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Para Sturm, houve exagero em reação contra remoção de grafites

Ricardo Bastos/Foto Arena/Estadão Conteúdo
O secretário de Municipal de Cultura André Sturm Imagem: Ricardo Bastos/Foto Arena/Estadão Conteúdo

Gustavo Fioratti

Colaboração para o UOL

27/01/2017 12h31

Não foi na área da saúde ou na da educação que a prefeitura de São Paulo, sob gestão de João Dória desde o dia 1º, teve de enfrentar a opinião pública mais ruidosa. Foi a pasta da Cultura, encabeçada por André Sturm, que acabou vestindo a saia justa, por conta da reação nas redes sociais contra a decisão da nova gestão tucana de apagar conhecidos murais de grafites da avenida 23 de Maio.

Nesta entrevista, o ex-diretor do MIS (Museu da Imagem e do Som) assume que a prefeitura pode ter cometido erros na remoção de alguns grafites, em ação que faz parte do programa denominado "Cidade Linda". Mas não sem minimizar o ônus. "Acho que está tendo um superdimensionamento dessa questão. Não é que tinha ali um afresco pintado pelo José de Anchieta há 400 anos, uma relíquia da cidade", diz, sobre alguns dos murais que foram cobertos por tinta cinza. Para ele, está na natureza do grafite: um dia, aquela imagem vai apagar.

O anúncio de que diversos equipamentos públicos da cultura passarão a ser geridos por organizações sociais também rendeu comentários --e não apenas contrários. A questão é que as organizações sociais podem gastar sem o rigor dos procedimentos impostos a órgãos públicos. Licitações deixam de ser obrigatórias, e a gestão anterior, de Fernando Haddad, teve uma experiência infeliz com o Teatro Municipal, resultando no desvio de pelo menos R$ 15 milhões.

Mudanças na Virada Cultural, com grandes shows passando a ser realizados longe do centro da cidade, no autódromo de Interlagos, geraram outra polêmica que envolveu a gestão mesmo antes da posse oficial.

Além disso, a proximidade do Carnaval traz mais um pouco de situações desconfortáveis. André anuncia que a Ambev, patrocinadora oficial do Carnaval paulistano, vai ter direito a venda exclusiva de cerveja nos locais por onde os blocos de rua vão passar. Mas como evitar que outras marcas sejam vendidas pelos ambulantes? Ele diz que haverá investimento na fiscalização.

UOL - O prefeito tem encampado uma ação contra o grafite, cobrindo com tinta cinza trabalhos em locais estratégicos, como na avenida 23 de Maio e no Minhocão. Houve forte reação contrária nas redes sociais. Você foi consultado sobre essa intervenção?

André Sturm - Quando soube que haveria a ação na 23 de Maio, lembrei que tinha os murais e falei para o prefeito que era importante tomar cuidado. Ele pediu sugestões. Sugeri que preservassem os murais que estavam em bom estado. Foram preservados oito murais, e o resto foi pintado. Isso acabou gerando esse ruído a que você se refere. Mas cabe lembrar que o grafite tem em sua natureza ser efêmero. Quando um grafiteiro faz uma arte em uma parede, ele não tem a expectativa de, três anos depois, voltar e retocar. É da natureza do grafite, em qualquer lugar do mundo, depois de um tempo, ser pintado. E, às vezes, outro grafite é posto no mesmo lugar. Acho que está tendo um superdimensionamento dessa questão. Não é que tinha ali um afresco pintado pelo José de Anchieta há 400 anos, uma relíquia da cidade. Então, os murais que foram preservados não foram porque são mais bonitos. O critério foi "murais que estavam em bom estado". Havia vários grafites, murais, que estavam pichados por cima, alguns que estavam descolorindo, outros que a ação da poluição já tinha meio enevoado.

Mas teve grafite em bom estado que foi removido.

Mas aí é num nível de detalhe de uma ação que envolve um monte de gente, praticamente 1.200 homens, que foram fazendo. Tomou-se o cuidado de preservar grafites em bom estado. Não é uma pinturinha, são murais.

