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Escritoras eróticas enfrentam assédio de leitores e ira de conservadores

Carlo Tocatelli/Divulgação, Bruno Poletti/Folhapress, Keiny Andrade/Folhapress
As escritoras Nalini Narayan, Amara Moira e Juliana Frank Imagem: Carlo Tocatelli/Divulgação, Bruno Poletti/Folhapress, Keiny Andrade/Folhapress

Carlos Minuano

Colaboração para o UOL

08/09/2016 10h24

O mercado de literatura erótica está bombando de presença feminina. Uma nova geração de escritoras, dos mais diversos lugares do mundo, vem produzindo histórias que abordam desde aventuras sexuais, fantasias delirantes, reais ou inventadas, em formato de quadrinhos, romances picantes e até guias de como melhorar o desempenho na cama. E, ao mesmo tempo em que chegam os lançamentos, vem junto o assédio de leitores exaltados. Elas também entraram na mira dos conservadores.

Carlo Tocatelli/Divulgação
Capa do livro "Fêmea Alfa - Diário Real das Minhas Orgias", de Nalini Narayan Imagem: Carlo Tocatelli/Divulgação

Autora de um dos livros mais apimentados dessa nova safra, "Fêmea Alfa" (editora Matrix), Nalini Narayan relata em detalhes as orgias das quais já participou. Não demorou para ser perseguida por leitores querendo uma "experiência" com ela, além de sofrer ataques de pessoas que não gostaram do que escreveu.

Mas ela não se intimida. "Não vou fazer coro com bela, recatada e do lar", diz. Segundo Nalini, suas fotos foram denunciadas e proibidas no Facebook, além de ter perfis bloqueados em diversas redes sociais. "Reclamaram de imagens artísticas. Não dá para entender o ódio que o sexo livre desperta em algumas pessoas".

A escritora Juliana Frank, autora do recém-lançado "Uísque e Vergonha" (Editora Oito e Meio), narra a história barra pesada cheia de sexo e drogas de uma menina de 14 anos (algo semelhante já havia sido feito em 1978, com "Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída"). Em julho deste ano, durante a 14° edição da Flip (Festa Literária de Paraty), a autora participou de uma mesa sobre sexo, erotismo e pornografia, mas o debate que prometia ser quente não decolou.

Para parte da mídia e do público, a performance de Juliana foi "confusa" e "histriônica". Teve críticas até mesmo por causa de uma minissaia "muito curta". Segundo uma fonte próxima a autora, ela teria sido pressionada pela editora de seu livro a se desculpar em um programa de rádio, após o evento. "Fui brutalmente censurada", diz a escritora. 

A peruana Gabriela Wiener, autora de "Sexografias" (Editora Foz), também lançado na Flip, e que dividiu a mesa com Juliana Frank em Paraty, disse que ficou indignada com o que aconteceu e lamentou que o debate sobre a sexualidade acabou não acontecendo. Ela afirma que alguns meios de comunicação foram muito agressivos com a escritora brasileira, e disse que presenciou pessoas tentando agredi-la pelas ruas.

"Se tivesse sido um homem com uma postura mais ousada teriam dito que era um gênio, um escritor maldito, filho de Bukowski. Mas como foi uma mulher, a chamam de louca, histérica, prostituta ou viciada em drogas", dispara a escritora estrangeira. "Choca ainda mais ter ocorrido em um evento que homenageava uma escritora famosa por sua rebeldia, a Ana Cristina Cesar [um dos principais nomes da poesia marginal da década de 1970]".

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Capa do livro "Uísque e Vergonha", de Juliana Frank Imagem: Divulgação

Sexo fora das normas

A controvérsia aponta que continua muito difícil falar sobre sexo. A escritora estrangeira diz não se espantar que os conservadores estejam ganhado força no mundo todo. "Eles atacam qualquer um que viva de acordo com seus próprios códigos e não com os da sociedade, da moral ou da igreja. A questão também tem a ver com o corpo, o desejo e a liberdade das mulheres, que o sistema patriarcal sempre tentou governar".

O livro da escritora peruana está cheio de pessoas que, segundo ela, "se atrevem a viver, desejar e amar fora das normas". Escrito no melhor estilo gonzo [gênero em que o repórter vive na pele o tema da reportagem], o livro "Sexografias" traz relatos poderosos sobre o comportamento sexual nos dias atuais. Para isso, a autora visitou suingues com o marido, saiu pelas ruas junto de prostitutas e até transou com um ator conhecido como o "rei do pornô".

A escritora acredita que muitas pessoas não passam nem perto de seu livro por puro preconceito. "Não consideram [que faço] literatura porque trato desses temas". Sexo e liberdade, na opinião de Gabriela, provocam medo e gera reações violentas. "E a agressão é maior ainda se você for mulher, latino-americana, inteligente e livre".

Europa e EUA

Mas não é só no Brasil, ou na América Latina, que escritoras enfrentam esses problemas. A libertária quadrinista italiana Giovana Cassoto, conhecida por suas HQs cheias de erotismo e fantasias, conta que já encarou muita crítica ao seu trabalho, fruto de preconceito e ignorância. "Eu tive alguns problemas no passado, especialmente porque muitas pessoas tendem a confundir as histórias que desenho com a minha vida, que é obviamente distante da realidade de meus personagens", disse ao UOL, por e-mail.

