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Com gingado de rapper, Mel Duarte populariza batalhas de poesia

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

08/08/2016 15h57

Os papéis do pai, um artista plástico e grafiteiro, ficavam espalhados pela casa. Mel, ainda criança, se debruçava sobre eles não para desenhar, mas sim para escrever. Desde a infância no bairro do Jabaquara, em São Paulo, ela buscava a rima nas palavras. Começou com flor e amor. Hoje, aos 27 anos, a poeta Mel Duarte lança seu segundo livro, "Negra Nua Crua", e vê sua poesia se popularizar ao falar de machismo e racismo.

Apesar de escrever desde pequena, Mel só descobriu aos 18 anos que a poesia poderia ser próxima das pessoas. Antes disso, achava que poesias eram aquelas rimas que ninguém entende muito bem o que significam. "Quando eu fiz 18 anos fui trabalhar numa livraria e me chamaram para um sarau. Até então, os poetas que eu conhecia eram da escola e eu não entendia direito o que eles falavam, era muito distante. Eu já fazia poesia, mas não imaginava que outras pessoas também estavam fazendo isso". 

A poesia que aproxima

Mesmo sendo chamada para todo tipo de evento por conta da visibilidade alcançada, Mel gosta mesmo é de poder levar o trabalho para quem pede por referências: jovens que, assim como ela, achavam que poesia é "coisa de gente morta".

"Gosto muito de ir na Fundação Casa. Quando a gente consegue sair desses espaço comuns da literatura para poder trocar com uma galera que precisa dessas referências, seu trabalho atinge outro patamar. Não estou muito preocupada se escrevi certo, se vou chegar à Academia Brasileira de Letras, minha intenção é conversar com a juventude, como eu gostaria que tivessem falado comigo quando eu achava que poesia era coisa de gente morta".

Reprodução
Capa do livro "Negra Nua Crua", de Mel Duarte Imagem: Reprodução

Foi na Flip (Festa Literária de Paraty) deste ano, que homenageou a poeta Ana Cristina Cesar, que Mel teve a real dimensão da potência de sua poesia. Convidada para integrar o sarau que abriu o evento, ela começou recitando os versos de "Menina Melanina”, dedicada às mulheres negras. “Em pé, armado, foda-se, que seja / Pra mim é imponência / Porque cabelo de negro não é só resistente / É resistência".

Com dreads, tatuagens, piercings e gingado de rapper, ela continuou com os versos de "Verdade Seja Dita", em que fala da cultura de estupro. "Seu discurso machista, machuca. E a cada palavra falha corta minhas iguais como navalha. Ninguém merece ser estuprada". O vídeo de sua performance viralizou instantaneamente e conta com mais de dois milhões de visualizações.

"Não fui [à Flip] pensando em como aquilo ia reverberar. Se eu soubesse, teria ido com mais sangue nos olhos", disse a poeta ao UOL. "Já falo sobre esses temas há muito tempo mas entendi que naquele espaço em que estava ocupando, para aquelas pessoas, aquilo não é tão comum. Recebi muitas mensagens e em muitas delas as pessoas diziam que há tempos não se sentiam representadas na Flip".

A participação de mulheres negras na cultura ainda é longe do ideal, mas Mel diz que é bom ver os negros ocupando lugares, não só no mês da Consciência Negra. "As pessoas estão percebendo a importância de ter negros em todos os espaços o tempo todo. Sinto que estamos pressionando também". 

A última Flip também serviu de vitrine para um movimento do qual Mel faz parte, o poetry slam, batalha de poesia falada e que conta entre as pioneiras Roberta Estrela D'Alva. Como cresceu nos "rolês com grafite e rap" ao lado do pai, Mel se destacou no slam por seu ritmo.

Walter Craveiro/Divulgação
29.jun.2016 - Poeta Mel Duarte participa do sarau de abertura da Flip 2016 Imagem: Walter Craveiro/Divulgação

Visibilidade e ataques

A popularidade dá a Mel os dois lados da moeda. De um lado, ela recebe inúmeras mensagens de meninas que se sentem incentivadas por sua poesia. "Eu já recebi cada mensagem forte. De menina que diz que parou de alisar o cabelo depois de ler minha poesia. A gente não tem noção do poder das palavras, de como a gente atinge as pessoas, principalmente nessa geração".

Do outro lado estão os haters, comuns entre os que falam de feminismo, mas, segundo Mel, o retorno negativo não chega aos pés do positivo. "É muito doido receber ataques pessoais. O que é que incomoda? É porque é uma mina preta falando essas coisas? Nunca ninguém veio falar na minha cara as coisas que chegam pela internet. O dia em que isso acontecer, vou aplaudir e falar: 'agora sim, vamos conversar'. Mas a real é que o retorno positivo é sempre maior que o negativo". E as críticas podem parar Mel? Não, de jeito nenhum "Não dá para não falar mais sobre machismo, racismo, estupro. Não da mais para ficar quieta".

Negra nua crua
Autora: Mel Duarte
Editora: ljumaa
Número de páginas: 76
Arte gráfica por: Nina Viera
Fotografia por: Muriel Xavier
Valor: R$ 20,00
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