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Literatura animal: pesquisadora revê o papel dos bichos em grandes livros

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em Paraty (RJ)

03/07/2016 07h00

Baleia, de “Vidas Secas”, Ulisses, de “Quase de Verdade”, a barata de “A Metamorfose”, o Jaguar que dá nome ao famoso poema de Ted Hugues e os bois de Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade estão entre os animais de "estimação" de Maria Esther Maciel. Professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais, ela analisa em “Literatura e Animalidade" a maneira com que os bichos vêm sendo retratados na literatura nos últimos dois séculos.

Partindo de ideias como a do filósofo Michel de Montaigne, que no século 16 já colocava em xeque a suposta superioridade dos seres humanos sobre os bichos, Maria Esther debruçou-se sobre escritos do século 20 e 21, nos quais animais aparecem como personagens. Autores como Franz Kafka, Jorge Luis Borges, J. M. Coetzee, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade também a ajudaram a entender a questão da animalidade na arte.

Em conversa com o UOL, a acadêmica que integra a programação da Flip deste ano explica que esses escritos retratam o "salto da história natural para as questões éticas e políticas que envolvem os animais", diz ela que, nos estudos, percebeu uma grande ocorrência de cachorros, gatos, bois, onças, tigres e falcões nas obras analisadas.

Para Maria Esther, essa presença do animal na literatura contribui para o debate a respeito da ética animal por conta da sensibilidade atrelada à arte. “O Guimarães Rosa dizia: 'amar os animais é um aprendizado de humanidade’'. Para mim ele é o maior escritor animalista, não faz discurso militante a respeito dos bichos, mas os representa de uma forma que ensina muito sobre eles. Infantilizar os animais, aliás, é algo horrível, é desrespeitar a própria animalidade, não reconhecer a singularidade e as capacidades dos próprios bichos”.

E se, para Rosa, amar os animais era um aprendizado de humanidade, foi no contato com os bichos que a autora se apaixonou por eles. Quando criança, viveu por um tempo na fazenda do pai e lá conviveu com bois, porcos, cães, galinhas, passarinhos… E com Zeca, um porquinho-da-índia de estimação que vivia solto pelo lugar, sempre a seguindo por onde ia. "Eu tinha uma relação até de cumplicidade com esses animais, gostava muito mesmo de estar entre eles".

O que levou Maria Esther a aprofundar seus estudos na área foi a curiosidade com relação aos bichos. "Sempre quis entender o enigma que é o animal, que é um sujeito que pensa, sente, tem medo e até mesmo sonhos. O que me moveu foi mesmo o afeto". E justamente quando estava prestes a lançar a obra, perdeu a sua última companheira canina. "A Lalinha morreu bem no dia em que o livro saiu da gráfica", lamenta a pesquisadora.

Apesar desse relacionamento com os bichos, Maria Esther rejeita o título de militante das causas animais. Diz-se parcialmente vegetariana – como peixe e frango caipira, que não passa pela vida sob tortura dos frangos de grandes granjas – e acredita que o mais importante é discutir a responsabilidade e a ética relacionada às criaturas.

Além de “Literatura e Animalidade”, a autora já havia passado pelo assunto ao organizar o livro "Pensar/Escrever o Animal: Ensaios de Zoopoética". A pedido do UOL, Maria Esther faz, abaixo, uma breve análise de alguns dos bichos mais famosos da literatura nacional e universal, com ilustrações criadas especialmente pelo quadrinista Fernando Gonsales. 

A vira-lata Baleia, de "Vidas Secas"

Fernando Gonsales/UOL
Imagem: Fernando Gonsales/UOL

"É uma personagem consistente, que exerce um papel central dentro da família de retirantes e, por extensão, na própria narrativa. Por isso mesmo, a crítica tende a considerá-la um animal humanizado. Minha visão é outra, pois não creio que as qualidades apresentadas por ela sejam atributos exclusivos dos humanos e, portanto, impróprias quando usadas para descrever um animal. Baleia é um sujeito animal, com sua maneira própria de sentir, agir, sonhar e até pensar. É certo que, em relação aos personagens do romance, a humanidade de um se confunde com a animalidade do outro, independentemente da espécie a que pertencem. Mas Graciliano Ramos, ao construir a personagem, mostrou que conhecia muito bem os cachorros."

Os bois de Guimarães e Drummond

Fernando Gonsales/UOL
Imagem: Fernando Gonsales/UOL

"Os bois de Guimarães Rosa compõem com os homens uma espécie de comunidade híbrida. Humanos e animais convivem numa troca de experiências, afetos, conflitos e interesses. Os bois, nos seus livros, têm um saber próprio sobre a vida que eles compartilham com a espécie humana. Carlos Drummond de Andrade também dá ao boi, no poema "Um boi vê os homens", um papel de sujeito capaz de pensar o mundo e ter uma visão própria sobre os humanos."

A barata de Kafka

Fernando Gonsales/UOL
Imagem: Fernando Gonsales/UOL

"A barata de "A Metamorfose", de Franz Kafka, é um marco da "zooliteratura" do século 20. Já não se trata mais da metamorfose clássica: Gregor Samsa se transforma numa barata, mas não deixa de se manter homem. Ele vive a condição paradoxal de humano e não humano, ao mesmo tempo. E é essa situação absurda que revela a dimensão animal do humano e evidencia as formas híbridas de existência."

Ulisses, de Clarice

Fernando Gonsales/UOL
Imagem: Fernando Gonsales/UOL

"Ulisses foi o cão de Clarice Lispector e aparece como personagem/narrador do livro infantil "Quase de Verdade". Ele "late" a história em primeira pessoa e a escritora "traduz" os latidos em linguagem humana. É um recurso muito inventivo, que torna possível a "fala" canina, sem que ela seja totalmente humanizada. Nesse sentido, ela não se rende ao antropomorfismo que predomina na 'literatura animal'."

O Jaguar, de Ted Hughes

Fernando Gonsales/UOL
Imagem: Fernando Gonsales/UOL

"No poema "O jaguar", de Ted Hugues, o jaguar enjaulado não está ali para representar todos os jaguares enjaulados do mundo, mas sustenta sua perturbadora singularidade enquanto fera que desafia o nosso poder de compreensão."

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