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"100% São Paulo" vira espelho da metrópole no palco do Teatro Municipal

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

07/03/2016 12h27

Uma radiografia da maior cidade do país em seu palco mais emblemático. Este é o objetivo do espetáculo "100% São Paulo", que estreou neste domingo (6) e é apresentada pela última vez nesta segunda (7), às 20h, no Teatro Municipal de São Paulo, dentro da programação da 3ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). O evento vai até o dia 13 de março, com dez espetáculos ao todo, oito internacionais.

O projeto "100% City" é da companhia alemã Rimini Protokoll, que existe desde 2002 sob direção de Helgard Haug, Stefan Kaegi e Daniel Wetzel. A ideia criada em 2008 já foi encenada em cidades como Berlim, Zurique, Londres, Paris, Melbourne e Tóquio. O objetivo é fazer uma radiografia demográfica e estatística da cidade visitada e apresentá-la aos habitantes.

Para dar vida ao formato, os alemães sempre colocam no palco cem moradores da cidade, respeitando a proporção exata dos índices demográficos das mesmas. Na coprodução com o Brasil, a seleção deste elenco nos últimos três meses ficou a cargo da pesquisadora e coordenadora de produção Claudia Burbulhan .

Burbulhan disse que percebeu "que não existe uma identidade coletiva, algo único que defina essa população, mas sim pessoas bem diferentes umas das outras, que, nas suas particularidades, formam esse universo, esse agrupamento gigantesco de aproximadamente 11,2 milhões de habitantes".

Expectativa

Antes de a peça começar, o público esperava ver no palco a anunciada diversidade. "É uma São Paulo multifacetada, uma São Paulo do modernismo, de Oswald de Andrade, de Mário de Andrade, uma São Paulo do pós-guerra, do pós-escravidão, pós-política do café com leite", definiu o escritor Paulo Lins, autor do livro "Cidade de Deus", convidado pela MITsp a analisar a obra.

Na fileira ao lado, a aposentada Olga Chaves estava acompanhada do filho, o estudante Mateus Futada. Ela contou à reportagem que chegou à peça por indicação da filha, a professora de teatro Paula Futada. "Ela me falou que seria muito interessante e comprou os ingressos para nós".

Sentado logo atrás, o diretor do Tusp, o Teatro da USP (Universidade de São Paulo), Ferdinando Martins, definiu a proposta do espetáculo: "É um teatro em um eixo expandido. Porque é teatro e ao mesmo tempo não é. Tem um pé no documentário, tem um pé no teatro, mas na verdade são pessoas de fato no palco. Se formos pensar na origem da palavra teatro, teatro é o lugar no qual a gente observa, então aqui a gente está tendo uma grande observação do que é esta cidade na qual a gente vive".

Na primeira fila, o executivo Clayton Fernandes dos Santos ficou atraído pela peça ser "diversa e experimental", e lembrou a relevância de ser no Municipal, "lugar fenomenal", e possibilitar "entender de um ponto de vista visual essa representação estatística da cidade". Sua mulher, a estudante Thaís Nakamura dos Santos, contou que "ficou curiosa por não ser uma direção brasileira". "É uma visão de fora, que pode nos surpreender, o olhar do outro é mais crítico e pode mostrar coisas que a gente não enxerga", declarou.

Aplausos e vaias

Assim que a peça começou, no palco os cem participantes primeiro se apresentaram, contando algumas de suas características principais. Depois, com um telão ao fundo servindo de base, eles compunham gráficos diante das perguntas que lhes iam sendo feitas por eles mesmos, num primeiro momento, e depois por questões escritas no telão.

Selecionados para ser um retrato fiel das estatísticas, os participantes têm idade, sexo, local de residência, estado civil e cor equivalentes aos da população real paulistana, fazendo no palco um panorama vivo da cidade.

Tal diversidade populacional foi encarada ora com aplausos, hora com vaias pelo público presente no Municipal, sobretudo diante de questões polêmicas, como as ciclovias, a homossexualidade e a religião. A plateia, muitas vezes, parecia mais progressista que os participantes no palco. Um espectador gritou: "Cadê as trans?", referindo-se à falta de uma representante transexual no grupo.

No prólogo, a produção explicou que parcelas da população que não chegam a 1% não foram representadas — por isso também não havia indígenas, segundo a produção.

Trem das Onze

Ao fim, apesar de todas as diferenças explicitadas, os participantes terminaram a performance dançando "Trem das Onze", emblemático samba de Adoniran Barbosa que foi cantado por Cellia Nascimento, acompanhada de músicos que atuam no Teat(r)o Oficina. Todos sambaram juntos, enquanto o público aplaudia e cantava também, num clima descontraído.

Na saída, o estudante de artes dramáticas Gabriel Teixeira se mostrava satisfeito. "Achei interessante o fato de nenhum deles ser ator ou atriz. A peça conseguiu mostrar que em São Paulo as pessoas são muito diferentes. Não fiquei surpreso".

O estudante de publicidade Bruno Machado contou que ficou interessado na representação viva dos dados: "Como vou ser publicitário, gosto de estudos de demografia e que mostram os interesses do público. Vi isso de uma forma real, mostrando que a população de São Paulo é divergente e variada".

Emoção

Os participantes da obra estavam emocionados ao descer do palco. Caso da professora aposentada Suely Aparecida Leme, que confessou à reportagem estar com o "coração disparado". E explicou o porquê: "O mais importante foi que consegui falar algo que nunca tinha admitido antes: que meu filho era homossexual e HIV positivo. E eu admiti isso perante todo o público. Foi a primeira vez que fiz isso. Estou muito emocionada", balbuciou.

Sua colega de cena, a gestora ambiental Michelle Torres Crispim avaliou que cresceu como cidadã. "É um grupo heterogêneo. Então, às vezes você não concorda com algo que foi colocado, mas foi um exercício de democracia conviver com opiniões distintas das minhas e respeitá-las". 

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