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Com ou sem famosos, teatro driblou crise de 2015 com improviso e "raça"

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/12/2015 17h03

A crise política e econômica que atormenta o Brasil neste 2015 fez o teatro sentir seus efeitos. Investidores e patrocinadores desapareceram, mesmo com o público ainda presente nas salas de espetáculos, e profissionais das artes cênicas tiveram que se reinventar e aceitar ganhar menos para manter as peças em cartaz.

Em São Paulo, "lugar de maior efervescência da vida teatral no país", como define o crítico e pesquisador de teatro Kil Abreu, mesmo com a crise, o ano foi de forte produção para todos os gostos e bolsos, com ou sem famosos, tanto no mercado comercial, quanto no de musicais, peças experimentais, teatro de grupo e de rua.

Profissionais do teatro ouvidos pelo UOL contam que o dinheiro ficou cada vez mais raro nos últimos 12 meses, obrigando-os a realizar as peças "na raça", a repensar as formas de produção e a realizar promoções para atrair mais público.

Foi assim que em 2015 a cena paulistana viu casa cheia tanto em grandes musicais --como "Mudança de Hábito", "Nine" ou "Nuvem de Lágrimas"--, quanto em espetáculos mais tradicionais --como "Um Bonde Chamado Desejo", que rendeu o APCA (prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor atriz a Maria Luísa Mendonça, ou "Ricardo III", que deu a Gustavo Gasparani o APCA de melhor ator.

Peças de grupo --como "Orgia", do Grupo XIX de Teatro, "Juliette" e "Os 120 Dias de Sodoma", do Satyros, e ainda "Navalha na Carne" e "Mistérios Gozósos", do Oficina--, também conquistaram o público. Mesmo caso de "Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar", dirigida por Rodrigo Spina, com a Cia. Os Barulhentos, eleito melhor espetáculo de 2015 pela APCA.

Divulgação
Os produtores Cláudio Botelho e Charles Möeller Imagem: Divulgação

Cultura dizimada

Mesmo com a "cultura dizimada pela crise", como define Charles Möeller, ele e seu sócio, Claudio Botelho, conhecidos como "reis dos musicais", seguiram firmes, mas precisaram rever contratos. "Abrimos contas, mostramos que precisaríamos trabalhar de outra forma. Todos, sem exceção, vieram trabalhar com a gente nas condições novas. Conseguimos vencer e não deixar de produzir nem estrear espetáculos", explica Botelho.

"Só fica quem é do ramo, quem tem vocação", diz Möeller, lembrando que aventureiros já estão pulando fora do barco teatral. O diretor lembra que conseguiram estrear quatro espetáculos em 2015, entre eles "Kiss me, Kate - O Beijo da Megera" e "Nine - Um Musical Felliniano". "É tudo muito fácil no sucesso. Na crise, você tem que continuar a criar, sem diminuir a qualidade. A gente esteve no front e saiu vitorioso". E avisa que tem vários projetos para 2016.

Botelho também não desanima: "Vamos insistir. Se chegar o momento em que precise fazer mais cortes, ir para o meio da rua, nós vamos, mas não vamos deixar de fazer teatro".

André Stéfano
Ivam Cabral, ator do grupo Os Satyros Imagem: André Stéfano

Cortes por todos os lados

Ivam Cabral, ator do grupo Os Satyros e diretor da SP Escola de Teatro, conta que o grupo "fez malabarismos" para enfrentar a crise, sentida sobretudo a partir do meio do ano. "A arrecadação do segundo semestre é 50% menor do que o obtido no mesmo período de 2014", revela. "Pessoas Perfeitas", espetáculo ganhador do APCA em 2014, viajou pelo interior paulista e para Cuba, como forma de tentar equilibrar as contas. Além disso, promoções ajudaram no processo de resistência.

O Festival Satyrianas, realizado em novembro, também viu o dinheiro sumir. "Vários apoiadores deixaram de apostar no evento", conta Cabral. "Fizemos a Satyrianas com 25% da verba que tivemos ano passado", diz Gustavo Ferreira, diretor do festival. Ele lembra que os artistas não esmoreceram. Prova disso é que o evento repetiu o mesmo público de 60 mil pessoas do ano anterior. "O ponto positivo da crise talvez seja a resistência ", acredita.

