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Editoras enfrentam a crise com cortes, tiragens menores e planejamento

Raquel Cunha/Folhapress
Visitantes na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2014, que tem nova edição este ano e é um dos eventos que pode contribuir para combater a crise Imagem: Raquel Cunha/Folhapress

Rodrigo Casarin

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/03/2016 15h52

A má fase econômica que o país atravessa já chegou também ao mercado editorial. Uma pesquisa encomendada pelo Sindicado Nacional dos Editores de Livros apontou que o faturamento do setor teve queda real (após descontar a inflação) de cerca de 7% no ano passado. E as previsões para 2016 não são nem um pouco animadoras. Órgãos financeiros indicam que a inflação deve ficar acima de 7% e o FMI (Fundo Monetário Internacional) aposta que a economia brasileira encolherá 3,5%.

Não bastasse, o governo, seja em escala federal, estadual ou municipal, vem anunciando sucessivamente cortes na área de cultura, o que atinge diretamente empresários que, em muitos casos, têm nesse tipo de negócio a sua principal fonte de renda. O tempo é de recessão, não há dúvidas. Como, então, as editoras nacionais vêm se preparando para enfrentar tal cenário?

As respostas, bem como as preocupações, são diversas. Há aqueles que seguirão tocando o barco na mesma toada ou com um vigor ainda maior, publicando mais livros. Há quem trabalhará para que os casos de inadimplência sejam sanados e enxugando os custos fixos. E há quem repensará a forma de adquirir direitos de publicações estrangeiras por conta da desvalorização do real frente a moedas como o euro, a libra e, principalmente, o dólar.

Alta do dólar

A Record é uma representante dessa última categoria. Segundo Sônia Jardim, vice-presidente do grupo, a alta da moeda norte-americana é um dos fatores que impacta diretamente no planejamento da editora, que deverá adotar uma postura mais conservadora em 2016. “Acredito que os leilões acirrados para compra de direitos autorais, que nos últimos anos se elevaram barbaramente no mercado brasileiro, devem retornar a patamares mais adequados à realidade do mercado nacional”, diz.

Sônia explica que a estratégia de sua editora para o ano é a mesma adotada por empresas de diversos setores da economia: buscar a eficiência maximizando os resultados e reduzindo os recursos e, talvez, aumentar o preço de seus produtos para o consumidor. O volume de lançamentos, no entanto, deverá ser mantido: tal qual em 2015, pretendem colocar cerca de 10 novos títulos por semana nas livrarias.

Outro que está lidando com a desvalorização do real é Gianluca Giurlando, publisher da Rádio Londres, editora que nasceu em 2015 justamente com o objetivo de publicar ficção internacional. “Nossa estratégia é planejar com muita antecedência tanto as aquisições de livros novos quanto os lançamentos, para minimizar o impacto da flutuação de câmbio. Do ponto de vista de nossas escolhas editoriais, a linha vai continuar a mesma: acreditamos que a melhor forma para enfrentar a crise é apostar em literatura de alta qualidade. Experiências do passado ensinam que a literatura de qualidade pode vender bem mesmo durante um período de crise econômica”, diz.

Inadimplência

Já o Grupo Autêntica tem uma previsão otimista para este ano: almejam resultados semelhantes aos de 2015, quando tiveram um crescimento de 45%. Para tal, investimentos em lançamentos e aquisições de novos autores nacionais e internacionais se manterão no mesmo patamar. No entanto, Judith de Almeida, gerente de vendas de varejo do grupo, revela uma outra preocupação: a inadimplência. “Em tempos de vendas menores, isso afeta primeiro as livrarias independentes, os clientes que têm menos fôlego. Neste sentido, nosso departamento financeiro está acompanhando mais de perto as concessões de crédito e negociando com quem está precisando prorrogar boletos para evitar calotes. No campo interno, a editora ajustou mais ainda seus custos fixos, cortou algumas gorduras para conviver com fluxo de caixa mais apertado, mas não cortou pessoal”, garante.

