Livros e HQs

HQs brasileiras chegam em massa ao mercado europeu após prêmio em Angoulême

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Marcello Quintanilha: melhor HQ policial em Angoulême por "Tungstênio" Imagem: Divulgação

Ramon Vitral

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/02/2016 07h00

Após anos centrando esforços na milionária indústria de quadrinhos dos Estados Unidos, os autores brasileiros estão mais reconhecidos e interessados do que nunca no ainda pouco explorado e tradicional mercado europeu de HQs. Em março, a coleção "Romance Gráfico Brasileiro", da editora portuguesa Polvo, ganha seu 12º volume. Dentre os títulos da série está o aclamado "Tungstênio", obra de Marcello Quintanilha premiada com o troféu de melhor HQ policial na mais recente edição do Festival de Angoulême, na França, a mais tradicional premiação de quadrinhos do mundo.

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Capa de "Tungstênio", lançado na Europa pela editora portuguesa Polvo Imagem: Reprodução

Idealizador e responsável pela coleção "Romance Gráfico Brasileiro", iniciada em 2013, o editor português Rui Brito diz que a presença intensa de elementos da cultura brasileira somada a tramas universais e estilos variados é o que há de melhor na leva mais recente de quadrinhos produzidos no Brasil. "É um momento caracterizado por uma notável explosão criativa nos quadrinhos brasileiros. Um dos elementos comuns ligando quase todos os títulos que publiquei é a brasilidade. Outro, é a diversidade de estilos", analisa o editor.

Título brasileiro mais premiado e elogiado pela crítica especializada nos últimos anos, "Tungstênio" saiu em Portugal e na França em 2015, logo após o lançamento do livro no Brasil. Quintanilha diz acreditar que, além da efervescência atual da produção brasileira de quadrinhos, há uma predisposição dos editores europeus à pluralidade de suas publicações. "Eles sempre estiveram abertos à diversidade de propostas apresentadas. Desenhistas de diferentes nacionalidades sempre estiveram presentes nos grandes mercados. É provável que a diversidade de nacionalidades se torne ainda maior".

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Edição portuguesa de "Klaus", do quadrinista Felipe Nunes Imagem: Reprodução

Um paulista, uma carioca

Com previsão de lançamento em março em Portugal, "Klaus" será o mais novo lançamento da coleção da editora Polvo. De autoria do quadrinista paulistano Felipe Nunes, o álbum foi publicado no Brasil em novembro de 2014 e deu ao autor o Troféu HQMix 2015 de Novo Talento Desenhista. "Não fiz o quadrinho pensando em ser publicado fora do Brasil. Até por ter sido meu primeiro livro, tinha anseio de fazer para sair aqui, para que todo mundo pudesse ver e eu mostrasse a minha cara", explica Nunes.

No final de 2015 ele lançou seu segundo título, o também elogiado "Dodô", já tendo em mente a possibilidade de ver seu trabalho chegar na Europa. "Ano passado fiz um esforço de traduzir os dois livros e imprimi algumas cópias para presentear autores gringos que visitaram o país em convenções. Também tenho tentado expandir meus contatos com outros quadrinistas de fora e feito algumas conversas sobre sair por lá. Acho que tem muita gente com potencial de ser publicado fora do mercado nacional".

Atualmente morando na França, em Angoulême, onde frequenta uma residência artística na qual está realizando uma HQ autobiográfica sobre seus anos como estudante de medicina, a quadrinista carioca Cynthia Bonacossa tem convivido diariamente com artistas de outras nacionalidades e conversado com frequência com editores franceses. Segundo ela, a receptividade a trabalhos vindos do Brasil não é distinta do fascínio por títulos de quaisquer outros países, mas há fatores que podem gerar interesse.

"Tem algumas editoras mais francófonas, que só publicam coisas francesas, e outras mais abertas. Os franceses são bem abertos a conhecer a arte de outros lugares. Eles têm curiosidade. Histórias mais roots, como as de subúrbio do Quintanilha, talvez cativem um pouco mais, por serem mais exóticas para os leitores daqui. Talvez sejam temáticas que aticem a curiosidade deles, algo parecido com o interesse de 'Cidade de Deus', não tão urbanas e autobiográficas", explica a autora. Ainda assim, Cynthia reitera que conversou com editores locais que mostram interesse em sua HQ, mesmo ela não contendo características e elementos da ideia francesa considerados típicos do Brasil.