A quadrinista, que tem um novo álbum de quadrinhos saindo no Brasil, o "Giovaníssima" (Editora Veneta), lembra que a perseguição ocorreu mais no início de sua carreira. "Era, na verdade, um pouco escandaloso uma mulher desenhando pornografia". Mas hoje, na Itália, segundo ela, as coisas mudaram. "Há muitas mulheres com projetos envolvendo sexo, e o escândalo é bem menor. Nos acostumamos a tudo, o que hoje é ultrajante, poderá ser normal ou até um pouco ridículo para os nossos filhos".

O começo também não foi fácil para a californiana Audrey Carlan, autora da série erótica "A Garota do Calendário" (Verus Editora), sucesso de vendas, e também de críticas, nos Estados Unidos. "Recebi repostas negativas por parte de grupos de mulheres e até de profissionais de educação sexual, porque a personagem da história vem carregada de uma conotação negativa das garotas de programa", disse a autora por e-mail, antes de embarcar para o Brasil pela primeira vez, para participar da edição desse ano da Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

A confusão entre o que está nos livros e a vida pessoal é outra reclamação comum entre elas. "Muitos pensam que, porque eu escrevo livros de sexo explícito, podem invadir minha vida pessoal e sexual", observa Audrey. "Recebo muita pornografia de homens que me procuram nas redes sociais, apesar de deixar claro nas minhas páginas na internet que sou uma mulher feliz no casamento e mãe de dois filhos".

Literatura trans

Outro grupo também vem abrindo espaço na nova literatura erótica brasileira, o de escritoras trans. Umas das pioneiras desse gênero é a transexual Amara Moira, que acaba de lançar seu primeiro livro "E Se Eu Fosse Puta" (Hoo Editora), um relato autobiográfico sobre sua transição e o mergulho vertiginoso na prostituição. O relato é carregado de uma sinceridade que revela muita angústia e solidão, mas o tesão e o desejo também escorrem pelas páginas.

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Capa do livro "E Se Eu Fosse Puta", de Amara Moira Imagem: Divulgação

"Travesti que se descobre escritora ao tentar ser puta, e puta ao bancar a escritora". Assim se define a escritora e doutoranda em crítica literária pela Unicamp (Universidade de Campinas), logo nas primeiras páginas de seu primeiro livro. "Não é mais só o homem machão, branco, heterossexual e da elite quem dá as caras na literatura erótica, quem define suas regras e limites", diz Amara.

O relato da travesti despertou fúrias. "A resposta conservadora é violentíssima", ressalta Amara. "Os ataques ao meu livro são os mais absurdos possíveis, usam todo tipo de preconceito para desmerecer meu trabalho". Mas ela também tem recebido apoio. Um dos mais contundentes está no prefácio do livro, assinado por Maria Valéria Rezende, religiosa ganhadora do último Jabuti, principal prêmio literário do país, com o livro "Quarenta Dias" (editora Alfaguara), sobre o universo marginal das periferias.

Em um evento junto com a travesti, a religiosa recitou um versículo da Bíblia (Mateus, 21: 31), destacando um trecho com uma fala de Jesus que, segundo Amara, a bancada conservadora esquece: "As prostitutas vos precederão no Reino de Deus". O livro de Amara tem ainda uma introdução em quadrinhos da cartunista Laerte, com tirinhas do personagem Muriel tentando carreira na prostituição.

Para a quadrinista, que assumiu a transexualidade aos 57 anos, "E Se Eu Fose Puta", revela que a condição das travestis no Brasil não mudou. "Continuam sendo agredidas e discriminadas socialmente, mas procuradas como objeto sexual".

E-books eróticos

E não é só nas livrarias que o boom da nova literatura erótica feminina se encontra. Foi no formato digital, por exemplo, que a autora paranaense até então desconhecida, que assina com o pseudônimo Katherine Laccom't, em menos de dois anos emplacou nada mais nada menos que sete best-sellers de sexo.

Durante a Bienal do Livro deste ano em São Paulo, a autora e outros escritores independentes foram premiados pela Kindle Direct Publishing, ferramenta de auto publicação da Amazon. A gigante do comércio online de livros não divulga números de vendas, mas confirma que e-books eróticos estão entre os mais vendidos do site. Atualmente, segundo a assessoria da empresa, a loja virtual tem mais de 2.700 títulos nesse gênero.

Para a premiação dos autores independentes foram considerados avaliações de leitores, acessos no site e o número de downloads, informa Luciana Syuffi, gerente do KDP. "Katherine começou a escrever em 2015 e já é uma das mais lidas". Além do prêmio, a autora ganhou uma reedição de seu segundo e-book, "A Vitrine", e um box com os cinco livros digitais de sua série "Secret Garden".

A autora acredita que o sucesso dos romances eróticos de autoria feminina está relacionado com a quebra de um tabu. "O mundo está evoluindo", diz. Para ela, não se trata de uma tendência. "Viemos para ficar. Por que só homem escrevendo sobre sexo?", questiona Katherine, que levou o terceiro lugar no prêmio da KDP e teve durante o evento literário sua primeira noite de autógrafos.

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