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Desafiando limites, grupo não profissional de dança sobe ao palco do Masp

Raquel Dias/Divulgação
Ensaio do grupo Chega de Saudade comandado pelo coreógrafo Rubens Oliveira Imagem: Raquel Dias/Divulgação

Luna D'Alama

Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/10/2015 14h11

A psiquiatra pernambucana Ana Claudia Melcop, 36, dança desde criança, mas, por conta de uma doença inflamatória do sistema nervoso desenvolvida em 2009, ficou com o lado direito da perna um pouco maior. Há três anos, ela voltou aos palcos e é uma das principais bailarinas do grupo de dança contemporânea Chega de Saudade, formado por 23 dançarinos --21 deles, não profissionais. Com eles, Claudia apresenta entre esta sexta-feira (23) e domingo o espetáculo "Koan", no Auditório do Masp, em São Paulo.

"Fui para os Estados Unidos me tratar e ouvi de médicos americanos que nunca mais voltaria a dançar. Respondi que ainda ia mandar um convite para eles virem me ver. Estou devendo isso agora", diz a psiquiatra. Claudia conta que, apesar de a doença não ter avançado mais, ela tem dificuldades de equilíbrio e precisa de apoio para descer escadas. "Não faço coisas que exigem movimentos muito ágeis, trocas de pernas, giros, saltos. O nosso coreógrafo respeita isso. No começo, eu caía e me machucava muito, hoje já quase nem tropeço, entendo melhor meus limites".

Segundo Claudia, a dança tem sido mais eficiente que a fisioterapia. "Ganhei tônus muscular, alongamento, flexibilidade, percepção corporal. Há dias prazerosos e outros dolorosos, mas faz parte". Este ano, será a quarta apresentação dela com o grupo, formado em 2012. "Minha mãe e minha irmã vêm de Recife. Sonho todo dia com a coreografia. Às vezes dá um pânico, mas a dança é a minha paixão".

De CEO a aprendiz

Composto por bailarinos entre 22 e 52 anos, de diferentes pesos, estaturas e classes sociais, "Koan" tem pouco mais de 1 hora de duração e é dividido em 12 partes, apresentadas de forma contínua. Há danças em duplas, coletivas e um único solo, feito pelo psicanalista e CEO de uma agência de publicidade Ulisses Zamboni, 52, o mais velho da turma.

Chefe de 80 funcionários, Ulisses é novato na dança, atividade à qual se dedica há um ano e meio. "[Na empresa] Eu sei tudo, aqui [na dança] não sei nada. É preciso ter coragem para dançar num teatro com 500 pessoas. Meus colegas de trabalho foram ver a minha estreia nos palcos, no ano passado. Imagina, ver o presidente deles dançar. Todos dizem que a dança me tornou um cara mais calmo, mais humilde, empático".

Ulisses foi ginasta olímpico até os 22 anos e já fez aulas de sapateado. "Vim para a dança contemporânea à procura de questões físicas, mas encontrei as psíquicas, fiz amigos de verdade. Não temos nada em comum, mas a dança nos une. No trabalho você se esconde atrás de um cargo, veste uma carapuça, aqui é você de verdade". Sobre o único solo de "Koan", no qual apresenta uma coreografia sobre a solidão, Ulisses diz que é intimidador, mas útil para seu crescimento pessoal. "É também a réplica da vida de um CEO, que muitas vezes precisa tomar decisões sozinho e tem que ser disciplinado", diz ele, que perdeu 6 kg com os ensaios.

Raquel Dias/Divulgação
O empresário e arquiteto Saulo Abramvezt durante ensaio do Chega de Saudade Imagem: Raquel Dias/Divulgação

A rotina exaustiva de preparo para a apresentação no Masp e dieta equilibrada ajudaram o empresário e arquiteto Saulo Abramvezt, 50, a perder peso: 10 kg só nesta temporada. "A dança me acalma, sempre fui muito ansioso e estressado, perdi cabelo por causa disso, tive duas úlceras. Já fiz terapia, cursos de autoconhecimento, mas nunca me senti tão realizado quanto agora".