A atuação da prefeitura não precisa ser melhorada?

Sim, estou de acordo. Acho que na próxima vez que tiver uma ação desse tipo, de limpar uma avenida, nós da Secretaria de Cultura precisamos ser contatados para que, de alguma maneira, possamos dizer: "Olha, pessoal, aqui é grafite", ou então: "Aqui tudo bem, não me responsabilizo". Há uma definição muito clara do que é grafite. Tenho conversado com grafiteiros, eles te explicam em dez palavras. O que é grafite, se estiver em boas condições, deve ser preservado.

Esse controle não é cheio de armadilhas? Como escolher esses grafites?

Acho que no caso da 23 de Maio foi um programa que misturou uma ação de zeladoria, que vinha funcionando bem. Então foi-se. A gente avisou, conseguimos evitar que tudo fosse pintado, mas entre o ideal e o possível, ficou-se no possível. Por outro lado, já havia apresentado para o prefeito um projeto de estímulo ao grafite. Criar um museu de arte urbana. Ele deu a ideia de criar um local para jovens aprenderem a arte do grafite. Enfim, com tudo isso [a repercussão], a gente vai antecipar o projeto e, na semana que vem, vamos lançá-lo. Vamos ter um local, uma extensão. O grafiteiro se inscreve, apresenta suas ideias, e uma comissão, aí sim curatorial, com artistas, gente entendida na área, seleciona. Não sabemos se dois ou três meses depois, a gente localiza uma outra região, e com isso a gente cria esse museu a céu aberto.

Já que estamos falando da natureza do grafite, que nasce como manifestação de contracultura, faz sentido o cadastramento? Pelos manifestos na internet, a gente vê que vão continuar grafitando a cidade em lugares que não são os que a prefeitura escolhe.

Essa ideia de oferecer locais não é no sentido de amarrar o grafiteiro, de reprimir, limitar. Ninguém será obrigado a participar. Será livre. Quem quiser vai fazer a obra que quiser. A gente não vai ter essa comissão no sentido de dizer: "Ah, o tema é São Paulo". Provavelmente haverá mais inscritos do que espaço, então faremos uma seleção. Como queremos fazer em muitos lugares, tenho certeza de que todo mundo vai conseguir participar. Na própria 23 de Maio foi assim, teve uma ação organizada [da gestão anterior].

Bruno Santos/Folhapress
Pintura feita pela prefeitura para cobrir grafites na avenida 23 de Maio Imagem: Bruno Santos/Folhapress

Carnaval

No ano passado houve a atuação da prefeitura no Carnaval para diminuir o conflito entre os moradores dos bairros e os foliões. Como a prefeitura pretende melhorar esse diálogo?

A gente decidiu que não ia intervir no modelo. A gestão passada já tinha encaminhado, anunciado um formato, e se a gente decidisse mexer, ia causar mais ruídos. Os prefeitos regionais estão chamando os blocos para ajustes. Como cresceu muito, tinha dia, hora e local com três blocos, fizemos um rearranjo. Vamos fazer um esforço para oferecer melhores condições para que as pessoas se divirtam num período determinado, e depois: "Amigo, você precisa sair daqui, para a gente poder limpar".

Na Vila Madalena, onde esse conflito entre moradores e foliões é mais forte, o limite vai permanecer às 20h, como no ano passado?

Acho que o limite é 19h. O acordo é que, às 19h, a festa seja interrompida. Daí haverá uma hora para a dispersão. O largo da Batata vai ter uma programação mais intensa, para que o lugar sirva para a dispersão da Vila Madalena, até para que, dali, o cara pegue o metrô e pegue um ônibus.

Há expectativa de receita com os patrocinadores? Quem são eles, e o que a prefeitura ofereceu como contrapartida?

A gente não recebe o dinheiro, eles pagam os serviços. Haverá uma economia. Na negociação que a gente conseguiu [com uma agência que tem patrocínio da Ambev], eles pagam a infraestrutura. A gente tem a expectativa de que a prefeitura tenha um gasto muito pequeno. A contrapartida é banner, balão e exclusividade de venda nos locais onde os blocos desfilam.

