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Secretário de Cultura de SP enfrenta reclamações e saia justa na periferia

Jotabê Medeiros/UOL
O secretário de Cultura de São Paulo André Sturm participa de encontro com a população no Centro Cultural da Juventude da Vila Nova Cachoeirinha Imagem: Jotabê Medeiros/UOL

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL

20/01/2017 11h15

O batismo de fogo do novo secretário de Cultura de São Paulo, André Sturm, foi ele mesmo quem procurou. Nesta quinta (19), às 15h, ele inaugurou o que denominou de Gabinete nos Bairros, uma itinerância de sua equipe de gestão e do titular para “estabelecer um canal de diálogos” com as diversas comunidades do município. “Eu irei a todos os bairros. Elogios, realmente, não estou esperando”, disse Sturm durante a conversa.

O primeiro encontro (que parece replicar a iniciativa do ex-secretário Juca Ferreira, que criou um ciclo chamado Existe Amor em SP) foi no grande salão do Centro Cultural da Juventude da Vila Nova Cachoeirinha, na região norte, para cerca de 300 pessoas --boa parte delas parecia recém-saída de uma aula de capoeira, com quimono e descalça. Uma pequena fila se formou à frente de um microfone de pedestal para fazer perguntas ao novo secretário.

As perguntas eram sobre temas os mais diversos. Qual o planejamento da secretaria para o samba e o samba rock? Uma senhora pediu ao secretário um novo centro cultural na região. “Nós não vamos fazer novas casas de cultura. Nesse momento, a prioridade é manter aberto o que está funcionando melhor”, esclareceu o secretário.

Organizações sociais

A sabatina começou com um rapaz que se apresentou como Jesus Santos, ou Negro Drama. Após saudar a periferia, Jesus foi já apertando o secretário, inquirindo Sturm sobre sua ideia de passar a gestão das bibliotecas públicas para organizações sociais (OS). “Como esse modelo das Organizações Sociais, que já demonstrou sua ineficiência, iria dar certo agora?”, perguntou, sob aplausos. Santos também quis saber o que aquilo traria de bom, já que muitas das OS da cultura existentes hoje em São Paulo acumulam processos no Tribunal de Contas do Estado.

Outra garota perguntou porque Sturm julga bom esse tipo de gestão, já que as Fábricas de Cultura estão à míngua na gestão paulista. “Nas Fábricas de Cultura houve corte orçamentário muito grande. A crítica é procedente. Mas quanto aos processos no Tribunal de Contas... Não é processo, é pedido de esclarecimentos. É comum. Sou secretário há duas semanas e já recebi questionamento do Tribunal de Contas”, afirmou, acrescentando que nada será levado adiante sobre a transformação de estruturas do município em OS “sem que haja um debate”.

Ariane Fachinetto, do Jardim Elisa Maria, foi ainda mais incisiva. Ela contou que frequenta a Fábrica de Cultura da Brasilândia, gerida por uma OS, a Poiesis, e que o ambiente é de devastação. “Nenhum sistema de OS funciona. É muito fácil vir aqui falar de Organização Social para o Teatro Municipal, mas para centro cultural da periferia? Se a OS entrar aqui, vai acabar”, disse.

Jesus Santos também perguntou sobre a questão do grafite, novo alvo da ação Cidade Linda, do prefeito João Dória. “Qual a relação da secretaria municipal de Cultura com esses artistas? A gente vê que ninguém mexeu nas obras de Kobra e osgemeos. Claro, porque seria uma polêmica nacional. Mas e os artistas menos conhecidos?”. Sturm não respondeu essa questão, que lhe foi feita três vezes durante a sabatina.

Sturm ainda acrescentou que não tem intenção de transformar nenhum centro cultural em OS (“Não haverá 'oessização' dos centros culturais”), assegurou “total apoio aos artistas locais talentosos” (“Não é porque é da  Brasilândia que só pode se apresentar na Brasilândia”) e ao rolezinho, “que nada mais é do que um monte de gente se divertindo”.

Afirmou, no entanto, que mesmo políticas que estão dando certo “estão sujeitas a continuar sendo discutidas”, mas prometeu não fazer nomeações políticas, exemplificando com a própria direção do Centro Cultural no qual falava, cujo diretor “fez campanha contra o candidato que ganhou e nós não o trocamos”. Adiantou que tem planos de fazer as 52 bibliotecas municipais funcionarem nos finais de semana.

André Sturm revelou que ainda não tem um orçamento fechado para a Cultura de São Paulo neste ano, mas que está “brigando para que tenha cortes os menores possíveis. Revelou que 400 funcionários da sua pasta se aposentaram no ano passado, e que prevê que 450 se aposentem este ano, o que gera certos transtornos administrativos. Uma moça quis saber porque liga insistentemente para certos programas da Prefeitura, como o VAI, e ninguém atende. Sturm respondeu que as chefias se demitiram, mas que o funcionamento é normal.

Cinema, samba, participação

Um jovem cineasta, Renato Angelo, perguntou se o secretário poderia detalhar seus planos para a SPCine, braço cinematográfico da secretaria. Ele citou a meta de criar cinco salas novas até o final do ano (para se juntar às 20 já em funcionamento) e instalar uma sala em cada Centro de Educação Unificada (CEU) até o final da gestão. Também afirmou que manteve a equipe da instituição.

Os mais jovens foram mais ousados, os militantes da cultura mais veteranos pediram pouco a palavra, e em algum momentos demonstraram desânimo. “Porque há duas políticas em São Paulo, uma para o outro lado do rio e outra aqui para a quebrada”, afirmou um senhor.  Luizão, do Imirim, fez uma breve explanação: “Ninguém vai conhecer o nosso bairro como a gente. A gente não quer que digam o que a gente quer, a gente quer participação, quer as coisas resolvidas entre a população, sem braço de ferro”.

Dirceu, da Embaixada do Samba, pediu que o secretário olhasse por suas agremiações. "Que, a partir de agora, quando você visse o nome samba, visse como uma parte cultural" da metrópole, disse. “Você não precisa me convencer disso”, afirmou Sturm.

Um rapaz de guarda-chuva chutou o balde e disse que o CCJ de Vila Nova Cachoeirinha era “o pior centro cultural da história”, e foi vaiado. Sturm o defendeu. “Todo mundo tem direito a sua opinião”.

Quando Jesus Santos tentou fazer uma nova pergunta, já sentado entre a plateia, Sturm o repreendeu. “Não estou ficando bravo desculpa”, afirmou. “Eu não preciso da sua tradução, Jesus; a pergunta é dela!”, disse mais adiante. Já um pouco exaltado, chamou o interlocutor de mal-educado. O rapaz tentou falar com ele depois do entrevero, quando já tinha terminado a audiência, mas não deu muito certo. “Ele está virando as costas para mim! O secretário de cultura me virou as costas!”, berrou Jesus, saindo da sala.

Ao final, o secretário convidou os interessados a participarem, no dia 27, às 17h, na Galeria Olido, de um encontro com os representantes do hip-hop paulistano para debater ideias para o gênero e sua inserção no calendário municipal.

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