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Com carisma e versão de Xuxa, haitianos contornam falhas em "Cidade Vodu"

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/03/2016 11h46

A aguardada estreia da peça "Cidade Vodu" na 3ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), na noite desta segunda (7), foi marcada por falhas técnicas que prejudicaram a compreensão total da obra pelos espectadores. Por outro lado, os imigrantes haitianos presentes na peça salvaram a primeira sessão com alta dose de carisma.

A peça foi apresentada na Vila Itororó, remanescente arquitetônico de casas construídas no começo do século 20, no bairro da Bela Vista, região central paulistana. As ruínas dialogaram com as histórias de um povo que viu seu país desabar em um terrível tremor de terra. De forma itinerante, o público acompanhou cenas que se intercalaram pelo local.

A montagem do grupo paulistano Teatro de Narradores, sob direção de José Fernando de Azevedo, fala sobre a imigração de haitianos para o Brasil após o terremoto que destruiu o país caribenho em 2010.

Como boa parte da peça é falada em francês pelos próprios imigrantes haitianos convidados, a projeção das legendas é imprescindível para que o público acompanhe seus discursos. Contudo, na estreia, os projetores falharam na maior parte do tempo.

Também houve falhas nas caixas de som e nos microfones, necessários devido à distância entre público e atores. Diante das adversidades, a forte presença cênica e musical do elenco haitiano segurou a obra.

Bob Marley e Xuxa

Diante das falhas técnicas, mesmo não dominando completamente o português, os haitianos dialogaram com o público e até convidaram todos a cantar "No Woman no Cry", sucesso do jamaicano Bob Marley, no que foram prontamente atendidos pelos espectadores.

Uma das principais figuras da peça é a haitiana Roselaure Jeanty, que sonha em conseguir um dia terminar no Brasil o curso de medicina que começou na República Dominicana. Na obra, ela lembrou que a presença militar da ONU (Organização das Nações Unidas) não é bem vista por seus compatriotas por conta de muitos abusos cometidos pelos militares.

É dela uma das cenas mais emblemáticas da peça. Após a projeção de um vídeo no qual militares brasileiros obrigam crianças haitianas a cantar a música "Abecedário da Xuxa", Jeanty surgiu num longo corredor cantando a mesma canção, mas com uma expressão de pavor e revolta, causando grande impacto no público.

Divulgação
A atriz haitiana Roselaure Jeanty canta durante a confraternização com o público na Vila Itororó, em SP, na estreia da obra na MITsp Imagem: Divulgação

Sopa haitiana

Outro ponto forte da peça foi o momento de confraternização, no qual o público foi conduzido a mesinhas ao ar livre, nas quais bebeu cuba libre e comeu a tradicional sopa com a qual os haitianos celebram o Ano-Novo, a Soup Joumou, feita com abóbora, batata, carne e legumes. Tudo ao som de música ao vivo feita pelos haitianos.

"Compartilhar a comida é algo muito forte. Vocês até usam os ingredientes de nossa sopa Joumou, mas a maneira que a gente prepara é diferente", disse Jeanty à reportagem.

"Esta sopa representa muito para nós. Depois de nossa independência, passamos a tomar essa sopa, porque os brancos pensavam que quem tomava essa sopa era só gente fina. E nós passamos a tomar também para provar que nós podemos. Sempre tomamos nos dias 1º e 2 de janeiro essa sopa lá no Haiti. Mesmo agora fora do país eu faço também", explicou a jovem atriz haitiana.

Conhecendo os haitianos

Para Jeanty, a grande força da peça é expor quem os haitianos são. "Os refugiados vieram após o terremoto e os brasileiros não sabem muito quem nós somos. Por meio deste teatro, queremos compartilhar quem somos e de onde viemos, para que os brasileiros possam conhecer os haitianos".

Ao fim da peça, o cineasta haitiano Patrick Dieudonne, integrante do elenco, declarou: "Estar em um espaço diferente para nós não muda nada. O local nos ajudou a amplificar a cena. Os percursos que o público fez são parecidos a muitos percursos que fizemos para sair do Haiti. Fizemos sequências paralelas à nossa história".

O músico Joel Aurilien, que conta na montagem ter perdido sua família no terremoto haitiano, disse que a peça "foi uma nova experiência em sua vida". "O recado que a gente tem é que somos humanos, somos irmãos. A gente pode viver nesta terra juntos. Não tem questão de cor, de ser negro, de ser branco. Temos pontos que são os mesmos: o sangue, a vida, a humanidade".

Combate à xenofobia

E o público parece ter entendido o recado. A espectadora Bruna Pessoa, arte-educadora, definiu a peça como "inesperada". Em sua visão, "a participação dos haitianos foi o melhor da obra". Sobre as falhas técnicas, declarou: "Acho que os erros foram por conta da estreia, mas achei muito válida a peça".

Sua colega, a também arte-educadora Maíra Sciuto falou que "o tema é essencial de ser tratado". "É uma narrativa que tem uma potência muito forte. Entendi mais como uma vivência do que uma peça, foi um mergulho", disse. E elogiou a sopa. "A comida estava incrível. O cardápio está aprovado".

O ator Bruno Lourenço, que foi assistir à obra com as duas, lembrou que o brasileiro trata de forma diferente o imigrante europeu e norte-americano em relação aos imigrantes latino-americanos e, sobretudo, os haitianos, que são negros. "Há uma ideia racista no Brasil de que imigrante bom é só aquele que vem para embranquecer o país", declarou.

Para ele, "Cidade Vodu" discute "questões não só raciais como também combate a xenofobia no Brasil contra os imigrantes". Na visão de Lourenço, "é importante dar voz a estas pessoas, é um espetáculo de resistência".

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