Entretenimento

De estreia tensa a Cupido, jornalista relata 15 anos de amizade com Tunga

Lucrecia Zappi

Colaboração para o UOL

07/06/2016 15h51

Tunga fumava debruçado na varanda ampla da sua casa, rodeado por um verde denso da Mata Atlântica e o som retorcido de pássaros e insetos. Testou o peso das redes encharcadas e virou-se, alegre e decisivo. "Caiu até anjo hoje."

Era a primeira vez que eu entrava em sua casa, na estrada do Joá, zona Sul do Rio, e naquele instante nada me pareceu mais natural do que a imagem de anjos despencando do alto dos andaimes do céu depois de uma chuva forte. E não queria perder o fio da conversa que mal tinha começado. Estava, afinal, diante de um grande artista, cuja fama se dividia entre genial e genioso. Concordei, enquanto testava meu gravadorzinho prateado, com adesivo da "Folha de S. Paulo", pouco à vontade, na sua sala.

"Para de gravar!" A ordem caiu como um raio. "Tunga, desculpe, mas eu vou gravar. É uma questão ética do jornal. Mesmo que não fosse por isso, você não gostaria que metade da nossa conversa ficasse esquecida, não?" Tunga apagou o cigarro para acender outro. "A gente nunca esquece o que é realmente importante."

Nossa conversa prosseguiu, gravador na mão. Tunga falava sem parar, ajeitando os objetos por onde passava, e essa reorganização espacial constante era incorporada a referências científicas, filosóficas, musicais, da literatura. Uma bengala apoiada a uma mesinha tripé, por exemplo, mais do que uma referência a um bicho ou um ajuste formal, nas mãos do Tunga o objeto transcendia a sua ordem.

Era como se pertencesse a um mundo anterior ao nosso, um mundo que não se constrói por modelos oficiais, mas por livres associações. Tornava-se uma descoisa, ganhava um sentido novo, com linguagem e vida próprias, sugerindo a possibilidade de uma mudança perpétua nas suas justaposições. Para citar um de seus escritores favoritos, Alejo Carpentier, "tudo se metamorfoseava, regressando à condição primeira". De fato, o barro voltou ao barro, deixando um campo aberto, neste caso um campo experimental no lugar da sua casa.

Folhapress
O artista Tunga em seu ateliê, no Rio, fotografado em 1997 Imagem: Folhapress
Eu o seguia, preocupada em registrar tudo com os olhos, os ouvidos e o tal gravador. Foi uma das entrevistas mais marcantes da minha vida. Não só porque, para o meu desespero completo, no dia seguinte percebi que o maldito aparelho não tinha registrado nada, mas porque estava diante de um homem que avivava tudo de um modo intuitivo, correlacionando ideias para repensar códigos universais de um modo original, e divertido até, permeado de humor negro.

No seu jardim, o inanimado se "mimetizava" nos galhos das árvores. Eram bichos de resina brincando de estátua ao lado de um papagaio que falava mais que o Tunga e de cacatuas barulhentas. Lembro de um gato preto no sofá. Não era empalhado como outros animais que vi por ali, mas quase. Aproximei-me de um labrador imóvel, deitado no chão. "Tutu", Tunga chamou. O bicho, para meu alívio, abanou o rabo.

A conversa naquela manhã, há mais de 15 anos, foi o início de uma longa amizade, que se seguiu até esta segunda-feira (6), data de sua morte, com inúmeras visitas à sua casa e ao seu ateliê, também por ali, na estrada do Joá. Em outra ocasião, Tunga me apresentou ao Lawrence, seu galerista em Nova York, o qual veio a se tornar meu marido.

Tunga não tinha nada de Cupido. Ou foi o Cupido mais malicioso, intempestivo e com modos de dandy que já conheci, vestindo ternos de cores intensas como o da sua obra-prima feita em 1997, "True Rouge", bem alinhados ao seu corpo magro, sempre com uma postura impecável de bailarino. Aliás não andava. Flutuava. Seus passos não se ouviam. 

Das últimas vezes em que estive no seu ateliê era meu aniversário. Tunga fazia testes com cerâmica. Entre diversas esculturinhas que descansavam sobre uma estante, que eram fragmentos do corpo humano, escolheu uma língua. "Toma, pra você, a palavra", ele disse, bem-humorado. Ele ainda não sabia que tinha câncer na garganta, e que a sua própria fala ficaria comprometida nas últimas semanas de vida.

Também antes de ser diagnosticado, começou a trabalhar em uma instalação de sons. Cerâmicas cônicas, que lembram sinos, de onde saem gravações ou se pode enfiar a cabeça e soltar a própria voz diante de um microfone instalado dentro. De um deles saíam uivos de lobos. De um outro vinha uma voz demoníaca sussurrada, que segundo o Tunga era uma gravação original de um programa antigo de rádio, de uma criança médium falando.

"A gente acha que as coisas chegam de surpresa, mas no fundo a gente sempre sabe de tudo. Está tudo no nosso subconsciente. Olha o que eu estava fazendo, sem saber que estava doente." Tunga apontou para a instalação sonora. O som dos lobos misturados à voz da criança eram nauseantes. "Vai, entra aí, fala alguma coisa."

Gabi Carrera
A instalação sonora "Delivered in Voices", um dos últimos trabalhos de Tunga Imagem: Gabi Carrera

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