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"O grande trunfo da Virada é ela acontecer neste momento", diz Maria Gadú

Ivo Gonzalez/UOL
Imagem: Ivo Gonzalez/UOL

Guilherme Bryan

Colaboração para o UOL

20/05/2016 07h00

Num ano marcado pela crise econômica e política, em que o país discute se governo e cultura devem andar de mãos dadas ou romper de vez a relação, a cidade de São Paulo realiza sua 12ª Virada Cultural a partir desta sexta-feira (20). Ao custo total de R$ 15 milhões, o evento espalha até domingo 700 atrações culturais por toda a capital, entre shows de artistas consagrados, como Ney Matogrosso, Alcione e Mano Brown, e apresentações de teatro, dança e artes plásticas. Tudo grátis.

A missão de selecionar os artistas entre os mais de 16 mil inscritos neste ano coube a um time de curadores encabeçado pela cantora Maria Gadú, que trabalhou para contornar a limitação de verbas - R$ 1 milhão a menos que em 2015 - e o fantasma da violência urbana que marcou as últimas edições da Virada.

A solução, conta Gadú, foi diminuir a quantidade de palcos no centro, espalhando atrações pela cidade inteira - zonas Leste, Oeste, Norte e Sul. "Se você tira palcos do centro, parece que a Virada acabou. E não é isso. Acho que o grande trunfo é ela acontecer neste momento. Ela existir."

Confira a seguir trechos da entrevista em que Gadú comenta os critérios de seleção para a Virada, destaca o papel dos artistas e do poder público em levar arte de graça à população e explica que, por razões éticas, não se escalou para se apresentar em nenhum dos palcos.

UOL - Quais foram os desafios de se fazer a Virada Cultural em 2016, um ano turbulento em termos econômicos e políticos?

Maria Gadú - Foram vários desafios, embrionários inclusive, como a questão da verba. Tinha uma verba que eu não considero pouca, pois é válida quando é revertida para algo que é bacana. O lance da Cracolândia também nos fez tomar alguns cuidados. Tivemos que diminuir o número de palcos no centro, porque a polícia alertou sobre o perigo das ruas de uma forma geral e do aumento da violência urbana. Também não deixamos de ouvir tal pessoa porque esse ano não tem verba. Tudo foi negociado. As pessoas estão tocando porque elas querem. Essa é a parte mais legal. E aí eu acho que mora o que vai acontecer: essa é a virada das pessoas que estão ali realmente se apresentando em prol de uma cultura que seja difundida entre as pessoas de uma forma gratuita. Essa crise que está acontecendo de uma forma generalizada estimula as pessoas a conseguirem realizar coisas com um senso social maior.

Qual é a importância da Virada Cultural?

A Virada Cultural é a espinha dorsal agora que se está discutindo a relevância, irrelevância ou priorização da cultura, com esse lance da [fusão da] pasta do ministério da Cultura com o da Educação. Nós, artistas que produzimos, somos instrumentos da cultura, no sentido de levar esse conteúdo gratuitamente para a população. Eu acho que a importância da Virada e desse tipo de evento é tirar a arte das mãos do entretenimento e do comércio. Ali a gente não está comercializando arte, mas proporcionando uma experiência artística, cultural, folclórica, que não abrange só música, mas dança, artes plásticas, enfim. E é absolutamente acessível, que é o que eu acho que é a espinha dorsal do que a arte tem de ser.

Quais são as diferenças desta edição para as anteriores?

A violência urbana coagiu um pouco a liberdade de você estar na rua a noite inteira e isso resultou na diminuição da quantidade de palcos no centro, mas, ao mesmo tempo, tem muita coisa rolando em centros culturais da cidade inteira: zonas Leste, Oeste, Sul e Norte. Está todo mundo contemplado. Todos os centros que puderam se inscrever estão com coisas legais rolando. Não é que diminuiu, mas é que todo mundo fica muito com o foco no centro. Então, se tira palcos do centro, parece que a virada acabou (risos). E não é isso. Acho que o grande trunfo é ela acontecer neste momento. Ela existir.

Como foi o convite para ser curadora da Virada Cultural e o que a fez aceitar?

Eu recebi o convite do Nabil Bonduki, secretário municipal de Cultura. Ele soube de alguns trabalhos que eu estava fazendo de curadoria de projeto social, como um para arrecadar fundos para o pessoal de Mariana (MG). E eu achei demais, principalmente por se tratar de um evento aberto para a população.


O que faz uma curadora da Virada Cultural?

A secretaria abre as inscrições, as pessoas se inscrevem dentro do prazo e, dentre os inscritos, a gente seleciona qual será a programação dos palcos espalhados pela cidade. Neste ano, foram 16 mil inscrições, das quais 8 mil na área da música, e destas alojamos em 700 atrações. Então passei esse tempo ouvindo bastante coisa. São vários palcos. Então tem um lado da periferia, do centro, outro mais regional. E aí a gente faz essa seleção do que funciona e do que é legal. 
 

Quais foram os seus critérios de seleção?

Foram vários critérios. É claro que você tem que pensar em pessoas que já têm uma notoriedade e chamam público. Isso dentro do rap, do samba, do forró e da música contemporânea de uma forma geral. E, depois, coisas novas da região que se encaixam ali e que já estão se movimentando nas redes sociais e fazendo seus projetos andarem com as próprias pernas.

Quais são alguns artistas que você ajudou a selecionar?

As decisões são coletivas. A gente trabalhava em dez pessoas, incluindo [os cantores] Felipe Cordeiro e Anastácia, e todo mundo votava. Mas posso citar o nome da Duda Brack, (cantora gaúcha) que é hipercontemporânea. Ela lançou um disco há muito pouco tempo e vai participar da Virada. Mas, no geral, todo mundo tinha que ouvir as mesmas coisas e o senso crítico era muito parecido. Não sei de alguma coisa especial que alguém trouxe. É claro que a Anastácia cuidou de um lado mais de forró, até pela expertise dela, mas de um modo geral todo mundo ali integrou um grupo.

Por que você não se apresentará na Virada Cultural de São Paulo, uma vez que se apresentou na Virada do interior e do litoral?

Não estou porque não posso. Eu vou me escalar? Simples assim. Seria absurdo. Nem queria. É claro que quando você organiza uma coisa, quando é convidado para participar de uma gestão, o interessante é, inclusive, assistir. Você fica preocupado, querendo que tudo dê certo. Como você vira estrela da sua própria invenção? É foda. Não tem como.

Quais são as principais razões para existir uma secretaria ou um ministério da Cultura?

A cultura é uma fatia da existência, como a saúde e a educação. A cultura é a memória da gente, de quem nós somos, do que fizemos, por que agimos dessa forma. Isso está explícito em cada tipo de população. Você reconhece na população ao lado. Então é preciso haver um ministério que cuide para que isso não seja esquecido e seja, inclusive, germinado e bem cuidado pelas novas gerações. Eventos como a Virada Cultural é que justificam, inclusive, a existência. Você vê palcos que foram pensados para traduzir a nossa identidade para as novas e antigas gerações. É claro que eu sou contra a extinção. Se a pasta da Educação não dá conta dela, dará da Cultura? É difícil. São coisas muito, muito, muito entrelaçadas, mas que têm demandas muito grandes. O MEC já não deu certo. Se tivesse dado certo, não teria sido extirpado antes.

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