Zanone Fraissat/Folhapress
O bloco Confraria do Pasmado, que desfila na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress

Prioridades

Quais os principais desafios da Secretaria de Cultura nos próximos anos?

A gente colocou como prioridade a valorização dos equipamentos da secretaria. Desde os mais conhecidos, como o Teatro Municipal, até as 53 bibliotecas, teatros e os vários centros culturais, centros de cultura. Eles têm atualmente resultados muito variados. Vários têm uma relação muito tradicional com seus bairros e suas regiões, mas muitos estão com problemas de estrutura, equipe pequena, pouca programação ou uma programação pouco diversificada.

Como essa avaliação foi feita?

Eu visitei alguns, nossa equipe está visitando todos. E muitos funcionários, eu diria que 80% do pessoal da gestão passada, permaneceram conosco.

Quais ações estão sendo pensadas para tornar a cultura mais acessível para quem vive na periferia?

Haverá um investimento maior na periferia, mas o orçamento ainda está em negociação. Houve um debate no fim do ano na Câmara Municipal, vários grupos da periferia participaram e vieram discutir o orçamento, exigir mais recurso para a periferia. Alguns disseram que era preciso diminuir o orçamento do Teatro Municipal, da SPCine. Acho que não é bom colocar a periferia contra o centro e o centro contra a periferia. Acho que não há contraposição. O Teatro Municipal tem vários corpos estáveis, tem sua orquestra, o Balé da Cidade, a Orquestra Experimental de Repertório, o Quarteto de Cordas. Uma das coisas que a gente quer fazer é levar a cidade ao Teatro Municipal e o Teatro Municipal à cidade, com os corpos indo para espaços na periferia. Se a gente chamar um artista do centro, no sentido de ser mais conhecido, a gente sempre vai querer que ele se apresente com artistas locais. Uma das coisas mais legais para um artista que ainda não é reconhecido é a oportunidade de diálogo.

É possível dar exemplos de equipamentos a serem valorizados?

A gente tem o projeto Bibliotecas Vivas. Hoje as bibliotecas não abrem aos domingos, durante a semana elas fecham às 17h, às 18h. A gente vai abrir as bibliotecas aos domingos e durante a semana até às 20h, para ampliar o público. Em vários bairros da cidade, a biblioteca é o único equipamento cultural. A gente quer a biblioteca aberta como um estimulador para que a pessoa saia de casa, tenha um lugar para ir, com uma programação cultural, que não seja apenas leitura de livro, ela vai lá porque tem uma música, porque tem um coral, palestra, oficinas.

Qual procedimento para que o silêncio não seja perturbado?

Claro que a gente não vai querer subverter a natureza da biblioteca. Não vamos fazer show de rock na biblioteca, porque daí o cara que foi lá para ler não vai conseguir ler. Mas a gente pode criar uma programação cultural que se harmonize com a biblioteca e leve mais gente para lá. Muita gente perdeu o hábito de pegar um livro. Se o cara começa a ir à biblioteca, mesmo que por outro motivo, uma hora vai ter a curiosidade de pegar um livro.

Você escolheu para a direção da biblioteca Mário de Andrade o empresário Charles Cosac, antigo proprietário da editora Cosac Naify, que não é um bibliotecário. A função não requer conhecimento específico na área?

Bem sem modéstia? Eu nunca havia administrado um museu antes e acho que fiz um bom trabalho no Museu da Imagem e do Som. O que você precisa para ser diretor de uma biblioteca, antes de tudo, é gostar de livro. Segundo: gostar de ler. O Charles, não preciso dizer, gosta das duas coisas. Quem vai cuidar da catalogação e preservação dos livros são os técnicos. Não é o diretor da biblioteca, ele é uma pessoa que precisa saber enxergar os talentos da sua equipe, organizar, dinamizar. A biblioteca Mário de Andrade é um lugar vivo, que tem programação e movimenta as pessoas. Acho que ele é a pessoa certa.

