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"Não me interessa fazer da Globo inimigo público nº 1", diz Pedro Cardoso

Reprodução/TV UOL
Imagem: Reprodução/TV UOL

João Marcos Veiga

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

15/08/2016 07h00

Desde que deixou a Globo em 2015, após mais de 30 anos na emissora, Pedro Cardoso tem chamado a atenção cada vez que critica a televisão. No ar durante 14 anos como o Agostinho Carrara de “A Grande Família”, o ator faz questão de desvincular suas críticas da antiga casa e diz defender um processo de regionalização da programação.

"Sempre que falo de TV me refiro à totalidade do fenômeno. Não me interessa fazer da Globo o inimigo público número 1, até porque acho que isso não é verdade. A programação ainda é muito superior à de seus concorrentes. Eu falo da Globo como um lugar onde a liberdade disputa com o comércio. E seria assim em qualquer outra emissora de TV, enquanto a produção for concentrada no eixo Rio-São Paulo e os interesses das empresas se sobrepuserem aos do país."

O ator está de volta a Belo Horizonte, após um hiato de nove anos, com o espetáculo “O Autofalante”. Encenado pela primeira vez em 1993, o monólogo escrito e protagonizado por ele joga luz sobre um personagem dilacerado e em estado de aflição, abandonado pela mulher, sem emprego, sem mobília e sem telefone.

Cardoso não retomou por acaso o espetáculo, 23 anos depois de sua estreia. O primeiro motivo, afirma, é que o texto continua atual, mesmo com toda revolução digital. "Desde quando escrevi a peça, o cidadão continua sem voz, sem meios de se expressar. A impossibilidade de se fazer ouvir deprime a democracia. É disto que a peça trata", diz em entrevista ao Guia Uol BH. Confira.

Divulgação / Guga Melgar
Pedro Cardoso em cena de "O Autofalante" Imagem: Divulgação / Guga Melgar

Três perguntas para Pedro Cardoso

Guia UOL - "O Autofalante" estreou em 1993. Geralmente o tipo social que fala sozinho, expondo um deslocamento dos padrões da sociedade, é visto ora com reserva, ora com escárnio. Passados 23 anos, como a crítica que a peça carrega se mantém atual?
Pedro Cardoso - Desde quando escrevi a peça, o cidadão continua sem voz; sem meios de se expressar. A primeira fala da peça é: "Televisão não tem orelha”. A intérprete, que se anunciou como sendo um espaço de infinita liberdade de expressão, criou um mundo de pessoas que falam para poucos que ouvem. A impossibilidade de se fazer ouvir deprime a democracia. É disto que a peça trata. Hoje, com a interferência violenta na normalidade democrática que colocou no poder o presidente [Michel] Temer, as questões da democracia são imperiosas. O atual quadro de anormalidade foi uma das razões que me fez querer trazer de volta “O Autofalante” à cena.

Você é conhecido tanto como um grande ator de TV quando de teatro. São dois universos artísticos distintos na forma como encara a sua carreira ou se misturam?
O teatro é a minha casa. O teatro é artesanato. Nele, o investimento é modesto e a liberdade, portanto, imensa. A televisão é uma indústria de comunicação de massa. É regida pelas regras do negócio, muito mais do que por interesses artísticos. No entanto, malgrado as limitações que o negócio impõe à liberdade, a televisão é um veículo de enorme alcance. Sempre achei empolgante trabalhar em TV pela força que o veículo tem. Dei sorte. Pude desfrutar de alguma liberdade, por conta do sucesso que alguns programas do qual participei obtiveram. Mas, mesmo assim, nunca consegui ser incisivo, total, em TV. Havia sempre o produtor - artístico ou administrativo - a representar os interesses (legítimos, diga-se aqui) do investidor. Acho que a democracia brasileira se fortaleceria enormemente com uma maior regionalização da programação. É uma pena que a classe artística não se engaje nessa questão. Será, acredito, um outro Brasil quando a TV for regionalizada. Há quem discorde de mim, argumentando que não há dinheiro para esse investimento. Eu acho que é mentira! A concentração do negócio da TV na mão de poucas famílias proprietárias só serve para produzir milionários.

"O Autofalante" fala também da voz que não se cala ou que se quer controlar. Você, como ator e figura pública, de alguma forma se assusta com a forma como suas declarações "viralizam" na internet, como as críticas à Globo?
Sempre que falo de TV me refiro à totalidade do fenômeno. Não me interessa fazer da Globo o inimigo público número 1, até porque acho que isso não é verdade. A programação ainda é muito superior à de seus concorrentes. Não se pode culpar a Globo por ser líder de audiência. As outras emissoras é que deveriam apresentar uma concorrência mais efetiva. Eu falo da Globo como um lugar onde a liberdade disputa com o comércio. E seria assim em qualquer outra emissora de TV, enquanto a produção for concentrada no eixo Rio-São Paulo e os interesses das empresas se sobrepuserem aos do país. Acredito que toda a economia se beneficia da democracia. Os ricos brasileiros ainda têm muito medo de que a democracia signifique o empobrecimento deles. E significará, de certo modo. Mas um país mais justo será também um país menos violento e mais feliz. De que nos vale termos dinheiro para termos um carro bom se não temos boas estradas para viajar?

Serviço
"O Autofalante"
Quando: 3 e 4 de setembro (sábado às 21h e domingo às 19h)
Onde: Grande Teatro do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537 – Centro)
Quanto: Plateias I: R$ 100 (Inteira) R$ 50 (meia-entrada); Plateias I II: R$ 90 (Inteira) R$ 45 (meia-entrada); Plateia Superior: R$ 80 (inteira) R$ 40 (meia-entrada)
Vendas: bilheteria do Palácio das Artes ou pelo site www.ingresso.com
Mais informações: (31) 3236-7400

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