Com "cortes de verbas por todos os lados", tanto Ferreira quanto Cabral não enxergam futuro promissor. "Estamos vendo a crise se aprofundar e sabemos que a cultura é a primeira a sofrer", afirma Ferreira. Cabral concorda: "O mais triste é terminar este 2015 sem perspectivas para o futuro, coisa que há muito tempo não acontecia". E completa: artistas "terão de usar do inimaginável" para sobreviver em 2016.

Ronaldo Gutierrez
Fabio Redkowicz e Rodrigo Lombardi em cena de "Urinal, o Musical" Imagem: Ronaldo Gutierrez

Sucesso no meio da crise

Em meio a tantas dificuldades no meio teatral, a história do diretor Zé Henrique de Paula destoa: ele viveu o maior sucesso de público de seu Teatro do Núcleo Experimental com "Urinal, o Musical", que lhe rendeu o APCA de melhor diretor. O êxito só foi possível "graças à garra dos artistas envolvidos", explica.

"Felizmente, a resposta do público pareceu não espelhar a crise e o Núcleo Experimental esteve lotado o ano todo", conta. "Estamos vivendo não só uma crise econômica, como de valores. Nestes momentos, a arte se reinventa e ocupa espaço de protagonismo, com energias renovadoras e de resistência, desbrava cenário hostil e cheio de iminentes retrocessos", discursa.

Paula aponta a organização do Motin (Movimento dos Teatros Independentes da Cidade de São Paulo) como um avanço nessa área. Para ele, o órgão veio representar os pequenos espaços "com força total", na busca de apoio e de diálogo com o poder público.

O crítico Kil Abreu, curador do CCSP (Centro Cultural São Paulo), também é otimista. Ele afirma que a criação do Prêmio Zé Renato, que dá dinheiro para a realização de peças, foi "uma das melhores notícias para os artistas". E também reitera a importância da já existente Lei do Fomento ao Teatro, que dá verba para que grupos realizem suas pesquisas.

Abreu conta que as duas salas do CCSP receberam mais de 20 mil pessoas entre janeiro e setembro de 2015. Em sua visão, é preciso cuidar dos pequenos teatros, muitas vezes fustigados pela especulação imobiliária: "Mais que espaços físicos, são lugares simbólicos do encontro, da prospecção estética, da discussão pública sobre a vida e as pessoas desta época".

Dinheiro do próprio bolso

O produtor Ricardo Grasson conta que viu muitos colegas nos últimos meses investirem do próprio bolso para ver suas peças em cartaz: "A crise nos afetou, mas não nos derrubou". Para manter suas peças, ele contou com "apoio e compreensão de equipes e elencos", que aceitaram ganhar menos.

Em 2015, "ano drástico no setor cultural", como define, produziu cinco peças, entre elas "Mantenha Fora do Alcance do Bebê", vencedor do APCA, com Débora Falabella no elenco.

Para Grasson, a forte dependência do poder público "engessa" a produção teatral. Ele, que acaba de abrir o Centro Compartilhado de Criação ao lado do parceiro Caco Ciocler, não consegue ver boas perspectivas para 2016, "pelo menos no primeiro semestre".

Olhar positivo

Mais otimista é Eloisa Vitz, diretora e atriz do Grupo Gattu, localizado na zona norte paulistana. Ela conseguiu realizar três projetos em 2015: "Estamos deslocados do centro e formando plateia, mesmo com falta de dinheiro", conta.

Apesar dos percalços, ela define 2015 como bom para o Gattu e prefere lançar olhar positivo para o futuro.

"Acredito que 2016 será um ano maravilhoso para o teatro. Tenho grandes perspectivas e sou uma otimista nata. Quem trabalha no teatro está acostumada a desafios. Como diz Aristóteles, todas as coisas tendem para o bem", conclui. 

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