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Haja Pazienza: 30 anos atrasada, obra-prima da HQ italiana chega ao Brasil

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Ramon Vitral

Colaboração para o UOL

O quadrinista italiano Andrea Pazienza tinha 32 anos quando foi encontrado morto na banheira de sua casa, na cidade de Montepulciano. O artista teria sido vítima de uma overdose de heroína, vício compartilhado por ele e pelo protagonista de sua obra-prima, o álbum "Os Últimos Dias de Pompeo". A HQ recém-lançada no Brasil pela editora Veneta foi produzida por Pazienza entre 1984 e 1986 e é considerada por artistas de todo o mundo como um dos maiores clássicos dos quadrinhos ocidentais. "Pompeo" é publicada pela primeira vez no Brasil no 30º aniversário do lançamento de sua versão completa na Itália e talvez seja a principal amostra de um dos maiores gênios de seu ofício.

"Eu não arrisco mensurar a importância de Pazienza", afirma o quadrinista paraibano Shiko. Tendo morado na Itália e autor de sucessos entre crítica e público brasileiros, como "Lavagem" e "Piteco - Ingá", o artista enfatiza os feitos do autor de "Pompeo": “Posso garantir que foi, ainda é, o maior nome de uma geração que revolucionou e renovou os quadrinhos italianos e europeus, e deu uma sacudida em todo país em que foi publicado".

O trabalho de Pazienza que chegou às lojas brasileiras consiste em um diário em preto e branco de seu protagonista, um artista atormentado por seu vício em heroína. Visto como um testamento artístico do autor, o livro sacramentou o nome de Pazienza entre os grandes de seu país. Como lembra Shiko, em seguida à morte do autor, um de seus editores tentou sintetizar o significado de sua perda: "Desaparecia o nosso maior desenhista e inventor, o nosso Leonardo, o nosso Mozart."

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Capa da HQ "Os Últimos Dias de Pompeo", considerada obra-prima no quadrinho italiano imagem: Divulgação

Hoje Pazienza virou nome de praça em Roma e de uma rua em Nápoles. Seus feitos além dos quadrinhos também ajudaram a acentuar sua popularidade. Ele assina o pôster do filme "Cidade das Mulheres" (1980) de Federico Fellini e contribuiu nos argumentos de "O Pequeno Diabo" (1988) de Roberto Benigni. Ao longo das últimas décadas, seu trabalhos ganharam adaptações para os palcos e para o cinema - como "Paz!" (2002), protagonizado por mais de um de seus personagens e dirigido por Renato De Maria.

"Insistindo nas experimentações com a imagem e com a palavra, Andrea se aproximou da direção cinematográfica", diz ao UOL a viúva de Pazienza, Marina Comandini. Único nome citado na dedicatória de "Pompeo", Marina conta que a morte de seu marido interrompeu possibilidades profissionais na época pouco investidas por Pazienza. "No fundo, quadrinhos e cinema se assemelham muito. Mas ele não teve tempo de colocar isso em prática."

Nos quadrinhos, no entanto, Pazienza fez história. Ele foi um dos membros fundadores da revista "Frigidaire", outro marco dos quadrinhos ocidentais. Da publicação saíram algumas das poucas HQs do autor lançadas no Brasil. "A primeira vez que tive contato com seu trabalho foi através das páginas da revista 'Animal'. O deleite foi imediato. Nunca esteve entre minhas influências, mas sim entre minhas preferências", conta o quadrinista niteroiense Marcello Quintanilha, premiado na mais recente edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême pelo álbum "Tungstênio".

Na avaliação de Quintanilha, "Pompeo" sintetiza alguns dos principais atributos da obra de Pazienza, principalmente sua versatilidade, podendo ir de um traço realista ao caricato em uma mesma página. "A impressão mais forte que tenho dele é a de uma dança, expressa por sua absoluta liberdade estilística, tanto no que se refere à construção da história quanto na concepção da imagem”, explica o autor brasileiro. "Ele vai da dramaticidade de uma sombra trabalhada em diversos níveis de trama até a objetividade de uma linha tão grossa que ultrapassava os critérios normais da narrativa. Absolutamente fascinante", diz.

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Página da HQ "Os Últimos Dias de Pompeo", que ganha primeira edição brasileira em 30 anos imagem: Divulgação

Shiko também acredita que o maior mérito de Pazienza talvez esteja na habilidade de variar entre estilos. Ele diz ter sido uma novidade quando descobriu um desenhista genial que não estava preocupado em reafirmar seus dotes artísticos. “Ele era capaz de fazer os desenhos mais bonitos, no sentido clássico da beleza, mas optava por um desenho feio, meio grotesco, se isso fosse o modo correto de desenhar determinado quadrinho”, analisa.

Testemunha do período de produção de "Pompeo", Marina Comandini diz que a trama sobre vícios e drogas gerou incômodo nos editores originais do quadrinho, que optaram por parar a publicação pois o foco da obra seria "inconveniente" em um momento no qual a Aids começava a ser um tópico universal. "Não foi a primeira vez que um trabalho dele foi censurado, mas talvez faça sentido esperar isso no caso de um artista que fazia do desafio e do risco o seu modus vivendi", diz Comandini.

Tendo acompanhado de perto a breve carreira de Pazienza, Comandini diz considerar "Pompeo" o trabalho mais maduro e completo do autor, aquele com a melhor junção entre imagens e palavras e também o mais passional. “Trata da angústia existencial, uma condição imutável e universal com a qual podemos todos nos identificar, mesmo na modalidade hipersensível do artista. O desenho, aparentemente apenas jogado ali, destila dinamismo, em total sinergia com o texto”.
 

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