Diego Padgurschi/Folhapres
Show da cantora Maria Rita na Virada Cultura 2016, no centro da cidade. Mudanças anunciadas para o evento geraram outra polêmica envolvendo a gestão Dória Imagem: Diego Padgurschi/Folhapres

Organizações sociais

A gestão por OS (organização social) tem sido criticada porque deu brechas a casos de corrupção. Como evitar que outro desvio, como o do Teatro Municipal, aconteça?

Você já ouviu falar na operação Lava-Jato? Ela aconteceu na administração direta. E roubaram quantos trilhões? Então, não é o modelo de organização social que abre brecha para a corrupção ou para roubo. No Municipal, infelizmente, havia um indivíduo que cometeu atos de uma grosseria tamanha que ele foi pego rapidamente. O que houve é que a Secretaria de Cultura, por inexperiência com um modelo de OS, deu autonomia excessiva. O modelo de OS pressupõe um acompanhamento, e esse acompanhamento não foi feito.

A brecha está no sistema de licitação e concorrência. Dependendo do preço de um serviço, não é preciso abrir concorrência. Qual a fiscalização que vai ser feita?

A gente já criou uma coordenadoria de acompanhamento dos contratos de organizações sociais na secretaria. A gente não está inventando a roda. Na Secretaria de Estado da Cultura, todos os museus estão geridos por organizações sociais. O modelo de OS é bacana porque não é privatização, não é concessão e não é terceirização. É contrato de gestão. A Secretaria de Cultura não abre mão do acompanhamento nem da definição da política. Se a gente colocar o Teatro Municipal sob gestão de uma OS, a secretaria tem que estabelecer metas que são qualitativas e quantitativas. E tem que acompanhar. A partir da hora que é uma gestão privada, eles podem captar recursos, sejam eles de patrocínio, sejam de bilheteria. Podem fazer eventos corporativos e cobrar, podem gerar receitas. Na hora que queimar uma lâmpada, não precisam fazer uma licitação para comprar outra. Tem um teatro, o Paulo Eiró, um dos melhores da cidade, que está fechado há seis meses porque quebrou uma pecinha de um gerador.

Essa comissão vai analisar todos os valores pagos pela OS?

Sim, se um artista vai ganhar 100 mil euros, opa, acendemos a luz amarela. Por que pagar 100 mil euros de cachê? Porque é um cara super legal? Não.

Essa coordenadoria de acompanhamento dos contratos de organizações sociais vai existir na pasta da Cultura ou em outras também?

Estou falando da Cultura. Essa coordenadoria foi criada informalmente. Tem que haver um decreto para virar oficial. Mas já esta funcionando extraoficialmente. Há pessoas contratadas, que a gente já colocou para repensar o sistema. Nossa tarefa é o acompanhamento. Quando você pega um contrato de 100 mil euros para pagar um artista, ou está sendo perdulário, ou tem coisa errada. Não tem que esperar um ano para saber o que aconteceu. Se a gente está acompanhando de perto, pode até ser que a direção artística consiga justificar que, naquele caso, a contratação valha 100 mil euros. Se for o [tenor] José Carreras, ah bom, José Carreras parece bom. Tem dinheiro para isso? Tem. Então vamos fazer. Agora para o John Batatas, da Bratislava, 100 mil não vamos pagar.

Virada Cultural

Por que levar as atividades da Virada Cultural a locais fechados?

Não é levar para lugares fechados. A Virada Cultural tem o objetivo de trazer as pessoas para o centro da cidade para conhecê-lo. O que a gente não vai fazer são aqueles palcos grandes no centro da cidade. Vamos privilegiar equipamentos. A gente quer que a pessoa entre no Teatro Municipal, entre na biblioteca Mário de Andrade, entre no teatro dos Satyros. Vamos propor aos teatros privados para que participem da Virada, para que as pessoas vejam que é bacana e, ao longo do ano, voltem. Mas não é que a programação vai ser apenas dentro do Municipal ou da Biblioteca Mário de Andrade, a rua no entorno da Mário de Andrade vai virar palco. A gente vai ter uma série de atividades acontecendo.

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