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Crise no Municipal do Rio: "Foi doloroso pedir alimentos", diz Ana Botafogo

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

10/05/2017 11h51

Primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e também diretora do balé da instituição, Ana Botafogo, participou nesta terça-feira (9) de um protesto com ópera, balé e canto para chamar atenção sobre a grave situação pela qual passam os funcionários e a própria instituição com a crise estadual.

"Foi doloroso ter que pedir alimentos", disse em entrevista ao UOL a bailarina, lamentando a situação da instituição. No ato, que começou nas escadarias do teatro e chegou a tomar a Cinelândia com aproximadamente oito mil pessoas, foram arrecadados uma tonelada de alimentos não perecíveis e R$ 10 mil, após uma campanha nas redes sociais.

Foto Rio News
A bailarina e diretora do balé do Teatro Municipal do Rio Ana Botafogo Imagem: Foto Rio News

"Foi uma manifestação artística com um trecho do 'Lago dos Cisnes' (a morte do cisne), um pouco de aula, 'Carmina Burana', foi uma apresentação para todos nós estarmos juntos. Para um espetáculo acontecer, não depende só do artista, mas de todos os funcionários. Fizemos isso para dar uma voz a todos nós do Municipal, é mais um grito sobre o caos que tornou nosso estado”, disse a bailarina sobre a instituição e seus 550 servidores, que assim como os cerca de outros 200 mil servidores públicos do estado do Rio, estão com três salários atrasados – o 13º de 2016 e os meses de março e abril.

Sem dinheiro, os servidores não conseguem ir trabalhar por conta de gastos com a condução e até alimentos faltam nas casas dos funcionários. Músicos não têm verba para a manutenção dos instrumentos.

Ana está no Municipal há 36 anos e disse que nunca viu uma crise dessa proporção, e que os salários nunca ficaram atrasados. "Tem funcionários com 50 anos de casa que também nunca viram isso. Olha o ponto em que chegamos, tem gente que está passando fome. Sempre temos que trazer alegria, mas não estamos mais conseguindo. Tivemos que abrir as cortinas e expor nossos problemas”, afirmou, sobre a situação dos funcionários do Municipal.

A primeira-bailarina e diretora ainda faz um alerta sobre a situação do corpo de baile, que pode se deteriorar. Sem receber --e, portanto, sem conseguir pagar condução e alimentação--, muitos não têm condições de ter aulas e ensaiar seis horas por dia, o que faz parte da rotina do corpo principal de bailarinos.

“Só chega (ao Municipal) quem tem dinheiro. Isso prejudica a forma (física), o balé pode se desmantelar. Mas como exigir de um atleta, que tem que ensaiar seis horas por dia, mas não tem comida? Eles precisam de concentração, de paz, mas não têm”, desabafa a bailarina, que diz estar muito triste com a situação.

“Dediquei minha vida a essa arte, ao Municipal. É triste ver uma geração que está pronta para atuar, mas pode se perder por forças alheias às vontades deles".

Mudança nos espetáculos

Segundo o presidente do Sintac (Sindicato dos Servidores da Ação Cultural) Pedro Olivero, a situação dos funcionários administrativos e da portaria é a mais precária, por conta dos salários menores. Ele também afirma que a programação já sofre mudanças com a situação precária do teatro.

“Na semana passada, a ópera 'Norma', de Bellini, não foi encenada e sim apresentada em forma de concerto. Uma encenação obrigaria um ensaio todos os dias de pelo menos três semanas, e nessa situação está impossível”, explicou Olivero.

Nesta semana, os funcionários fizeram uma vaquinha para pagar as despesas do enterro do barítono Leonardo Páscoa, que morreu domingo (8), vítima de um ataque cardíaco fulminante aos 42 anos.

“A mulher dele também é do coro do teatro e a situação financeira deles estava péssima. Ele se apresentou nos melhores teatros do Brasil e ia ser protagonista, estava no auge da carreira”, comentou o presidente do Sintac, que afirmou que o repasse para a manutenção do Municipal também não está sendo repassada.

“Os espetáculos comerciais ajudam a pagar a manutenção, que é de R$ 4 milhões por mês, mas há dois anos não é feito o repasse integral. Esse dinheiro ajuda a retardar alguns efeitos do tempo e do uso, mas nem tudo. Estamos sem cortina (de palco), que está mofando na central técnica. Imagina um teatro sem cortina?”, disse Olivero.

Quem quiser ajudar os funcionários do Municipal ainda pode doar alimentos, que devem ser entregues antes dos espetáculos ou no horário comercial, na entrada lateral.

Outro lado

Por meio de nota, a administração do Teatro Municipal informou que a crise no estado e no país causa dificuldades na gestão pública e que o atraso dos salários do funcionalismo público não é exclusividade dos servidores do teatro.

O comunicado afirma que a situação será contornada a partir de ajuda federal, que está sendo negociada.

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