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Gorila de saco de lixo? A instigante relação do homem com bichos e a cidade

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/10/2016 06h00

É como se fosse uma Arca de Noé imaginária feita de refugos do cotidiano contemporâneo: embalagens de remédios, aparas de chinelas havaianas, guarda-chuvas velhos, garrafas PET, latas de tinta, garfos entortados, recortes de revistas de celebridades.

Com esses materiais, uma exposição ao ar livre, no coração do Parque do Ibirapuera, tem chamado a atenção. E uma das obras é campeã de audiência: uma poltrona em forma de um gorila gigante feita de sacos de lixo e garrafas PET, pela artista de Sonia Costa, onde formam-se filas para sentar na estrutura. Só no feriado do Dia das Crianças, 50 mil pessoas passaram por lá.

Batizada de Zoo Urbano, a exposição vai até o próximo dia 31 e reúne 20 artistas em torno de uma ideia de arte pública básica: todo mundo pode tocar, todo mundo pode subir. "A arte pública precisa ser abraçável", diz o curador Burt Sun, um norte-americano de origem chinesa. Ele estabeleceu três critérios para os artistas convidados montarem suas peças: a obra precisava ser interativa, tinha de se utilizar de materiais recicláveis provenientes da cidade e envolver a comunidade.

Na arte, nada é tão explícito: há animais míticos, imaginários, como dragões, e animais invisíveis, como o João de Barro. Alguns artistas citam o dadaísmo, como Jaques Faing; outros, como Juvenal Pereira, foram até onde o Rio Doce (MG) nasce e supostamente morreu (após a tragédia ambiental na cidade de Mariana) para trazer um depoimento vivo em forma de peixe.

Divulgação
Um ciborgue de alumínio em um colossal tronco, por Alexandre Stefani Imagem: Divulgação

Morte transformada em vida

O artista Alexandre Stefani utilizou-se de um tronco de uma gigantesca árvore morta no Parque do Ibirapuera. A árvore doente tinha sido objeto de uma controvérsia: frequentadores não queriam que fosse derrubada, mas ela ameaçava a saúde das árvores vizinhas.

Assim, quando o artista disse que ela seria usada em uma obra, o parque ficou feliz com a ideia. "Perceberam que intenção do artista era justamente transformar a morte em vida. Arte é, basicamente, cura", diz Sun.

A arte e os artistas

Tida Ricco usou recortes de jornais e revistas para fazer um tatu bola de papel machê --as fotos insinuam uma história visual e política do Brasil contemporâneo.

As focas de Fabio Souza foram recheadas de latinhas de cerveja amassadas, e o urso polar feito de pelegos de carneiro por Claudinei Ribeiro ilustram a tragédia da devastação da natureza e seu impacto na reprodução.

Em tempos de dengue e zica, Tito Cunha, artista de 70 anos, criou um inseto híbrido, a Formigaranha. João di Souza inventou um baiacu com guarda-chuvas pintados, como um jardim art déco.

Beto Carrazzone usou canos de PVC para fazer a obra mais abstrata do lote, dissolvendo a imagem simbólica clássica do pássaro branco em uma composição que lembra um cemitério de lápides irregulares.

Com a ajuda de um grupo de costureiras, Adriana Mattos criou o Dragão Mensageiro, uma estrutura de arame de 13 metros de comprimento. Ao final da escultura, há uma colcha de retalhos gigantes feita por senhoras costureiras, na qual os visitantes podem escrever desejos nos panos. Virou um hit: as pessoas tiram sonecas em cima da colcha de retalhos.

Outros artistas da mostra são o escultor mineiro Leopoldo Martins, a carioca residente nos EUA Helena Dias Sardenberg, Marjorie Yamaguti (que criou uma gigantesca aranha de bambu), Sylvia Soares, Francisco Rosa, Fabio Benetti, Olivia Lambiasi, Didio Dufrayer e a comunidade criativa Acupuntura Urbana.

Divulgação
Dragão Mensageiro, de Adriana Mattos, em uma estrutura de arame de 13 metros Imagem: Divulgação

Zoo Urbano

Quando: até dia 31 de outubro

Onde: Parque do Ibirapuera, portão 7 (Av. Pedro Alvares Cabral S/N, Ibirapuera)

Horário: funcionamento do parque

Quanto: entrada gratuita

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