Saulo diz que sempre foi um dançarino frustrado --ele levava a irmã às aulas de balé quando era jovem, mas a família judia não o aceitaria nesta área. "Praticava com a minha mãe em bailes e concursos. Em 2005, me matriculei num curso, não aguentava mais malhar, queria ganhar mobilidade. Resolvi minha academia e a terapia no mesmo lugar".

O empresário conta que gosta de dançar com o Chega de Saudade porque a coreografia e a música são pensadas para o corpo de "gente como a gente". "Fiz um solo no ano passado, abrindo o espetáculo com uma dança chamada 'Fé'. Foi um presente e um desafio ao mesmo tempo. O que importa não é o fim, o espetáculo, mas todo o processo de um ano inteiro", diz Saulo, que este ano fará uma coreografia inspirada no butô, uma dança japonesa.

Estreia à francesa

Há cinco anos no Brasil, o diretor financeiro de uma empresa de grande varejo, o francês Guillaume Vinson, 38, começou a dançar em abril pela primeira vez na vida. Nesta semana, fará sua primeira apresentação. "Conheci o grupo por intermédio de amigos, cheguei sem nenhuma pretensão. Vim por curiosidade e achei a dinâmica interessante, gostei da abordagem do professor", afirma ele, que pretende fazer uma estreia low profile.

Segundo o francês, os esportes em geral são mais violentos e demandam muita força, enquanto a dança se preocupa mais com os movimentos, o ritmo, o equilíbrio e o outro. "Não perdi quase nenhum ensaio em seis meses, e trabalho das 7h às 20h. Tem que ter disciplina", ressalta.

O coreógrafo Rubens Oliveira, que está à frente do grupo desde 2012, comanda desta vez a quarta edição de apresentações dos bailarinos, que já dançaram no Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) e no teatro do Instituto Tomie Ohtake, em anos anteriores. "Passamos por vertentes da dança indiana, sul-africana, clássica e popular brasileira", enumera ele, que ensaia com a turma desde março, pelo menos duas vezes por semana.

Segundo Rubens, "Koan" é um nome oriental que vem do zen-budismo e remete a pequenas narrativas, parábolas e frases que propõem uma reflexão sobre temas como vida, morte, solidão, casamento e infância. O jornalista e psicanalista Sergio Ignacio, que concebeu a ideia do espetáculo, diz que essas "são questões universais, presentes em tempo de vida e amor líquidos".

Para Rubens, o grande objetivo é fazer com que os alunos possam entender melhor seu corpo como instrumento de comunicação, saber ouvir, falar, dividir espaço com o outro e se perceber novamente, cada um com a sua diferença, como numa sociedade. "Procuramos levar identificação ao espectador, e muitos que hoje estão no grupo assistiram ao espetáculo da plateia antes", diz. "Queremos possibilitar que cada indivíduo possa assumir o lugar do artista e abandonar a pessoa que ele é na sociedade", completa Sergio.

Como forma de preparação, os bailarinos tiveram aulas de clown, butô, aikido e esgrima. Além disso, pela primeira vez, a trilha foi composta especialmente para o espetáculo, pela banda de heavy rock paulistana Acid Tree. O palco e o cenário foram desenhados por jovens do Projeto Arrastão, no Campo Limpo, zona sul da capital paulista. Já o figurino cinza e coral, uma mistura de cores fria e quente, tem intenção de "revelar segredos" e trabalhar as percepções e sensações do público.

Raquel Dias/Divulgação
Ensaio do grupo Chega de Saudade Imagem: Raquel Dias/Divulgação

Espetáculo "Koan"
Grupo Chega de Saudade

Quando: De sexta (23) a domingo. Sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 20h
Onde: Auditório do Masp (Av. Paulista, 1578)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Ingressos: https://site.ingresse.com/ingressos-koan ou na bilheteria do Masp (de terça a domingo, das 10h às 17h30, e quinta, das 10h às 19h30)
Classificação: Livre
Informações: (11) 3251-5644 ou (11) 3149-5959

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