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"Ser ator foi uma extensão do intérprete que já era na música", diz Miklos

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/01/2016 06h00

Quinze anos depois de estrear como ator no filme "O Invasor", de Beto Brant, o roqueiro Paulo Miklos, da banda Titãs, assume novo desafio: transformar-se em ator de teatro, interpretando o lendário músico de jazz Chet Baker (1929-1988) na peça "Chet Baker - Apenas um Sopro". A obra estreia nesta quarta (20), no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

O roqueiro tem passado com o teatro. Chegou a atuar na adolescência, mas a música falou mais alto. "Foi a música que me aproximou das pessoas, me deu amigos", explica. Logo, a paixão desembocou na banda Titãs, um dos maiores ícones do rock brasileiro surgido na década de 1980. "Sempre fui muito provocador com o público no palco, sempre fui um pouco histriônico nos shows e busquei a câmera nos videoclipes. Ser ator foi uma extensão do intérprete que já era na música", avalia.

Foi após perceber isso ao dirigir três clipes do Titãs que o cineasta Beto Brant resolveu convidar Miklos para fazer o filme "O Invasor", que acabou lhe abrindo portas no mundo do cinema. Já o convite para o teatro partiu do diretor José Roberto Jardim, no fim do ano passado. Era desejado há tempos. "Sempre que me perguntavam qual desafio eu queria, respondia que era fazer teatro. De alguma forma, comecei a chamar isso para mim", entrega o cantor.

"Estou pegando gosto pelo teatro, sentindo uma satisfação artística nova, igual quando fiz cinema pela primeira vez", diz Miklos. Tal qual um adolescente, o músico de 56 anos parece empolgado. "Estar no teatro é fantástico. E faço um personagem incrível, com uma carga dramática muito grande e uma experiência e vida que conheço bem, por ser músico", afirma.

Situações conhecidas

Drama não falta à trajetória de Chet Baker. A ação da peça criada pelo dramaturgo Sérgio Roveri parte de uma situação conhecida da vida do músico norte-americano: a gravação de um disco, justamente depois que o trompetista leva uma surra de traficantes e perde boa parte dos dentes, o que provoca dúvidas se voltaria a tocar bem.

Aliás, Baker já havia tido um problema dentário na adolescência, quando tomou uma pedrada que lhe quebrou um dente da frente, o que fez com que desenvolvesse sua forma virtuosa de tocar o trompete. Reconhecido mundialmente ainda jovem, o talento do músico precisou conviver com sua dependência à heroína, colecionando overdoses — uma delas em São Paulo, em 1985 — e recaídas ao longo da vida, até sua misteriosa morte, ao cair de uma janela de hotel em Amsterdã, em 13 de maio de 1988.

Miklos parece compreender as dificuldades de Baker: "O Chet é uma figura muito intensa. Viveu a armadilha do talento, do sucesso, quando você tem todo mundo em volta te adulando. Isso cria uma autoconfiança que beira a prepotência. O envolvimento com o alcoolismo e as drogas é quase que uma automedicação para esta depressão. A peça mostra um momento bastante agudo da situação do Chet, sempre entre a vida e a morte", resume.

Atores e músicos

Miklos é tão curioso musicalmente quanto Baker. "Meu instrumento principal é a voz, mas com o Titãs pude tocar saxofone, banjo, gaita, baixo, teclado e hoje eu toco guitarra. A banda me deu oportunidade de discutir música, criar arranjos".

A peça idealizada pelo produtor Fábio Santana se ambienta em um ensaio para a gravação de um disco de jazz, no qual a apreensão é grande sobre a volta de Baker à música após a briga com os traficantes. "No palco, somos uma banda de velhos conhecidos no estúdio. São situações que conheço muito bem e isso me facilita", conta Miklos.

O diretor da peça, José Roberto Jardim, cria uma atmosfera densa antes da chegada de Baker ao ensaio, onde dividirá a cena com a cantora (Anna Toledo), o baixista (Jonathas Joba), o pianista (Piero Damiani) e o jovem baterista (Ladislau Kardos). A música é feita ao vivo.

"Todos somos músicos e atores. Alguns mais músicos, outros mais atores. Além de mim, também são músicos estreando no teatro o Piero e o Ladislau. E a Anna e o Joba nos ajudaram muito, são dois pilares para a gente", afirma Miklos.

Camaleão

Miklos vem de um 2015 produtivo e diverso em sua carreira de ator. Fez o curta "Quando Parei de me Preocupar com Canalhas", de Tiago Vieira, no qual é um taxista reacionário e contracena com Matheus Nachtergaele. Também fez o curta "Dá Licença de Contar", de Pedro Serrano, no qual viveu o compositor Adoniran Barbosa. E ainda atuou no longa "Carrossel - O Filme", como vilão. "Agora, a garotada vem me falar que sou malvado", diverte-se, sobre o novo público conquistado — o longa foi visto por mais de 2,5 milhões de espectadores e terá continuação em 2016. "Vou fugir da cadeia e aprontar mais", adianta.

Com tanta diversidade no currículo, Miklos manda um recado para os classificadores de plantão: "Gosto de ser essa coisa inclassificável, difícil de se encaixar em uma prateleira. Não é fácil me colocar em uma gaveta. Eu gosto dessa coisa camaleônica!".

Serviço

"Chet Baker - Apenas um Sopro"
Quando: seg., qua. e qui., às 20h. 80 min. Até 7 de abril de 2016
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil - rua Álvares Penteado, 112, Sé, São Paulo
Informações: 0/xx/11/3113-3651
Quanto:  R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada)
Classificação etária: Não recomendado para menores de 14 anos

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