve estar presente.

Você está assinando, com Michelle Sommer, a curadoria de uma exposição sobre o crítico e teórico Mário Pedrosa (1900-1981) no museu Reina Sofia, em Madri. Em que ponto as ideias de Pedrosa estão influenciando as suas?  
Há três questões principais, e uma delas é a do afeto. Acho que é um conceito bárbaro. A outra é a diversidade. Ao contrário de outros teóricos modernos, que decidiam por exemplo defender o surrealismo ou outro movimento, Mário foi capaz de propor um modelo plural. Defendia a arte abstrata, a produção dos pacientes de hospital psiquiátrico, Helio Oiticica etc. Ele não entrou no jogo de que uma coisa era mais importante do que a outra e chegou justamente com esse assunto do afeto, de que todas as expressões eram válidas.

Como traduzir isso para os dias atuais?
Por exemplo: por que uma Bienal tem que ser uma exposição só? Por que não pode ser sete exposições diferentes. Seria legal viajar em diferentes direções.

Faltou a terceira questão.
A terceira questão é a relação com a política. Mário foi um dos políticos mais importantes do país, foi importantíssimo para toda a política da esquerda. Foi membro da Quarta Internacional, foi fundador do PT, teve uma trajetória. Ele criticava a arte panfletária. E era preciso muita coragem para fazer isso como ele fazia. Na década de 1930, 1940, a União Soviética veio com a questão do realismo social na arte, e ele sempre defendeu que a arte precisava de autonomia, que era um mal da arte se vincular de forma tão ilustrativa ou tão panfletária com a política. Para ele, a questão política da arte tinha a ver com o afeto. Era  uma forma de resistência à imposição das ideologias. A arte não pode ficar em função da ideologia. Ele se negava a entrar no jogo que o universo político queria impor.

É um contraponto ao momento em que as ideologias estão mais duras?
E acho que isso vai além da divisão entre esquerda e direita. É um problema estrutural que a gente está vivendo e que está se manifestando de forma super-dramática. Seria um erro se a Bienal se manifestasse de um lado ou de outro, porque daí você entra no jogo da forma que esse sistema quer que você entre. Se Donald Trump passa o dia inteiro mandando twitter, ele consegue nos distrair e nos desvia de outras questões. Essa é uma coisa que George Orwell expressou muito bem. A tática de políticos é de nos distrair o tempo inteiro. É ficar falando o tempo inteiro para que não se tenha tempo de imaginar uma realidade diferente. Mário, nesse sentido, é altamente contemporâneo.

Além da política, as mídias estabelecem paradigmas a serem quebrados?
Sim, já saí de muitas redes sociais. É tanta ansiedade de se declarar para grupos que pensam do mesmo jeito... Não é vontade de debate o que estamos vendo. O que estamos vendo são pessoas que querem falar com quem pensa do mesmo jeito. Quais são os lugares para poder encontrar as pessoas? A arte oferece essa possibilidade. Pense em 900 mil pessoas: é uma diversidade incrível de opiniões, de formações sociais, socioeconômicas. E elas se juntam nesse evento, aqui. Esse é um espaço que devemos proteger. É uma alternativa a outros espaços, que atraem um perfil de pessoa mas dizem que outro perfil não é bem-vindo. Uma instituição que trabalha conteúdos afetivos e para um público de 900 mil pessoas tem o potencial de não ser uma bolha.

Essa não seria uma briga perdida? A arte não perdeu essa briga?
Acho que a arte tem algo a dizer nesse sentido, não apenas por sua natureza, mas também pelo encontro que promove. A Bienal de fato reuniu 900 mil pessoas na última edição. Isso aconteceu porque as pessoas se sentiram bem-vindas. Acho isso uma estatística impressionante. Que outro lugar consegue isso? Talvez no esporte haja um lugar, mas daí já estamos falando de um sistema operacional que aposta no conflito. Nada contra, tudo bem. Mas a gente vai lá pra ver a liquidação do adversário. Em um lugar comercial, vamos para consumir. Na Bienal, não. Aqui, você entra nesse espaço para ter acesso a outra coisa, algo que não tem resultado imediato. Nesse sentido, não é uma batalha perdida.

 

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