Livros e HQs

Coleção Vaga-Lume ainda rende milhares de reais para alguns de seus autores

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Capas dos livros "O Escaravelho do Diabo", "A Turma da Rua Quinze" e "Deu a Louca no Tempo", da Coleção Vaga-Lume Imagem: Reprodução

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/04/2016 06h00

Mais de 8 milhões de exemplares. É esse o expressivo número de livros que a Coleção Vaga-Lume já vendeu. Responsável por marcar gerações de crianças, jovens e adultos, a série está novamente em destaque graças à adaptação cinematográfica de "O Escaravelho do Diabo", livro de Lúcia Machado de Almeida, publicado em 1972. A obra pontuou o início da coleção lançada pela editora Ática e que, atualmente, após fusões de empresas, pertence à Somos Educação.

E mesmo que um de seus títulos mais famosos não estivesse virando filme, o protagonismo da Vaga-Lume continuaria existindo. Hoje, seu catálogo ativo tem 54 títulos, das mais de cem obras que publicou ao longo do tempo, e seu filhote luminoso, a Vaga-Lume Júnior, criada na década de 1990, possui 20 volumes. Parte deles --a editora prefere não divulgar quais-- ainda é adotada em escolas públicas de todas as esferas governamentais, a pedido dos próprios professores, e nas particulares.

Buscando continuar em sintonia com o público jovem, e por ocasião dos 50 anos da casa editorial, em 2015 foram relançados dez títulos do catálogo, com novo projeto gráfico, capa que brilha no escuro e mascote, o vaga-lume Luminoso, repaginado.

Livros continuam rendendo aos autores

Dentre as obras que foram lançadas repaginadas no ano passado estão o próprio "O Escaravelho do Diabo" e "Deu a Louca no Tempo", de Marcelo Duarte, escritor que também publicou pela coleção os livros "Jogo Sujo", "O Ladrão de Sorrisos", "Tem Lagartixa no Computador" e "Meu Outro Eu". Juntos, até dezembro de 2015, venderam 249 mil exemplares. Segundo o autor, esses trabalhos lhe rendem, em direitos autorais, em média R$ 2 mil por mês, e "nos meses em que há adoção pelas escolas, o valor é maior", explica.

Patricia Stavis/Folha Imagem
O jornalista, escritor e roteirista Marçal Aquino Imagem: Patricia Stavis/Folha Imagem

Outro nome conhecido que teve obras publicadas na Vaga-Lume é Marçal Aquino. "Como os livros tinham tiragens e vendas altas, renderam e continuam rendendo direitos até hoje, quase 30 anos depois de lançados, caso do 'A Turma da Rua 15'. Mas estou impedido, por contrato, de divulgar esses valores", diz ele sobre as vendas. "Não tenho os números de venda dos meus livros. O que posso afirmar é que são números altíssimos, na casa das centenas de milhares, impensáveis se comparados à literatura adulta".

Além de "A Turma da Rua 15", também são de Aquino "O Jogo do Camaleão", "O Mistério da Cidade Fantasma" e "O Primeiro Amor e Outros Perigos", que proporcionaram ao escritor uma experiência singular. "A Vaga-Lume tem vários significados para mim, como o desafio de ter escrito especificamente para o público juvenil e o fato de ter recebido uma calorosa acolhida. Mas talvez a coisa mais relevante seja outra, que comprova a importância da coleção na formação de leitores: invariavelmente, em eventos de que participo, até hoje é grande a presença de pessoas que descobriram meu trabalho via Vaga-Lume e passaram a ler meus livros adultos depois que cresceram".

Aquino também se lembra da diferença desses trabalhos para os que vieram depois, como "O Invasor" e "Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios". "Acho que, afora o prazer e a responsabilidade de escrever para jovens, que estão se aproximando da literatura pela primeira vez, foi um grande aprendizado. Impossível de ser repetido na literatura adulta, já que, no caso dos livros juvenis, você já sabe durante o processo de escrita a quem se destinam e qual a faixa etária, por exemplo".

Mas um título publicado pela coleção não significa ter uma renda permanente para o resto da vida, vale frisar. Rubens Francisco Lucchetti, por exemplo, é o autor de "O Fantasma de Tio William", publicado em 1992 e reeditado em 2005, cujas vendas alcançaram os cem mil exemplares. Apesar do número expressivo, a obra não ganhou reimpressões e os direitos autorais pagos pelos volumes vendidos cessaram, evidentemente.

"O livro está totalmente esgotado e recebo diariamente cartas e mensagens de pessoas interessadas em saber onde poderiam encontrá-lo", conta o escritor. "É uma história que não envelheceu. Está tão atual quanto na época em que a escrevi. Está entre os livros de que mais gosto. Daria para fazer uma nova edição. Tenho, inclusive, um distrato do livro. Estou, no momento, à procura de uma nova editora para ele". 

Fábrica de obras memoráveis

Lembrando da narrativa que acaba de estrear no cinema, Lidiane Olo, diretora editorial da Somos Educação, diz que "O Escaravelho do Diabo" é uma história com "pitadas de suspense, emoção, aventura, personagens cativantes. E boas histórias são atemporais, ultrapassam décadas, como é o caso de toda a coleção Vaga-Lume, que marcou gerações por mais de 40 anos, descartando modismos. E esse é um dos grandes méritos e prazeres da literatura, a capacidade de transpor aparentes limitações".

Até hoje, a obra mais vendida da coleção é "A Ilha Perdida", de Maria José Dupré --a quantidade de exemplares comercializados é outra informação que a editora não divulga. Alguns outros nomes também chamam atenção quando as planilhas são encaradas, como a própria Lúcia Machado de Almeira --que, além de "O Escaravelho do Diabo", escreveu "O Caso da Borboleta Atíra", "Spharion", "As Aventuras de Xisto", "Xisto e o Pássaro Cósmico" e "Xisto no Espaço"--, e Marcos Rey, autor de 15 títulos da série, dentre eles os célebres "O Mistério do Cinco Estrelas", "Um Cadáver Ouve Rádio" e "O Rapto do Garoto de Ouro".

"A Vaga-Lume publica títulos memoráveis, obras que contribuíram para revolucionar a literatura infantojuvenil, trazendo contribuições até os dias de hoje", diz Lidiane. Sobre a recente repaginação pela qual alguns títulos passaram, ela diz que "a proposta é despertar e promover no público juvenil o gosto, o prazer pela leitura. A Vaga-Lume é nossa missão, nossa história".

Atores não leram "O Escaravelho do Diabo" para versão no cinema

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