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Curte o desenho "Hora de Aventura"? Você precisa conhecer James Kochalka

Divulgação/Mino
Página da HQ "Fungos", de James Kochalka, lançada no Brasil pela editora Mino Imagem: Divulgação/Mino

Ramon Vitral

Colaboração para o UOL

2016-05-31T07:00:00

31/05/2016 07h00

Um dos mais influentes autores indies de HQs nos Estados Unidos, James Kochalka começou a chamar atenção para o seu trabalho no final dos anos 90. Na época, ele resolveu inovar e publicou suas obras de graça na internet. Dentre seus poucos mas fiéis leitores, estava um jovem estudante de artes chamando Pendleton Ward. Ainda aspirante a animador, Ward viria a se tornar o criador do desenho animado "Hora de Aventura" e nunca escondeu que o trabalho de Kochalka foi uma de suas principais fontes de inspiração.

"Ele costumava me enviar cartas logo que entrou na faculdade. Definitivamente vejo o meu estilo presente no trabalho dele e em ‘Hora de Aventura’. Me sinto orgulhoso por ter influenciado outras pessoas, mesmo que isso não tenha trazido muito retorno financeiro", afirma Kochalka, que, com atraso, tem seu trabalho publicado pela primeira vez no Brasil apenas este ano - uma de suas obras mais recentes, "Fungos" chegou às livrarias e lojas especializadas nesta semana. Publicado pela editora Mino, o gibi é protagonizado por dois fungos existencialistas que refletem sobre religião, quadrinhos, internet e a vida enquanto caminham por um pântano. O clima nonsense da HQ ecoa as aventuras malucas vividas por Finn e Jake no desenho animado de autoria do aprendiz de Kochalka.

Apesar de seu traço infantil e dos diálogos ingênuos de seus personagens, Kochalka criou uma HQ com múltiplas possibilidades de interpretação, com piadas e nuances compreensíveis em função da faixa etária e da vivência de cada leitor. "A maioria das pessoas tem uma compreensão mínima do mundo em que vivemos. Queria alguns personagens com uma compreensão ainda mais limitada. Eles falam sobre filosofia e tecnologia como se entendessem plenamente desses temas, mas com certeza não é o que acontece", explica o quadrinista.

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Metalinguagem, ciência e filosofia: Baixinho e Grandão, personagens da HQ "Fungos" Imagem: Divulgação/Mino
Para produzir as 144 páginas do álbum, Kochalka investigou a fundo seus personagens. "Fiz uma pesquisa de campo em alguns lagos sazonais do Maine, formados quando a neve derrete e as folhas do outono agem como uma espécie de forro que sela o chão e impede que a água desapareça pelo solo. São ambientes que podem existir ao longo de meses e abrigar várias criaturas, como sapos e salamandras. É como uma festa gigante, bem barulhenta, mas assim que você chega perto eles ficam quietos. É muito divertido imaginar o que pode estar rolando por lá enquanto não estamos presentes.”

Apesar de manter o mesmo estilo bem-humorado de seus trabalhos prévios, "Fungos" não é autobiográfico como a série mais famosa de Kochalka, "American Elf", publicada na internet entre outubro de 1998 e dezembro de 2012. Posteriormente impressa, a série foi encerrada ainda no auge de sua popularidade, assim como fez Bill Watterson com "Calvin e Haroldo" e Jerry Seinfeld com seu programa de TV. Ainda não muito bem aceito pelos fãs do quadrinho, o término permitiu que o quadrinista investisse ainda mais em suas outras áreas de atuação.

Com a banda de rock James Kochalka Superstar o artista já gravou nove discos, um deles com a participação do músico Moby. Ele dirigiu e ilustrou a versão animada de sua HQ "SuperF*ckers", com 12 episódios disponíveis na íntegra no YouTube. Em 2014 ele lançou um jogo de computador financiado coletivamente na internet batizado de "Glorkian Warrior: Trials of Glork". E quando o assunto é quadrinho, foi ao menos um lançamento por ano ao longo das últimas duas décadas.

"Mesmo assim não dou conta de todas as minhas ideias. Tenho muita curiosidade artística, há muitas coisas que quero tentar", afirma Kochalka. Questionado em relação às suas fontes de inspiração, ele diz: "Todo trabalho criativo tem origem em um mesmo impulso. Imaginação, curiosidade, ambição e necessidade de explorar e tentar dar sentido ao mundo ao meu redor… são essas coisas que impulsionam todos os meus empreendimentos artísticos."

Aos 48 anos e pai de dois filhos, o quadrinista fala por experiência própria sobre as muitas mudanças que a indústria cultural passou ao longo dos últimos anos, relacionadas principalmente à forma como as pessoas consomem arte: "Na música, ninguém mais quer pagar por discos. Isso é um problema porque música ainda custa muito dinheiro para ser gravada, caso você queira utilizar um estúdio profissional. Eu amo estúdios de gravação, mas eles não são mais justificáveis financeiramente. Para usar um estúdio eu precisaria estar ok com o fato de que sairia no prejuízo. Outro dia recebi o pagamento por um determinado período em que a minha canção "Hockey Monkey" tocou cerca de 50 mil vezes no Spotify, acho que me pagaram 12 cents."

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Capa da HQ "Fungos", do norte-americano James Kochalka Imagem: Divulgação/Mino
Ainda assim, Kochalka diz não ver motivos para lamentos. "É assim que o mundo funciona, não posso ficar reclamando. Há uma explosão criativa em andamento. Todo mundo, em todos os lugares, está produzindo conteúdo e compartilhando com outras pessoas. Isso é bastante inspirador em termos criativos." Em relação à indústria de quadrinhos, na qual ele já é visto como um veterano, o autor é ainda mais otimista quando analisa os últimos 20 anos.

"As mulheres se tornaram uma força incrível. Hoje elas dominam as listas de best-sellers e as premiações. Outra coisa: quadrinistas indie costumavam ser uns obsessivos meio esquisitos. Agora eles tendem a ser normais, como qualquer outra pessoa", garante Kochalka.

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