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Grafiteiro troca "glamour" das capas de disco por projeto social no Haiti

Bruno Santos/Divulgação
Ricardo Tatoo (ao centro) posa com grafite e crianças de orfanato em Porto Príncipe Imagem: Bruno Santos/Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

29/07/2016 06h00

Autor de capas de discos de Ratos de Porão e CPM 22 e com trabalhos expostos no Brasil e Europa, o grafiteiro paulistano Ricardo Tatoo, 44 anos, entrou em uma sinuca de bico em 2006, quando ainda morava em Belo Horizonte.

Demitido do emprego de diretor de arte, ele decidiu deixar o "glamour" do mundo da música para investir em oficinas e palestras educativas pelo Brasil. Hoje, abraçando uma causa ainda mais nobre, ele está com as malas prontas para o Haiti.

Lá, ao lado dos também artistas Catarina Gushiken e Claldinei Calvento, ele vai ensinar por meio da arte noções básicas de saúde e cidadania a cerca de 230 crianças e adolescentes órfãos do país, que vivem em condições precárias de habitação e saneamento.

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Oficina de estamparia no Haiti Imagem: Bruno Santos/Divulgação

A ideia do projeto, que mudou a vida do ex-tatuador, é "unir imagem e mensagem”. “Vamos passar 20 dias lá em quatro orfanatos e no Centro Cultural Brasil Haiti. Será um trabalho de intercâmbio cultural e de arte como instrumento de transformação social”, adianta Tatoo, que seguirá em em outubro para a sua segunda missão no país, em parceria com a ONG Anmoue. A primeira aconteceu no ano passado.

Com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,483, o Haiti é o mais pobre das Américas. Não bastassem a falta de bens básicos e as condições sanitárias precárias, há ainda o risco iminente de epidemias. Todos os anos, centenas de pessoas morrem vítimas de cólera e tuberculose. E é aí que entra o projeto.

“Vamos colorir os muros dos locais fazendo painéis para valorizar a higiene do banho, ensinando a lavar as mãos antes de comer, a fazer xixi no lugar certo, a tampar tambores de água que eles usam para captação da chuva, a jogar lixo no lixo. Enfim, não é só arte ou entretenimento.”

Os desafios da empreitada, que é voluntária, são incontáveis. A começar pelo financiamento, de R$ 41.200, que está sendo feito via crowdfunding. Em quatro semanas de campanha, apenas R$ 900 foram levantados pelo grupo. Caso não conseguia chegar o valor, Tatoo diz que irá bancar o projeto do próprio bolso, do dinheiro que tira com seu estúdio de arte em São Paulo.

Na bagagem, eles levarão ao Haiti dois filtros portáteis do projeto internacional Waves for Water, que conseguiram por meio de parcerias, além de 300 estamparias de camisetas que serão produzidas e distribuídas à população local.

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Tatoo (à dir.) posa ao lado de jovem em sua primeira missão no Haiti, em 2015 Imagem: Bruno Santos/Divulgação

Fantasma do terremoto

As tintas para os grafites, conta Ricardo Tatoo, pioneiro da técnica “stencil-graffiti” no Brasil, serão compradas no próprio Haiti. Apesar de não haver eletricidade nem água potável em vários locais da capital Porto Príncipe, não é difícil adquirir materiais de construção por lá, onde o fantasma do terremoto de 2010 ainda assusta.

“Para você ter uma ideia, ainda há casas destruídas e, até cem metros de profundidade na terra, há uma quantidade enorme coliformes fecais por causa do terremoto. Também tem muitas larvas de mosquitos. É tudo muito precário. Toda ajuda é bem-vinda”, conta o grafiteiro.

A ideia é que conhecimento seja absorvido e repassado para futuras gerações de haitianos. “Num orfanato de cultura vodu chamado Especiale Coupe du Mounde, eles não têm nem poço, fosso, banheiro nem sala de aula. Os quartos são ‘daquele jeito’. E ainda há risco de despejo”, lamenta.

“Agora, um dos orfanatos fez uma horta com apoio de US$ 2.000 da [ONG] Anmoue, com a ajuda de um americano que vive por lá na manutenção. Já é uma ajuda. Mas é sempre complicado. Como ensinar a lavar as mãos e xixi no lugar certo se nem há nem banheiro nem água?”

Apesar de todas as dificuldades, Tatoo diz que o retorno recebido na primeira missão é o que o motiva a não esmorecer "na batalha". “É emocionante. Eles estão perguntando sobre mim. Faço trabalhos desde 1993, com crianças soropositivas e com paralisa cerebral. Mas com a arte não saio abalado, só enriquecido. Não pratico caridade. Ensino as crianças e elas me ensinam também.”

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Crianças haitianas ficam entretidas com formas criadas pelo grafiteiro Imagem: Bruno Santos/Divulgação

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