Interesse pelos brasileiros

Dono da editora Veneta, editor original de "Tungstênio" no Brasil e responsável por outros títulos brasileiros sendo exportados para a Europa, Rogério de Campos vê um padrão no sucesso de algumas obras nacionais que recentemente chegaram nos tradicionais mercados de quadrinhos de França e Portugal. "O Quintanilha está conquistando as coisas dentro dos termos dele, com o desenho dele, as histórias dele, as idéias dele. Não está adaptando isso e aquilo para se adequar ao mercado internacional. Quando descobriram o 'Cumbe', de Marcelo D'Salete, esse interesse aumentou ainda mais. O sucesso surpreendente de 'Zumbis Para Colorir', de Juscelino Neco --cujos direitos foram adquiridos por editoras da França, Itália, Portugal, Finlândia, Taiwan e EUA-- também ajudou".

Na avaliação de Rogério de Campos, a agitação do mercado nacional de quadrinhos, a qualidade crescente do que tem sido publicado no Brasil e o interesse europeu nas obras brasileiras são elementos já notados há muito tempo pelos autores daqui. A importância maior da premiação de Quintanilha em Angoulême e a chegada cada vez mais constante de títulos brasileiros no continente europeu servem principalmente para chamar atenção do público para o momento extraordinário dos quadrinhos brasileiros. "Fora do Brasil, o interesse pelo quadrinho brasileiro de autor já é bem grande. E o prêmio de Angoulême talvez seja mais importante para o mercado editorial e a mídia brasileira perceberem a importância que os quadrinhos brasileiros adquiriram nesses últimos anos".

Adriana Terra/UOL
Os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon Imagem: Adriana Terra/UOL

Mão de obra para americanos

Quadrinistas brasileiros mais premiados nos Estados Unidos, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá também já viram seus títulos publicados diversas vezes em mais de um mercado europeu. "O mercado americano já está acostumado com a presença de artistas brasileiros que desenham diversos quadrinhos americanos, na maioria das vezes para as grandes editoras, mas também espalhados por outras em gêneros e produções variadas", diz Moon. "Aos poucos, um ou outro autor consegue espaço para contar umas histórias, mas para isso é necessário o conhecimento da língua inglesa, se sua história não for muda".

Moon afirma que, na Europa, não existe a tradição de artistas brasileiros servindo de 'mão de obra', por isso a oferta e a procura são menores. "Ao mesmo tempo, o mais importante para as editoras europeias é elas gostarem do seu trabalho e acreditarem no que você quer fazer, e não existe uma resistência tão grande a quadrinhos que não foram criados na língua local. Você não precisa escrever seu quadrinho em francês para publicar na França".

Para Bá, a realidade atual dos meios de comunicação facilita a chegada de quadrinhos brasileiros não só na Europa, mas em todo o mundo. "O mercado de quadrinhos hoje em dia é muito mais globalizado do que quando nós começamos, a internet diminui muito as distâncias entre os mercados e entre as pessoas, e isso facilita a receptividade de obras brasileiras no exterior e vice-versa. Os formatos de publicação não são mais tão rígidos. Os temas, o público, tudo ficou mais maleável e mais abrangente, e isso favorece novas vozes, novos olhares".

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Capa de "Bulldogma", de Wagner Willian, que sai em março no Brasil Imagem: Reprodução

Toda essa receptividade gera situações inesperadas, mas não raras, como a das quadrinistas Julia Bax e Amanda Grazini, que ilustraram o álbum "Pink Daiquiri", lançado na França em 2013 pela tradicional editora Le Lombard. No entanto, o quadrinho continua inédito no Brasil. Em breve, Julia publicará na França um projeto em parceria com o roteirista francês Antoine Ozanam, que também não tem previsão de ganhar uma edição em português. Bax vê um padrão no conteúdo dos títulos brasileiros ou com a presença de artistas nacionais lançados principalmente em Portugal e na França.

"São livros com foco em personagens, em situações da vida cotidiana. Ainda não exportamos, por exemplo, material de gênero, como ficção científica e ficção histórica, que se consome bastante na França. Imagino que isso deve mudar com a expansão da produção nacional e naturalmente termos uma bibliografia mais variada", opina a artista.

Ainda inédito e com previsão de lançamento em março, o álbum "Bulldogma" (Veneta) do quadrinista Wagner Willian mantém o aspecto cotidiano citado por Bax, mas investe em situações misteriosas como uma possível conspiração alienígena em uma metrópole anônima. Produzido ao longo de dois anos e com mais de 300 páginas, o quadrinho foi elaborado por seu autor já tendo em vista sua possível chegada não apenas em mercados estrangeiros como também em outras mídias, como uma possível adaptação para o cinema.

"Se o mercado franco-belga se dispôs a reconhecer um título brasileiro e a premiá-lo, significa que Quintanilha fez um trabalho extraordinário. O Festival de Angoulême é uma grande referência mundial. Isso pode ajudar a avançarmos pelo continente europeu, a conseguirmos projeção internacional de tabela e, segundo reza a lenda, pagamento adiantado. Se me sinto estimulado ao ver títulos brasileiros lançados na Europa e um deles sendo reconhecido em uma premiação como Angoulême? Oui, mon ami".

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