A inadimplência também perturba o sono de Marcelo Nocelli, editor da Reformatório. Ele relata que o número de calotes vêm aumentando principalmente com relação aos livros comercializados por livrarias e distribuidores, o que, somado à queda nas vendas, o leva a uma situação na qual é inevitável não pensar nos cortes de custos. “A dificuldade no mercado editorial e gráfico vem se intensificando desde o início dos anos 2000, desde a internet. A crise atual veio como epílogo desta longa e sofrida história. Inicialmente, nossa saída será publicar menos, reduzir as tiragens de primeiras edições, e para possíveis segundas edições ou reimpressões, trabalhar com impressão sob demanda”, conta.

Essa redução não deverá ser pequena. Em 2013, quando a Reformatório nasceu, a editora publicou 5 livros e, em 2014, dez, volume que era suficiente para que tivesse uma saúde financeira estável. Em 2015 deram um grande salto: criaram novos selos, lançaram 30 títulos e tiveram um péssimo retorno. “O resultado foi desastroso, fechamos o ano com o triplo de títulos e, proporcionalmente, de problemas”, relata Nocelli.

Para reequilibrar os números, além de enxugar os lançamentos, a editora focará nas vendas por meio de suas lojas virtuais e em feiras literárias, saraus e palestras, onde podem comercializar os livros diretamente com os consumidores, sem que haja as intermediações de livrarias ou distribuidores – que ficam com até 60% do preço de capa das obras. “Vendendo diretamente ao leitor, podemos oferecer bons descontos e o risco de calote é zero”, explica o editor.

Crise para um setor “sempre em crise”

Mas há quem olhe de uma maneira diferente para este momento. É o caso de Flávia Iriarte, editora da Oito e Meio. Ela acredita que o setor editorial nacional já vivia em crise há muito por conta de deficiências estruturais. “O grande problema é que o mercado editorial brasileiro, em sua maior parte, sempre dependeu do governo; e quem não depende do governo é porque sustenta um esquema semelhante ao mecenato, como era o caso da Cosac Naify. Portanto, não acredito que haja uma postura a ser modificada para este ano. Tento levar adiante o projeto que iniciei desde que fundei a editora, que envolve encontrar maneiras de fazer um negócio sustentável explorando demandas alternativas em potencial”, diz.

Para Flávia, é urgente a necessidade de se criar um cenário editorial de maior corpo, menos dependente das verbas públicas e que privilegie, sobretudo, a formação de leitores. “Um mercado de livros em um país em que o consumo de livros é pífio, como é o caso do nosso --m que a cultura audiovisual tem uma predominância massacrante comparada ao hábito da leitura, em que as políticas de investimento em educação e cultura são historicamente problemáticas--, já é um mercado em crise desde sempre. Pode ser que o mercado automobilístico ou petroleiro esteja experimentando uma crise agora. Mas, para nós, a crise é desde sempre. O que acontece agora é que o momento que estamos vivendo expõe radicalmente os problemas reais do nosso mercado”.

Sem crise

Quem, no entanto, ainda não sentiu os efeitos da economia do país é Eduardo Lacerda, editor da Patuá, apesar de já ter notado o aumento de alguns custos, como do papel e da impressão dos livros, intempéries com as quais, a seu ver, os empresários precisam mesmo lidar.

Com uma estrutura já enxuta –ou seja, com gastos fixos reduzidos–, Lacerda planeja neste ano aumentar o número de títulos lançados, bem como as tiragens, e investir mais no acabamento dos livros e na distribuição, apostando que a oferta mais ampla possa aumentar a demanda do público. Outra fonte de renda que pode ajudar a editora caso a situação aperte é o Patuscada, bar e livraria que abriu recentemente para abrigar os lançamentos, eventos e vender livros da Patuá e de algumas outras editoras.

Além disso, Lacerda acredita que a maneira de se encarar o momento também pode ser decisiva. “Tenho certeza que o problema é mais ‘psicológico’ do que real, muitos autores perguntam se é um bom ano para lançar um livro, se a crise influenciará… Acho que essas inseguranças é que acabam gerando um impacto real”.

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