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Terceira MITsp discute racismo com espetáculos da Europa e da África

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

17/02/2016 06h00

Em um antigo casarão na região central paulistana funciona o QG da 3ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp, que será realizada entre 4 e 13 de março em nove espaços. Ao todo, 120 profissionais diretos e cerca de 400 indiretos estão sob comando dos idealizadores e curadores Antônio Araújo e Guilherme Marques, ambos mineiros radicados em São Paulo. O primeiro é diretor do Teatro da Vertigem, e o segundo é produtor cultural.

Criada em 2014, a MITsp se inspirou nos festivais promovidos por Ruth Escobar décadas atrás e logo se tornou sucesso de crítica e de público, com 17 mil espectadores em 2015 e expectativa de aumento.

Racismo, negro e imigrante

Com foco nas possibilidades da narratividade, a MITsp abarca este ano um assunto polêmico e atualíssimo: o racismo e o preconceito contra o imigrante. A temática sobreposta está na peça nacional que o Teatro de Narradores, dirigido pelo paulistano José Fernando de Azevedo, estreia no evento: "Cidade Vodu". A montagem investiga como os brasileiros recebem os imigrantes negros haitianos, com estes últimos no palco.

A questão racial também aparece em dois representantes africanos que participam mostra. 

Faustin Linyekula traz do Congo o seu Studios Kabako para apresentar a coreografia "A Carga", inspirada na história congolesa. "O Congo teve um sanguinário processo de escravização", lembra Araújo, que considera Linyekula "o maior coreógrafo do continente africano". A encenação, com características híbridas, marca o reencontro de Linyekula com seu povo, após viver na Europa.

Também eclética é a obra sul-africana "Revolting Music - Inventário das Canções de Protesto que Libertaram a África do Sul", do músico e performer Neo Muyanga. "São músicas que lutaram contra o Apartheid", conta Araújo sobre a peça, de forte viés político.

Teatro Municipal e europeus

Também emblemática é a ocupação pela primeira vez do Teatro Municipal de São Paulo pela MITsp. "Para nós, é uma vitória", define Marques.

"100% São Paulo", projeto vindo da Alemanha com os diretores Helgard Haug, Daniel Wetzel e Stefan Kaegi, da companhia berlinense Rimini Protokoll, vai colocar no palco do Municipal cem paulistanos não-atores, representando os moradores da metrópole, como já feito em outras 23 cidades do mundo. "É um gesto simbólico e político abrir o palco mais tradicional da cidade para cem habitantes falarem sobre ela", diz Araújo.

O diretor artístico também conta que conseguiu concretizar pelo menos um sonho antigo nesta 3ª MITsp: trazer ao Brasil o diretor francês Joël Pommerat, que se apresenta no evento com dois trabalhos: "Ça Ira", um ficção inspirada na Revolução Francesa, e a versão dele para "Cinderela", dos irmãos Grimm, com o Teatro Nacional da Bélgica --a primeira peça da MITsp voltada ao público infanto-juvenil.

"Pommerat é um dos grandes nomes da cena contemporânea", afirma Araújo. Da Bélgica, vem também "An Old Monk", de Josse De Pauw e Kris Defoort, que discute o envelhecimento.

O grupo polonês Nowy apresenta "(A)polônia", que faz uma mistura de textos para refletir sobre o horror do Holocausto na Segunda Guerra Mundial. "O diretor Krzysztof Warlikowski aborda esse tema delicado do século 20", diz Araújo.

O grego Dimitris Papaioannou, diretor e multiartista que dirigiu a abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004 e ganhou elogios rasgados do diretor norte-americano Bob Wilson, apresenta a peça "Natureza Morta", que colocará o dedo na ferida do trabalho convencional contemporâneo. "O Dimitris tem uma pegada imagética forte. As obras dele são repletas de força plástica", adianta Araújo.

Por fim, a outra estreia nacional é "A Tragédia Latino-Americana", na qual o diretor carioca Felipe Hirsch se debruça sobre autores latino-americanos, compondo um mosaico de pequenas narrativas.

Crise e cortes

Por conta da crise econômica, com a elevação do dólar e do euro, Araújo e Marques precisaram recalcular os gastos. Inicialmente previsto para ter 20 espetáculos, dos quais 15 seriam internacionais, a 3ª MITsp terminou com 10 peças, sendo duas brasileiras.

Segundo os organizadores, o orçamento de 2016 é de R$ 3,44 milhões, dos quais 55% são verba pública e 45% dinheiro da iniciativa privada. O número é um pouco maior do que os R$ 3,27 milhões de 2015 (70% de verba pública e 30% de dinheiro privado) e os R$ 2,8 milhões de 2014 (total de verba pública). Mas os diretores do festival dizem que isso não significa mais dinheiro na prática.

"Apesar de parecer que o orçamento cresceu, sofremos uma variação cambial de 42% no período, além de a carga tributária chegar a 43% ", explica Marques. O corte "foi um exercício dolorido", como define Araújo, mas necessário, já que muitos grupos viajam com até 40 integrantes.

No exercício de subtração, uma região ficou de fora da programação: a América Latina. "Tomamos esta decisão porque, no fim do ano passado, houve a Ocupação Mirada do Sesc, com peças latinas, a 10ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, feita pela Cooperativa Paulista de Teatro, e a 2ª Bienal da USP, com várias peças da região", explica Marques.

Somadas às duas produções brasileiras, as oito internacionais representam países da Europa e África: França, Polônia, África do Sul, Grécia, Bélgica, Congo e Alemanha --a maioria só permaneceu porque teve apoio de instituições ou das embaixadas de seus países.

Para além do palco, a MITsp promove atividades formativas e inaugura neste ano um ponto de encontro entre artistas e público após as peças: o Cabaret MITsp, que funcionará durante o festival no Centro Compartilhado de Criação (CCC), galpão na Barra Funda, com bar e pista de dança, que promete varar a madrugada. Afinal, teatro combina com festa.

Para mais informações sobre a MITsp: http://mitsp.org/2016/

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