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Raduan Nassar recebe Prêmio Camões com críticas a Temer e ao STF

Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo
O escritor Raduan Nassar fez um discurso anti-governo ao receber o prêmio Camões das mãos do Ministro da Cultura, Roberto Freire e do embaixador de Portugal, Jorge Cabral, na manhã desta sexta-feira, 17, no Museu Lasar Segall, na zona sul de São Paulo Imagem: Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

Do UOL, em São Paulo

17/02/2017 12h58

Vencedor do Prêmio Camões de Literatura, um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa, o escritor Raduan Nassar, de 81 anos, aproveitou seu discurso de agradecimento na cerimônia de entrega e disparou críticas ao governo de Michel Temer, na presença do ministro da Cultura, Roberto Freire, a quem se referiu como "ministro do governo em exercício".

“O golpe estava consumado. Não há como ficar calado”, disse o autor de “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, na manhã desta sexta-feira (17) no Museu Lasar Segall, em São Paulo, onde aconteceu a entrega da honraria concedida pelos governos do Brasil e Portugal.

Em seu discurso, Nassar criticou ainda a indicação de Alexandre de Moraes (a quem chamou de "figura exótica") para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e afirmou que o Supremo foi “coerente” com seu passado na ditadura: “Infelizmente nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios".

O ministro Roberto Freire falou em seguida e sugeriu que o escritor aceitasse o prêmio. “É um adversário recebendo um prêmio e um governo que ele considera ilegítimo”. Segundo relato da reportagem da Folha, Freire foi vaiado pela plateia.

Confira o discurso de Raduan Nassar na íntegra:

 

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua. 

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado

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